Nossa Senhora: A Luz da Fé

Neste Ano da Fé, no qual todos nós somos convidados a crescermos nesta virtude e manifestá-la pelas obras mediante a perseverança, encontramos em Maria Santíssima o augusto exemplo para imitarmos. Ela que, enquanto todos  duvidavam da Ressurreição do Senhor, foi a única “labareda” de fé que brilhou na escuridão dos dias em que o Salvador descera à mansão dos mortos. Acompanhemos, então, algumas considerações acerca desta Fé de Maria, qual Luz que ilumina em meio às trevas…

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“Quem é esta que desponta como a aurora”? (Ct 6, 10). Tais palavras são perfeitamente aplicadas pela Igreja a Nossa Senhora. São do Antigo Testamento, é verdade, época em que a humanidade estava sob o jugo da escravidão e as trevas ainda reinavam. Contudo, já existia um profético delineamento de Maria como luz, na promessa da vitória de uma mulher sobre a serpente (cfr. Gn. 3,15), feita aos nossos primeiros pais caídos no pecado.[1] Como início do cumprimento dessa profecia, a história viu despontar no horizonte a esperança radiosa quando a Santíssima Virgem trouxe em seu seio Aquele que é “a luz das nações” (Cf. Is 49, 6).

Sabemos que a palavra aurora expressa aquele período da manhã em que o sol ainda não é visto inteiramente, mas seus primeiros raios já cintilam clareando a superfície da Terra, antes sombria, mas, agora, numa magnífica tonalidade rósea tão característica da hora matutina. Nossa Senhora não era o astro rei, mas era “bela como a lua”, (Ct 6, 10) e, de si os flamejantes raios prenunciantes do “Sol”, que d’Ela nasceria, já irradiavam, pois é também “fulgurante como o sol” (Ct 6, 10).

Não nos esqueçamos das palavras contidas no livro do Apocalipse, no qual São João Evangelista se refere a “um grande sinal no céu: uma mulher vestida de sol” (12,1). São Bernardo aplica essas palavras a Nossa Senhora: “Ela sem chegar à união pessoal, parece totalmente imersa naquela luz inacessível, naquele fogo que purificou os lábios do Profeta Isaías e no qual ardem os Serafins. Desde modo, mereceu Maria, não apenas ser tocada ligeiramente pelo Sol divino, mas antes ser coberta com ele por todos os lados, banhada e como que contida pelo mesmo fogo.”[2]

Assim, a Virgem Santíssima é reflexo de Deus, pois o Criador derramou n’Ela Sua Bondade, e, como cantamos a Seu respeito: “no instante mesmo em que fostes criada, éreis santa e imaculada: nunca Vos ofuscou a menor sombra, e do Sol de Justiça sois radiante aurora.”[3]

Portanto, assim como a aurora parece transmitir, misteriosamente, o porvir do dia que nasce, a Santíssima Virgem já antecipava o resplendor deslumbrante d’Aquele que comunica a verdadeira vida e ilumina toda Terra (Cf. Jo 1, 3). Embora o dia da salvação do gênero humano começou quando a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se encarnou, por causa da excelência da vida e das virtudes de Maria, Ela também é chamada de Sol, pois está escrito: “o que o sol é para o mundo quando nasce nas alturas de Deus, assim é a face de uma mulher virtuosa” (Ecles 26, 21).[4]

Não nos esqueçamos, porém, que o nascer do sol é uma pálida realidade, se o compararmos com essa resplandecente aurora que foi o aparecimento de Nossa Senhora nesta Terra! Os mais grandiosos fenômenos da natureza, mesmo os que representam algo de precioso e inestimável, nada são diante do nascimento de Maria. A fim de preparar a encarnação de Seu Filho, Deus Pai, predestinou Maria para ser a aurora desse dia de salvação, para ser Mãe do Sol de Justiça, para trazer ao mundo esta luz que devia dissipar as trevas da ignorância, e confundir as potências do inferno evocadas pelo pecado, “verdadeira aurora da Redenção, Maria foi, portanto, iluminada desde a manhã pelos raios da glória de Deus”.[5]

