Muitas almas têm medo de Deus

Arautos em São Paulo: “Muitas almas têm medo de Deus”

Verdades que muitas vezes esquecemos…

“São poucos os cristãos, mesmo entre os fervorosos, que possuem essa confiança que exclui toda ansiedade e hesitação. E são várias as causas dessa deficiência. O Evangelho narra que a pesca miraculosa aterrou São Pedro. Com sua impetuosidade habitual, ele mediu de relance a infinita distância que separava a grandeza do Mestre da sua própria pequenez. Tremeu de terror sagrado, e prosternando-se, a face contra o chão, exclamou: “Afastai-Vos de mim, Senhor; que sou um pecador! “.

Certas almas têm, como São Pedro, esse terror. Elas sentem tão vivamente a própria indigência e as próprias misérias, que mal ousam aproximar-se da Divina Santidade. Parece-lhes que um Deus assim tão puro deveria sentir repulsa ao inclinar-Se para elas. Triste impressão, que lhes dá à vida interior uma atitude contrafeita, e, por vezes, a chega a paralisá-la completamente.

Como se enganam essas almas!

Logo aproximou-Se Jesus do Apóstolo assustado: “Não temas!”, disse-lhe, e fê-lo levantar-se…

Vós também, cristãos, que do seu amor tantas provas tendes recebido, nada temais! O que Nosso Senhor receia acima de tudo é que tenhais medo d’Ele. Vossas imperfeições, vossas fraquezas, vossas faltas, mesmo graves, vossas reincidências tão frequentes, nada O desanimará, contanto que desejeis sinceramente converter-vos. Quanto mais miseráveis sois, mais Ele tem compaixão de vossa miséria, mais deseja cumprir, junto a vós, sua missão de Salvador…

Não foi para os pecadores, sobretudo, que Ele veio à terra?…”[1]

 


[1] O Livro da Confiança. Pe. Thomas de Saint-Laurent, cap. I.

Um Menino que transformou a História

 

“Entremos numa certa Gruta e ali veremos um Menino adorado por sua Mãe Santíssima e São José, reunidos em família, oferecendo mais glória a Deus do que toda a humanidade idólatra, e até mesmo mais do que os próprios Anjos do Céu em sua totalidade. Já em seu nascimento, numa singela manjedoura, aquele Divino Infante reparava os delírios de glória egoísta sofregamente procurada pelos pecadores. Ele se encarnou para fazer a vontade do Pai e, assim, dar-nos o perfeitíssimo exemplo de vida.” (CLÁ DIAS, Mons. João Scognamiglio. O Inédito sobre os Evangelhos. Cittá del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, p. 105-106, vol. V).

Ao acompanharmos a Liturgia nesses dias contemplamos o nascimento de um Menino, o qual, dividindo a História ao meio, merece perene louvor pelos séculos, representado pela solene oitava de comemoração do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Se enganaria quem julgasse o Natal como data passada, um dia mais festivo em meio às centenas de outros tantos. Certamente assim seria, se o nascimento comemorado fosse de qualquer um de nós e não de Deus, como de fato é. Nascimento de Deus? A pergunta mostra-se absurda em sua elaboração, pois quem é Deus obviamente não tem princípio. Todavia, o que para os homens parece absurdo, para Deus foi o meio escolhido para demonstrar aos mesmos homens, dignos de todo castigo, o amor e a condescendência d’Aquele que não se horrorizou em tomar nossa carne para nos reconduzir àquela pátria impossível de alcançar, não fosse a verdade de um tão admirável Natal.

Natal glorioso, mas ao mesmo tempo silencioso, repleto de luz e, entretanto, escondido em meio às trevas da meia-noite, cantado pelos Anjos do Céu, presenciado apenas pelos pastores da terra… Paradoxo sublime! Registrado nas páginas da História, lembrado nas canções… Canções? Sim, canções; e das mais variadas partes do mundo e épocas históricas. Foi precisamente para rememorar essas canções que os jovens do Projeto Futuro & Vida prepararam diversas apresentações natalinas neste fim de ano. Uma delas, e digna de nota, foi realizada na diretoria de ensino do município de Osasco – SP, como todos poderão acompanhar nas fotos deste post, e da página “ÚLTIMAS ATIVIDADES”, deste mesmo blog.

