História ou realidade? A catedral “engloutie”

“Era uma vez…” Quantas histórias ouvimos contar em nossa infância que começam desta maneira… Maravilhamo-nos com tantas delas, mas guardamo-las empoeiradas no fundo de nossas recordações mais ou menos como um brinquedo antigo que nos causava grande atração quando crianças, mas que agora jaz no canto de algum armário, o qual será lembrado apenas nalguma circunstância fortuita em que lhe passarmos os olhos de modo inopinado…

Serão todos os contos um mero passatempo sujeito ao esquecimento como acabamos de descrever? Diríamos que, por certo, não. Há determinadas histórias que por mais que não tenham sido reais no rigor da palavra “real”, são reais ao menos no que diz respeito à vida de muitos de nós, ou seja, a seu modo acontecem na vida de algumas, ou de muitas pessoas. Para embasar nossa afirmação tomemos apenas um exemplo de histórias, aliás, a “quintessência” em matéria de histórias, que são as parábolas criadas por Nosso Senhor Jesus Cristo nas pregações que fazia.

Há quem diga que a história do filho pródigo não foi real, e que foi apenas para exemplificar um pouco, etc. Mas, quantos “filhos pródigos” já não passaram pela História? Não terei sido eu mesmo um filho pródigo com relação a Deus em minha vida? Olhando algumas histórias sob esse prisma percebemos que muitas delas simbolizam muitas realidades que elas mesmas não contam…

Isto posto, passemos à história que encabeçou o presente artigo. A história da catedral engloutie, ou submersa, assim é narrada:

“Era uma vez uma catedral bonita plantada há muitos anos na beira do mar. Era a jóia da aldeia. O povo gostava dela. E em dia de festa mais bonita ficava, cheia de gente, e os sinos dobrando.

Mas, um dia; foi o vento? Foi a maré, muito forte? Foram os pecados da gente que irritaram Deus? O certo é que o mar subiu e devorou a catedral. Depois, durante muitos séculos não se ouviu falar mais da catedral engloutie.

Mas, quando era calma a noite, quando não silvava o vento, gemendo no arvoredo, nem uivavam os cães na redondeza, se o barqueiro que singrasse aquelas ondas apurava o ouvido, escutava lá longe, vindo do fundo das águas, o claro som argênteo de sinos tocando. Eram os sinos da catedral que dobravam para as suas festas…”[1]

Ora, o que se deu com a catedral engloutie também ocorre a seu modo com cada alma humana. Quantas vezes esbarramos na vida com pessoas que, ao nosso ver, são um “mar de defeitos”. Pensamos não existir nada de aproveitável em tais pessoas, mas, bastaria aguçar um pouco o ouvido para escutar, muito distantes talvez, mas sonoros e cristalinos, cantarem os sinos desta catedral engloutie, que nos falam de qualidades que foram submersas com o tempo.

O que é preciso é nunca desesperar acerca de ninguém. É saber descobrir em cada coração o reflexo de Deus que aí existe, ainda que esteja escondido num lamaçal de defecções. É saber fazer com que bimbalhem os sinos da catedral. Desanimar jamais! Desanimar é o pior que pode haver. É perder a batalha da vida. Como, aliás, nos ensina Mons. João Clá:

“De maneira que o desânimo é pecado. É pior que o pecado até, porque os tratadistas de vida espiritual dizem que com a perda da esperança, o demônio atinge todas as virtudes. Todas as virtudes que nós possamos ter são atingidas quando se perde a virtude da esperança. Enquanto que quando se perde uma qualquer outra virtude, se perde aquela somente, mas quando se perde a esperança, todas as outras ficam atingidas. Então, é dos piores pecados que existem, é o desânimo.”[2]

Porém, qual a solução para não desanimar? Certamente é rezar, e rezar confiante e perseverantemente. “Portanto, ao rezarmos, nós devemos rezar com toda confiança, porque uma das notas essenciais para que nós sejamos atendidos por ele é esta confiança plena. E não podemos pedir com incerteza, devemos pedir com toda a segurança, nosso tom deve ser inteiramente categórico, na convicção plena de que vamos ser atendidos. E essa é a força da nossa pertencença à Igreja, essa é a força da nossa prática da virtude, essa é a força de tudo aquilo que nós necessitamos e obtemos, porque a força está nessa convicção. Ele [Nosso Senhor Jesus Cristo] não pode negar a palavra que usou.”[3] E qual palavra usou? “Eu vou para o Pai, e o que pedirdes em meu nome eu o realizarei a fim de que o Pai seja glorificado no       Filho.”


[1] D.Lucas Moreira Neves, A Semente é a palavra, págs. 13-16, 2ª edição, 1969, Edições Paulinas, São Paulo, SP.

[2] Mons. João S. Clá Dias, EP. Homilia de 01/12/2009.

[3] Mons. João S. Clá Dias, EP. Homilia de 29/05/2009.

 


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