Fabergé, da simplicidade para a graciosidade e nobreza

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Alguém que fortuitamente olha-se para um mineral assim poderia talvez dar pouca importância, ou quiçá lançá-lo na sargeta mais próxima. Entretanto, se por curiosidade, após tê-lo feito, procurasse saber o que de fato era aquele mineral, certamente ficaria descontente com a própria atitude, uma vez que o atirara ao lixo uma pedra de alta preciosidade, isto é, um rubi!

Quantas vezes em nossa vida podemos encontrar situações análogas, mas transpostas ao âmbito humano, ou seja, nos deparamos com pessoas à primeira vistas rudes e desprovidas de talentos e que, porém, depois de “trabalhadas” podem demonstrar raras habilidades.

Peter Carl Fabergé foi uma das pessoas que não se deixou levar pelas primeiras aparências e chegou, não sem muita genialidade, a inovar um artesanato estupendo, nobre e único. Foi ele “joalheiro imperial dos czares da Rússia e um dos melhores designers que o mundo já conheceu.”

“A família Fabergé era da Picardia, região setentrional da França. Sendo protestantes, os Fabergés fugiram às perseguições religiosas, em 1685, e se espalharam pela Europa. Gustav, pai de Carl, radicou-se em São Petersburgo em 1842, abrindo uma loja de ourivesaria e joalheria num acanhado porão da rua Morskaya. O negócio prosperou, e os Fabergés puderam mandar seu filho Carl (nascido a 30 de maio de 1846) para o colégio Swtaya Anna, um dos melhores da elegante capital da Rússia. Depois, mandaram-no estudar ourivesaria na Alemanha, Inglaterra, Itália e Paris.

Carl era um jovem esbelto, de nobre perfil e dedos longos e afilados. De novo na Rússia, trabalhando entre os artífices de seu pai, revelou imaginação, sagacidade e um verdadeiro talento para a liderança. Em 1870, seu pai entregou-lhe a firma.”[1]

“Até então, a arte da joalheria tendia para a realização de peças grandes, pesadas e espalhafatosas, mas o jovem Fabergé compreendeu que o que torna um presente verdadeiramente principesco não são pedras cintilantes nem esmeraldas enormes, mas a habilidade posta na sua confecção: a cuidadosa escolha das cores dos esmaltes, a delicadeza do engaste das pedras e o esmerado acabamento de detalhes como dobradiças e fechos. Começou cada vez mais a afastar a linha de trabalho da casa dos colares elaborados e gigantescos broches, passando a criar objetos que ele preferia: pequenas flores adornadas de jóias, carruagens em miniatura, liteiras e mobiliário, pequenos animais esculpidos em pedra. Também produziu uma gama de objetos úteis (binóculos de teatro, cigarreiras, cabos de guarda-chuvas, tinteiros e campainhas), apresentados em deslumbrantes tonalidades de ouro e esmalte. As pessoas achavam suas criações irresistíveis, e a sua clientela acabou por contar com personalidades como o czar Alexandre III.

Certo dia, em 1883, o imperador consultou o seu imaginoso joalheiro a respeito de um problema. A czarina era propensa a crises de profunda melancolia, e ele pretendia presenteá-la pela Páscoa com alguma distração interessante que lhe estimulasse o ânimo. Fabergé comprometeu-se a criar o presente ideal. Com seu humor típico, esmaltou um ovo de Páscoa dourado de modo a aparecer um ovo comum de galinha, mas a casca, quando aberta, deixava ver uma gema de ouro amarelo baço. Dentro da gema havia uma surpresa: uma galinha de ouro, de uns três centímetros de altura, com olhos de rubis. Quando se levantava a cabeça da galinha, esta ao se abrir e mostrava uma coroa de brilhantes, de dentro da qual pendia um pequeno berloque de rubi em forma de ovo.

O casal imperial ficou tão encantado com a engenhosidade de Fabergé que o czar lhe pediu que fizesse um ovo todos os anos. Esse ovo tinha de encerrar alguma surpresa, mas, à parte disso, a opção do design era de inteira responsabilidade do mestre joalheiro, que tinha carta branca quanto ao preço. Os ovos eram feitos nas oficinas de Fabergé no mais absoluto segredo. Por vezes, o czar não era capaz de conter sua curiosidade, e mandava perguntar: “Que tipo de ovo vai ser este ano?” Mas Fabergé, com uma piscadela de olho, responderia apenas: “Sua Majestade vai gostar.” E gostava mesmo! Depois da morte de Alexandre, seu filho Nicolau II herdou o costume, e os ovos criados por Fabergé foram presenteados nas cortes dos Romanov todas as Páscoas, durante 34 anos.”[2]

Quando estourou a revolução bolchevista na Rússia, em setembro de 1918 “Fabergé deixou o país, na calada da noite, disfarçado de diplomata britânico. Morreu na Suíça em 1920, com 74 anos. Os segredos de sua arte perderam-se para sempre. Mesmo assim, seus trabalhos são hoje mais populares do que nunca – minúsculos monumentos cintilantes ao gosto e à maestria de um homem que só se contentava com a perfeição.”[3]

Um talentoso joalheiro, um espírito contemplativo, um exemplo digno de nota para marcar a História. Se por vezes a banalização das coisas, que tanto encharca a sociedade atual, pode toldar nossos olhos de modo a não darmos importância ao que é gracioso, é bem verdade, entretanto, que a beleza suscitada por tais talentos pode nos fazer pensar em algo mais do que as meras trivialidades e, quiçá, elevar os nossos olhos para cogitações mais nobres, e nossas esperanças para realidades sobrenaturais e eternas!

Este foi um dos temas abordados numa das reuniões de formação cultural do Projeto Futuro & Vida, como o poderão comprovar pelas fotos a seguir…

 


[1] Janet Graham. Fabergé, o último dos grandes joalheiros. Seleções Reader’s Digest, nº 75 – agosto de 1977 – Pág. 52-56.

[2] Idem.

[3] Idem.

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