Quem é mais, manda menos…

A vida comum e corrente de todos os dias nos traz ensinamentos valorosos na compreensão de vários acontecimentos. A observação detida, e às vezes desinteressada, pode nos fornecer princípios que talvez décadas de estudo não proporcionariam. Assim nascem, na maioria das vezes, os chamados “ditados populares”, os quais, diga-se de passagem, resumem em pequenas sentenças o que os livros dedicariam boas páginas no intuito de tratar dignamente de certos temas.

Pois bem, um dos ditos populares muito familiar a nossos ouvidos talvez seja: “Quem pode mais, chora menos…” Frase um pouco crua no que diz respeito a uma educação mais polida, porém, verdadeira. Não obstante, mais do que o simples significado da afirmação, o que nos interessa no presente momento é a “moldura” que a reveste, a qual, sem muita dificuldade, deixa entrever que aquele que possui maior força, maior poder, maior autoridade, é o que faz valer sua voz, é o que subjuga, que intimida precisamente pelo que representa diante dos outros. Essa concepção, apesar de não figurar tão sem véus assim, é o modo como muitas vezes interpretamos a toda e qualquer autoridade, como se a hierarquia viesse de fábrica com uma espécie de selo macabro e injusto. Ora, a análise de uma vida digna de imitação, isto é, a de Nosso Senhor Jesus Cristo bem nos mostra uma outra concepção acerca da hierarquia, conforme comenta Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP:

“À primeira vista, a constituição da Sagrada Família é um mistério, pois nela quem tem mais autoridade é São José, como patriarca e pai, com direito sobre a esposa e sobre o fruto de suas puríssimas entranhas.

A esposa é Mãe de Deus, Mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Sendo Mãe, tem Ela poder sobre um Deus que Se encarnou em seu seio virginal e Se fez seu Filho.

Nosso Senhor Jesus Cristo, como filho, deve obediência a esse pai adotivo, aceitando em tudo a orientação e a formação dada por José; e também à sua Mãe, criatura sua. Que imenso, insondável e sublime paradoxo!

Assim, na ordem natural, José é o chefe; Maria, a esposa e mãe; e Jesus, a criança. Porém, na ordem sobrenatural, o Menino é o Criador e Redentor; Ela, a Medianeira de todas as graças, Rainha do Céu e da Terra; e José, o Patriarca da Igreja. José, o que de si tem menos poder, exerce a autoridade sobre Nossa Senhora, a qual tem a ciência infusa e a plenitude da graça, e sobre o Menino, que é o Autor da graça.

Por que dispôs Deus essa inversão de papéis?

Assim fez para nos dar uma grande lição: Ele ama a hierarquia e deseja que a sociedade humana seja governada por este princípio, do qual o próprio Verbo Encarnado quis dar exemplo.”[1]


[1] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2012, 130-131, vol. V.

O Sol, imagem de Deus

Arautos em São Paulo: “O Sol, imagem de Deus”

Os doutores da Igreja tentaram explicitar ao máximo o significado da auto-definição divina: “Eu sou aquele que sou”. E concluíram eles que só é possível compreender algo deste mistério divino através de comparações.

O Evangelho de São João apresenta – em continuidade com a tradição do Antigo Testamento – uma profunda analogia que nos ajuda a levantar o véu da grande questão sobre a identidade de Deus: a da luz. Deus é luz, luz que é vida para os homens em Cristo (Jo 1, 3-4).

