A Encarnação: Deus se fez homem para fazer o homem filho seu

Arautos em São Paulo: “A Encarnação”

Aos poucos, a esta altura do ano, as casas, comércios e demais construções vão se revestindo de uma decoração peculiar. A atmosfera do Natal vai tomando espaço nas cogitações…

É a consideração do nascimento do Menino-Deus, o qual se encarnou no seio de uma Virgem. Encarnação… mas para quê a Encarnação? É um tema que bem pode ser objeto de uma análise mais detida. Por que não, nestes dias que antecedem o Natal?

Deus “apiedou-se mais do gênero humano do que dos demais seres existentes na terra”[1], e percebendo que naturalmente ele era incapaz de subsistir pelos séculos, concedeu-lhe algo a mais: criou o homem “à sua imagem, fazendo-os partícipes do poder de seu próprio Verbo”[2], e concedendo-lhes, assim, a bem-aventurança.

Introduzido no Paraíso terrestre, o homem pode desfrutar de inúmeros benefícios e liberalidades de Deus, sob apenas uma condição: “Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás de morrer.”[3] Não obstante, caiu o homem e o pecado foi introduzido na face da Terra.

Segundo Santo Atanásio, grande luminar da Igreja, o “terás de morrer” não vem a significar somente “morrereis, mas permanecereis sujeitos à corrupção e à morte.”[4] Porém, longe de apartar das considerações a Encarnação do Verbo o fato de considerar a queda do primeiro homem, antes concorre para a conclusão desejada, pois “o Senhor veio e apareceu entre os homens”[5], de modo que “o homem foi o motivo da encarnação, e por sua salvação, o Verbo amou o homem até nascer e manifestar-se com um corpo.”[6]Deus havia criado o homem, tirando-o do nada e concedendo-lhe viver segundo Deus, desejando que possuísse incorruptibilidade eterna: “Deus criou o homem para a incorruptibilidade e o fez imagem de sua própria eternidade”[7], mas “os homens, por negligência, abandonaram a contemplação de Deus”[8], “se desviaram dos bens eternos, e por instigação do diabo voltaram-se para as coisas corruptíveis, tornando-se deste modo para si mesmos causa de morte.”[9]

“Então, o que faria Deus, que é bom, uma vez que seres racionais pereciam e as obras divinas se precipitavam na ruína?”[10] Deixar que a morte e a corrupção prevalecessem no mundo? Então, para quê criá-los? “Era preferível não ser do que ser e perecer por abandono.”[11]

Certamente pela própria dignidade da bondade de Deus não convinha deixar os homens serem pela corrupção arrebatados. Fazia-se necessário uma inteira restauração. Mas quem poderia fazê-lo senão o Verbo de Deus, que no começo criara todas as coisas e sob seu governo elas se encontravam? “Competia-lhe reconduzir o corrutível à incorrupção, e salvar o que convinha ao Pai em todas as coisas. Ele, o Verbo de Deus, acima de tudo, era o único, portanto, capaz de refazer todas as coisas, de sofrer por todos, de ser em favor de todos digno embaixador junto do Pai.”[12]Foi o que Deus fez: tomou a carne humana a fim de restaurar quem jazia sob o jugo do pecado. Deus se fez homem para tornar o homem filho seu.


[1] SANTO ATANÁSIO. Contra os pagãos; A Encarnação do Verbo; Apologia ao Imperador Constâncio;Apologia de sua fuga; Vida e conduta de Santo Antão. Trad. Orlando Tiago Loja Rodrigues Mendes. São Paulo: Paulus, 2002, (Patrística; 18). 3, 3.

[2] Idem 3, 3.

[3] Gn 2, 16.17.

[4] A encarnação do Verbo 3, 5.

[5] Idem 4, 2.

[6] Idem 4, 3.

[7] Sb 2, 23-24.

[8] A encarnação do Verbo 4, 4.

[9] Idem 5, 1.

[10] Idem 6, 7.

[11] Idem 6, 7.

[12] Idem 7, 5.

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