Porém, qual era a virtude que mais brilhava na Santa Mãe de Deus? “A verdadeira grandeza de Maria reside precisamente na vida de fé.” [6] Quando Nossa Senhora surgiu no horizonte, difundiu sobre a terra a luz de Cristo, com um despontar de fé inigualável, inabalável e inquebrantável que se fez presente em todos os atos de sua existência terrena. N’ela, porém, tal virtude não iluminava apenas como a candura da aurora, era também triunfalmente esplendorosa como o sol do meio dia, certa e serena ainda que na penumbra do crepúsculo.

Fé inigualável

Por que inigualável? Porque Maria recebeu a uma fé superior a qualquer outra criatura. Não podemos fazer ideia da elevação da fé que possuía Maria. [7]“Em relação a todos e cada um dos cristãos e a cada um dos homens, Maria é a primeira na fé: é ‘aquela que acreditou’”.[8]

Como explicitou Santo Irineu: “o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; e aquilo que a Virgem Eva atou, com a sua incredulidade, a Virgem Maria desatou-o com a sua fé”.[9] Esperando contra toda esperança, pronunciou seu “sim” incondicional, dando início à Nova Aliança, num momento em que o gênero humano nunca dependia tanto de um consentimento como o Seu. Pronunciou assim o Seu Fiat entregando na obediência da Fé todo o seu ser: “Eis a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38).[10] Por causa desta fé, disse Isabel à Virgem: “Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!” (Lc 1, 45). E depois: “elevou o seu cântico de louvor ao Altíssimo pelas maravilhas que realizava em quantos a Ele se confiavam (cf. Lc 1, 46-55)”.[11]

Ademais, o Filho de Deus, uma vez deitado na manjedoura da pobre e precária gruta em Belém, foi adorado por Sua Mãe Santíssima cuja Fé não permitia duvidar um só instante de que Aquele Menino a quem Ela mesma havia gerado, e estava ali, num estábulo… era Seu Senhor e Criador do Universo.

Fé inabalável

Sua fé é também inabalável porque ouvindo dos lábios do Profeta Simeão de que Seu Filho estava destinado para ser sinal de contradição que causaria a ruína ou a ressurreição para muitos homens de Seu povo (Cf. Lc 2, 34), a manteve confiando de que Aquele Menino seria também a “consolação de Israel” (Lc 2, 25).

Perseguido pelo usurpador Herodes para matar o Rei dos reis (Cf. Mt 2, 13-14), Sua fé não estremeceu e creu de que o Menino Jesus, que agora fugia para o estrangeiro, haveria de implantar o reino de Deus em todo o mundo.

Em Caná, o vinho das bodas terminou, mas a fé de Maria continuou, e intercedeu dizendo: “‘Eles já não têm vinho.’ Respondeu-lhe Jesus: ‘Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou.’”(Jo 2 ,3-4). Mas porque crê, conserva sua fé intacta e diz aos serventes: “Fazei o que ele vos disser.” (Jo 2, 5) Aqui se realiza o primeiro milagre e os discípulos creêm em Jesus Cristo (Jo 2, 11).[12]

Fé inquebrantável

E inquebrantável, por quê? Eis a provação mais lancinante e pungente para qualquer mãe: vendo Seu Filho, o Bom, o Justo, o Misericordioso, enfim, o Seu Deus, ser golpeado na flagelação e coroado ironicamente pelos algozes, sabia ser Ele o verdadeiro Rei; maltratado no caminho do Gólgota e pregado na cruz sabia que um dia o madeiro seria símbolo de glória que encimaria as construções mais imponentes assim como as coroas dos maiores soberanos. Contemplando-O, finalmente, naquela situação mais ignominiosa possível tinha a certeza de que Aquele Homem, em meio a tantas dores, era Deus, e, morto, foi aquela que como ninguém acreditou em Sua ressurreição. Foi este o maior ato de fé já praticado nesta Terra, ato cujo objeto era o mais difícil: crer que Jesus obtinha o maior dos triunfos pela mais completa imolação.[13]

Eis que se cumprem as duas profecias: a de Simeão, e a de Deus; a espada Lhe transpassa o coração, porém não golpeia a Sua Fé, mas, a cabeça da serpente, sim, é ferida e esmagada, realizando assim a outra profecia (cf. Gn 3, 15).