Deus revela seu Ser, que é Luz. Ele comunica aos homens não somente algo do seu Ser, como Ele faz às criaturas inanimadas, mas às criaturas inteligentes faz participar de sua Vida e de sua Luz. Todo o Evangelho de São João está polarizado em torno desse tema, tão rico e muito acentuado nos demais livros da Bíblia. A Luz se faz presente em Deus, na Criação, na Antiga Aliança e seus ritos, como na sua Lei, em Jesus Cristo e na sua Igreja, na vida moral, e, enfim, na Jerusalém Celeste.

Na imagem da luz, uma criatura vem à nossa mente como a mais evocativa figura de Deus: o Sol.

Sim, o Sol é o astro da luz, uma verdadeira e luminosa parábola da grandeza e do esplendor Divino. Dentre as maravilhas da natureza, o Sol sempre foi um tema riquíssimo para todas as formas de arte. Porém, o astro-rei é, sobretudo, uma criatura rica em simbologia, através da qual se intui algo da grandeza do Criador.

Tal é a pulcritude e grandeza do Sol, que vários povos pagãos adoraram-no, pois bem parece divino. Mas o Sol é uma simples criatura. Deus o criou como um inconfundível selo de luz que reflete a grandeza do Autor sublime do Universo. […]

Edmond Rostand (1868-1918), numa espirituosa frase exclamava: “Oh Sol! Tu, sem o qual as coisas não seriam senão o que elas são”. Cheia de inteligência e de brilho, a sentença do célebre poeta faz sentir com poucas palavras o poder do astro-rei para emprestar a cada objeto uma beleza que ele, de si, jamais haveria de ter.[…]

O Sol é uma imagem da infinita perfeição e do poder divino. Deus é o Belo, matriz de todas as belezas do Universo. Deus é o Poder, origem e sustentáculo de toda a ordem da Criação. O Sol é uma imagem do Motor imóvel que tudo move. É o Ser necessário a todas as contigentes.

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ARAUTOS DO EVANGELHO. Deus… Quem é Ele. São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2012. pp. 26-30.

 

“Eis a serva do Senhor”

Obedecendo, ensina Santo Irineu, a Santíssima Virgem tornou-Se causa de salvação, para si e para todo o gênero humano.[1]

Diz o Evangelho:

O anjo disse-lhe: “Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim”. Maria perguntou ao anjo: “Como se fará isso, pois não conheço homem?” Respondeu-lhe o anjo: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível.” Então disse Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo afastou-se dela” (Lc 1, 30-38).

Neste trecho da Sagrada Escritura repleto de bênção e cheio de unção Divina, São Lucas nos faz meditar sobre a humilde e discreta obediência d’Aquela a quem devemos a Encarnação do Verbo.

Se percebermos a Virgem ficar atônita por um instante, não é porque está hesitada diante da vontade de Deus, mas é porque sua incomparável humildade e delicada pureza A faz temer a insigne honra da maternidade divina.

Escutemos Santo Ambrósio:

Maria não iria recusar a crer no anjo, e nem usurpar temerariamente as coisas divinas. Por isso disse ao anjo: “como se fará isto?” Esta resposta foi mais oportuna do que a do sacerdote. Maria disse “como se fará isso? e aquele disse: “como poderei saber isto?” Aquele se nega a crer e parece buscar outro motivo que confirme sua fé, porém Maria não duvida que ela deve fazer, visto que pergunta como se fará.[2]

Assim, no coração de Maria não havia outra resposta a não ser o “fiat”, proclamando-se “serva do Senhor”, frase usual no ambiente oriental para se falar com um superior, aceita os desígnios divinos, que é uma mostra de confiança e de obediência à Palavra de Deus. Através desse consentimento, Maria tornou-se Mãe de Jesus e “consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e obra de seu Filho”.[3]

Na antiguidade, época em que a escravidão era prática comum, é onde devemos valorar esta expressão. O escravo não tinha vontade própria e nem um querer fora de seu amo. Também Nossa Senhora, diante de Deus, não tinha outro querer senão o Divino[4]. Por isso, inclinou-se diante da palavra do anjo e pronunciou seu “Fiat” imortal, que ecoará até o fim, soando mesmo no meio das humilhações e dos abandonos do Calvário. De sua alma submissa sempre se evolará o brado da obediência e do amor: “Fiat mihi secundum verbum tuum” (Lc 1, 38).[5]


[1] Cf. IRINEU. Adver. Haer. 3, 22, 4. In: MIGNE, J. P. Patrologiae Cursus Completus: Patrologiae Graecae. Vol. 7, p. 959.

