A Sexta-feira Santa

A recordação do sacrifício de Cristo, consumado hoje no Calvário, ocupa de tal modo o pensamento da igreja que ela renuncia à renovação da vítima divina, sobre o altar, ou seja, à celebração da Missa, limitando-se a participar no mistério sagrado pela Comunhão Eucarística. Antigamente, apenas o sacerdote podia comungar, neste dia. Mas hoje, tal como nos tempos primitivos, também os fiéis o podem fazer.

Os paramentos são vermelhos, pois esta é a cor dos mártires: Jesus foi a primeira testemunha do amor do Pai derramando o seu Preciosíssimo Sangue pela Redenção da humanidade.

A liturgia inicia-se com a prosternação dos ministros sagrados diante do altar, que é símbolo de Cristo. Representam eles a humanidade decaída e penitente, que implora humildemente o perdão dos pecados.

Um ponto a ser notado especialmente hoje é a Oração dos Fiéis. Nos primeiros séculos da Igreja estas orações eram a introdução habitual à liturgia eucarística, uso que foi restaurado no século passado. Durante muito tempo, na liturgia romana, ficaram restritas à celebração de Sexta-Feira Santa. A Oração dos Fiéis é feita pelas seguintes intenções: pela Igreja, pelo Papa, Clérigos e Povo, pelos governantes, catecúmenos, aflitos, herejes e cismáticos, judeus e pagãos.

Na cerimônia de Sexta-feira Santa é feita a adoração da Cruz. Tal rito começou em Jerusalém cerca do ano de 385. Na igreja da Santa Cruz, os Diáconos colocavam diante da cátedra do Bispo uma mesa coberta com uma toalha alvíssima e sobre ela a Relíquia da verdadeira Cruz. Os fiéis aproximavam-se, osculavam a Santa Relíquia, sendo proibido tocá-la com as mãos, a fim de prevenir qualquer excesso de devoção…hoje a Santa Igreja concede uma indulgência  plenária aos que participam piedosamente da veneração da Santa Cruz e oscularem devotamente o Santo Lenho.

De Jerusalém a cerimônia passou para Constantinopla e outras cidades, tendo sido introduzida em Roma no século VII. O Papa, ao ir de São João de  Latrão para a basílica sessoriana da Santa Cruz, ia incensando a relíquia do Lignum Crucis, portada por um Diácono num rico escrínio. Durante o trajeto cantava-se o Ecce Lignum e o Salmo Beati immaculati. Como nem todas as igrejas tinham uma Relíquia da verdadeira Cruz foi esta substituída pela imagem do Crucifixo, dando assim origem ao atual rito.

Entrará solenemente o crucifixo, precedido pela relíquia do Santo Lenho,  “quando for elevado, atrairei a mim todas as criaturas” Em vossa Cruz, humilhado, chagado,  agonizante, começastes a reinar sobre esta terra, possais assim senhor reinar também em nossos corações.

Terminada a celebração litúrgica, todos os presentes poderão adorar a Santa Cruz. De tal forma a Cruz está ligada ao sacerdócio de Cristo, e evoca o Divino Crucificado que a Igreja lhe presta culto de adoração, ou de latria, na Sexta-Feira Santa.

Também serão introduzidas solenemente na igreja a imagem do Bom Jesus e de Nossa Senhora, simbolizando o seu encontro a caminho do Calvário.

Voltemos nosso olhar para o Coração Imaculado de Maria e consideremos as dores que dilaceraram sua virginal alma:

Quem, Senhora, vendo-Vos assim em pranto, ousaria perguntar por que chorais? Nem a Terra, nem o mar, nem todo o firmamento, poderiam servir de termo de comparação à vossa dor. Dai-me, minha Mãe, um pouco, pelo menos, desta dor. Dai-me a graça de chorar a Jesus, com as lágrimas de uma compunção sincera e profunda.

Sofreis em união a Jesus. Dai-me a graça de sofrer como Vós e como Ele. Vossa dor maior não foi por contemplar os inexprimíveis padecimentos corpóreos de vosso Divino Filho. Que são os males do corpo, em comparação com os da alma? Se Jesus sofresse todos aqueles tormentos, mas ao seu lado houvesse corações compassivos! Se o ódio mais estúpido, mais injusto, mais alvar, não ferisse o Sagrado Coração enormemente mais do que o peso da Cruz e dos maus tratos feriam o Corpo de Nosso Senhor! Mas a manifestação tumultuosa do ódio e da ingratidão daqueles a quem Ele tinha amado… a dois passos, estava um leproso a quem havia curado… mais longe, um cego a quem tinha restituído a vista… pouco além, um sofredor a quem tinha devolvido a paz. E todos pediam a sua morte, todos O odiavam, todos O injuriavam. Tudo isto fazia Jesus sofrer imensamente mais do que as inexprimíveis dores que pesavam sobre seu Corpo.

E havia pior. Havia o pior dos males. Havia o pecado, o pecado declarado, o pecado protuberante, o pecado atroz. Se todas aquelas ingratidões fossem feitas ao melhor dos homens, mas por absurdo não ofendessem a Deus! Mas elas eram feitas ao Homem-Deus, e constituíam contra toda a Trindade Santíssima um pecado supremo. Eis aí o mal maior da injustiça e da ingratidão.

Este mal não está tanto em ferir os direitos do benfeitor, mas em ofender a Deus. E de tantas e tantas causas de dor, a que mais Vos fazia sofrer, Mãe Santíssima, Redentor Divino, era por certo o pecado.

E eu? Lembro-me de meus pecados? Lembro-me, por exemplo, do meu primeiro pecado, ou do meu pecado mais recente? Da hora em que o cometi, do lugar, das pessoas que me rodeavam, dos motivos que me levaram a pecar? Se eu tivesse pensado em toda a ofensa que Vos traz um pecado, teria ousado desobedecer-Vos, Senhor?

Oh, minha Mãe, pela dor do santo Encontro, obtende-me a graça de ter sempre diante dos olhos Jesus Sofredor e Chagado, precisamente como O vistes neste passo da Paixão.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *