A nobre arte de adestrar falcões – I

Arautos Granja Viana: “A nobre arte de adestrar falcões”

O falcoeiro Bernardt Wetzel liberta seu cão caçador. O perdigueiro dispara em direção a uns arbustos, e, segundos depois, levanta vôo uma perdiz. Voando em círculos a 100 m de altitude, um falcão peregrino escocês, com 1 m de envergadura de asas, paira majestosamente na claridade do céu. Ao avistar a perdiz, mergulha, com as asas esticadas e rígidas, atingindo uma velocidade que pode ultrapassar a 250 km/h. Ataca a perdiz e pousa com ela no campo.

Wetzel, homem alto, louro, ligeiramente bronzeado de sol pela vida ao ar livre, caminha em direção de seu falcão, orgulhosamente em pé, segurando a sua presa.

Exibe-lhe então um pedaço de carne para que voe de volta a sua luva de couro. Após um momento de hesitação o animal obedece. Depois, Wetzel apanha a perdiz e a deposita em seu saco de caça, sempre sob o olhar penetrante, vivo, cintilante do falcão peregrino.

O costume de capturar aves de rapina e treiná-las para a caça remonta a 2000 a. C. aproximadamente na Ásia Central. A falcoaria tornar-se-ia popular na Europa durante a Idade Média, e os falcoeiros holandeses gozavam de grande reputação. No século XVII, Valkenswaard, no Sul da Holanda, em particular, tornar-se-ia um importante centro desta arte.

A caça com aves de rapina esteve durante muito tempo reservada à nobreza, havendo normas rígidas a respeito de quem podia caçar e com que tipo desses predadores. Por volta do ano de 1500, por exemplo, o emprego de falcões peregrinos estava reservado apenas aos duques e príncipes. Os imperadores eram os únicos a poder caçar com águias de grande porte. Os falcões nórdicos eram apanágio dos reis. Quem ocupava as classes inferiores a estas caçavam com açores e gaviões.

Com o passar do tempo, essas leis desapareceram, mas a falcoaria continua a ter sua nobreza, pois não é qualquer um que possui os dotes necessários para o adestramente e a caça com falcões.

Wetzel diz que o instrutor não pode manifestar medo e receio quando o falcão volta perigosamente o seu afiado bico para a sua face. Ainda há uma série de leis que regularizam o direito a caçar com aves de rapina. Wetzel, por exemplo, teve de esperar 10 anos pela sua, mesmo depois de ter provado a um instrutor que sabia lidar com aves de rapina e conseguiria controlar responsavelmente as populações de caça.

Na Holanda, existem cerca de 120 falcoeiros, o que não é muito, se compararmos a cifra às de países árabes como o Qtar, o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos, onde a antiga tradição ainda prospera.

O interesse de Wetzel pela falcoaria foi despertado quando o atual treinador ainda se encontrava na escola primária e pela janela assistia ao vôo dos gaviões, açores e falcões.

Concluído os estudos, um encontro casual com o diretor da Escola Britânica de Falcoaria resultaria num curso que o jovem faria na Inglaterra.


Como se adestra um falcão

No “escritório” de Wetzel, onde ele adestra as suas aves, estão empoleirados numa barra, dois falcões vindos da Índia que ainda não completaram um ano, enquanto no jardim estão dois falcões e um açor. Todos foram criados para a caça.

Apanha Rani, um dos falcões indianos, e o leva no punho para um passeio de treino. Seu punho, que desempenha um papel determinante na falcoaria, está protegido das garras cortantes das aves de rapina por uma espessa luva de couro. Por vezes, Bernardt caminha durante cinco ou seis horas por dia, treinando um animal, para habituá-lo ao ambiente, ao punho e ao falcoeiro. A ave deverá acostumar-se a ver o punho como um local seguro para se alimentar. O passo seguinte  é convencê-la a voar de certa distância até ele. Primeiro, alguns centímetros, que irão aumentando gradualmente até chegar a 100 m. As recompensas sistemáticas de comida a “ensinam” a voltar para o punho do falcoeiro.

O momento mais assustador é aquele que o pássaro é libertado pela primeira vez. “No ano passado, eu estava pondo um deles para voar. A ave estava perfeita, melhor que nunca, subiu a mais de 150 m, virou para a esquerda e nunca mais a vi. O que terá acontecido ainda hoje é um mistério para mim.”

Após algumas semanas de habituação, inicia-se outra fase de treinamento. Uma presa artificial feita com duas asas de pato ou de outro pássaro são fixadas uma à outra, às quais se prende um pedaço de carne, que depois é pendurado a um fio. O tempo de treinamento total dura de seis a oito semanas, até o dia em que a primeira presa verdadeira é perseguida.

Um pequeno capuz de couro é uma das principais peças para o adestramento. “Se houver muita gente por perto ou muito trânsito, pode-se encapuzá-los”, explica. “Isso faz maravilhas.” Com destreza, faz deslizar o capucho pela cabeça de Rani. A venda, inofensiva, é utilizada para manter os pássaros sossegados durante o treino ou quando são transportados. A reação natural de um pássaro que não consiga ver é manter-se quieto. (In: SABE)

quieto.

Uma resposta para “A nobre arte de adestrar falcões – I”

  1. Acho magnifico esses pássaros em sua destreza e precisão, e muito mais bonito encontrar pessoas que são apaixonadas por essa arte de adestrar falcões. Parabéns!

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