Como conseqüência dessa fé, “Maria saboreou os frutos da ressurreição de Jesus e, conservando no coração a memória de tudo (cf. Lc 2, 19.51), transmitiu-a aos Doze reunidos com Ela no Cenáculo para receberem o Espírito Santo (cf. Act 1, 14; 2, 1-4).”[14]

Sol que espanta as trevas, Lua que consola os peregrinos…

Nossa Senhora continua sendo farol de fé, pois sua luz é inextinguível. E, “ora ‘eleita como o sol,’ ora ‘formosa como a lua,’ continua a iluminar os homens em meio às trevas deste mundo.”[15] Para nossa consolação, nesta noite da vida terrena existe essa Luz que nos guia qual estrela de Belém apontando para Deus.

É à Nossa Senhora que devemos recorrer nas dificuldades e em todas as ocasiões em que nossa fé esteja em risco de sofrer abalos, sem nos esquecermos jamais de que é precisamente com esta fé de Mãe de Deus e nossa, – fé firmíssima, certíssima e imediata em sua adesão – que Ela quer atuar em favor de todos os que a ela se entregam como filhos.[16]

Lucas Alves Gramiscelli


[1] Cf. CONCÍLIO VATICANO II. Constitutio Dogmatica de Ecclesia: Lumen Gentium, 21 nov. 1964. n. 55. In: AAS 57 (1965). p. 59-60.

[2] BERNARDO. Obras Completas. Madrid: BAC, 1953. Vol. 1. p. 726.

[3] Cum creáris, absque mora tota sancta et decora: Non est in te nubis hora, tota corúscans aurora justítiae solis.

[4] Cf. ÁVILA, Juan de. Obras Completas. Madrid: BAC, 1953. Vol. II. p. 937.

[5] LE MULIER, Henry. De La Très-Sainte Vierge d’aprés lês Saintes Écritures et lês Pères de l”eglise. Paris: Pilon, 1854. Vol. I. p. 42.

[6] SCHILLEBEECK. Maria, Mãe da Redenção, p. 13.

[7] Cf. GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La Mère Du Sauveur et notre vie intérieure. Paris: Du Cerf, 1948. p. 132.

[8] JOÃO PAULO II. Litterae Encyclicae: Redemptoris Mater, 25 mar. 1987. n. 46. In: AAS 79 (1987). p. 424.

[9] S. IRINEU, Adversus Haereses, III, 22, 4: PG 7, 959.

[10] Cf. JOÃO PAULO II. Litterae Encyclicae: Redemptoris Mater, 25 mar. 1987. n. 13-14. In: AAS 79 (1987). p. 375-377.

[11] BENTO XVI. Litterae Apostolicae Motu Proprio Datae: Porta fidei, 11 out. 2011. n. 13. In: AAS 103 (2011). p. 732.

[12] Cf. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. n. 2618.

[13] Cf. GARRIGOU-LAGRANGE, Réginald. La Mère Du Sauveur et notre vie intérieure. Paris: Du Cerf, 1948. p. 132-134.

[14] BENTO XVI. Litterae Apostolicae Motu Proprio Datae: Porta fidei, 11 out. 2011. n. 13. In: AAS 103 (2011). p. 732.

[15] Clá Dias, João S. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. Vol. I. 2. ed. 2010. p. 328.

[16] JOÃO PAULO II. Litterae Encyclicae: Redemptoris Mater, 25 mar. 1987. n. 46. In: AAS 79 (1987). p. 424.

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