A doçura de viver

Arautos em São Paulo: “A doçura de viver”

Vida… dela quem não gosta? Muitos podem até oferecê-la em palavras, mas desprender-se de um tão grande bem como esse é especialmente difícil. No entanto, apesar de o benefício ser comum a todos os homens, uma coisa não é discutível: há modos e modos de se levar a vida…

Há quem tenha vivido de tal maneira que no fim de seus dias tenha podido exclamar: “como foi doce viver!” Mais que uma simples pessoa, houve época em que se pôde dizer haver a verdadeira “doçura de viver”, ou melhor, a douceur de vivre”, onde o trato de uns para com os outros de tal modo eram requintados em educação e respeito que, não fosse o conhecimento das mazelas humanas, quase se pensaria viver no paraíso. Tal período foi intitulado como Antigo Regime, Ancién Régime, antes da terrível mudança ocorrida na França por ocasião da Revolução de 1789.

Entre os elementos que constituíam a “doçura de viver”, especial papel era dado àquele modo distinto de proceder e de falar, conhecido pela expressão politesse (polidez). Essa qualidade encontrava-se difundida por todas as classes sociais e se baseava numa espécie de necessidade inata de devotamento, abnegação e dom de si mesmo. Tal estado de espírito era a aplicação do ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos tenho amado.” (Jo 13, 34)

Mas, o que é a politesse?

Um escritor (Hipolyte Taine) bem a definiu:

“É uma “arte engenhosa e encantadora que penetra todos os pormenores da palavra e da ação para transformá-las em graça [no sentido de bom trato, de encanto], e que impõem ao homem, não o servilismo e a mentira, mas o respeito e a preocupação com os num padrão que não é o seu, mas o que analisamos aqui é o seu modo de tratar. outros, permitindo-lhe, em contrapartida, extrair da sociedade humana toda a alegria que ela pode proporcionar”.

Juntamente com a politesse, desabrochou outra rosa, a causerie, a arte de conversar.

Naqueles tempos essa arte se desenvolveu com tal brilho, transformou-se em algo tão magnífico, que passou a ser reputada uma das mais altas distinções da vida. Por amor à brevidade, é-nos impossível contar os inumeráveis casos de politesse e causerie que enchem as páginas da história do Ancien Régime.

Vejamos apenas alguns pequenos exemplos:

* O Grand Condé

O primeiro desses casos passou-se com Luís II de Bourbon, cujos títulos eram: Príncipe de Conde, primeiro príncipe de sangue real, primeiro Par de França, Duque d’Enghien, de Bourbonnais, de Châteauroux, de Montmorency, Cavaleiro das Ordens do Rei, governador da Borgonha e de Bresse.

Em 1674, após uma grande batalha, na qual a bandeira francesa alcançou esplêndida vitória graças à coragem e sabedoria do Príncipe de Condé, o Rei Luís XIV quis recebê-lo solenemente no palácio de Saint-Germain.

Tolhido pelos ferimentos ainda não cicatrizados e por um reumatismo (nessa ocasião contava com 53 anos), o Grand Condé desculpava-se por subir demasiado lentamente a grande escada no alto da qual o rei e a corte o esperavam, Luís XIV lhe respondeu:

— Quem vem tão carregado de vitórias não pode caminhar depressa!

* “Espere mais um pouco…”

Outro fato deu-se com um soldado que perdera o braço numa batalha, e por isso ficara inválido. Todas as semanas ia ao Palácio de Versailles aguardar a passagem do rei e pedir-lhe um aumento de sua pensão, pois o que recebia não era suficiente para o sustento de sua família.

A resposta do rei, invariavelmente, era:

— Está bem, espere mais um pouco…

Assim aconteceu durante várias semanas.

Um dia ao renovar seu pedido, ouviu do Rei a costumeira resposta.

Tendo o rei passado adiante, o soldado, fazendo uma reverência, disse:

— Majestade!

O rei voltou-se para o soldado, fazendo um gesto permitindo-lhe falar:

— Majestade, se eu houvesse respondido a meu comandante, “espere mais um pouco”, quando recebi a ordem de avançar, talvez eu ainda estivesse com o meu braço!

O Rei gostou tanto de ouvir aquela ousada frase que imediatamente deu ordem para que sua pensão não fosse aumentada, mas duplicada!

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