[2] Apud. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. Vol. IV. Buenos Aires: CCC, 1946. p. 20.

[3] “Ita Maria filia Adam, verbo divino consentiens, facta est Mater Iesu, ac salvificam voluntatem Dei, pleno corde et nullo retardata peccato, complectens, semetipsam ut Domini ancillam personae et operi Filii sui totaliter devovit, sub Ipso et cum Ipso, omnipotentis Dei gratia, mysterio redemptionis inserviens”. (CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 21 nov. 1964. In: AAS 57 (1965) 56. p. 60. Tradução do autor).

[4] Cf. TUYA, Manuel. Biblia Comentada: Evangelios. Vol Vb. 3. ed. Madrid: BAC, 1977. p. 28.

[5] Cf. L’AMI DU CLERGÉ PAROISSIAL. Sermon Pour la Purification. Saint Pierre, n. 3, 16 jan. 1902. p. 49-56.

A Encarnação: Deus se fez homem para fazer o homem filho seu

Arautos em São Paulo: “A Encarnação”

Aos poucos, a esta altura do ano, as casas, comércios e demais construções vão se revestindo de uma decoração peculiar. A atmosfera do Natal vai tomando espaço nas cogitações…

É a consideração do nascimento do Menino-Deus, o qual se encarnou no seio de uma Virgem. Encarnação… mas para quê a Encarnação? É um tema que bem pode ser objeto de uma análise mais detida. Por que não, nestes dias que antecedem o Natal?

Deus “apiedou-se mais do gênero humano do que dos demais seres existentes na terra”[1], e percebendo que naturalmente ele era incapaz de subsistir pelos séculos, concedeu-lhe algo a mais: criou o homem “à sua imagem, fazendo-os partícipes do poder de seu próprio Verbo”[2], e concedendo-lhes, assim, a bem-aventurança.

Introduzido no Paraíso terrestre, o homem pode desfrutar de inúmeros benefícios e liberalidades de Deus, sob apenas uma condição: “Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás de morrer.”[3] Não obstante, caiu o homem e o pecado foi introduzido na face da Terra.

Segundo Santo Atanásio, grande luminar da Igreja, o “terás de morrer” não vem a significar somente “morrereis, mas permanecereis sujeitos à corrupção e à morte.”[4] Porém, longe de apartar das considerações a Encarnação do Verbo o fato de considerar a queda do primeiro homem, antes concorre para a conclusão desejada, pois “o Senhor veio e apareceu entre os homens”[5], de modo que “o homem foi o motivo da encarnação, e por sua salvação, o Verbo amou o homem até nascer e manifestar-se com um corpo.”[6]Deus havia criado o homem, tirando-o do nada e concedendo-lhe viver segundo Deus, desejando que possuísse incorruptibilidade eterna: “Deus criou o homem para a incorruptibilidade e o fez imagem de sua própria eternidade”[7], mas “os homens, por negligência, abandonaram a contemplação de Deus”[8], “se desviaram dos bens eternos, e por instigação do diabo voltaram-se para as coisas corruptíveis, tornando-se deste modo para si mesmos causa de morte.”[9]

“Então, o que faria Deus, que é bom, uma vez que seres racionais pereciam e as obras divinas se precipitavam na ruína?”[10] Deixar que a morte e a corrupção prevalecessem no mundo? Então, para quê criá-los? “Era preferível não ser do que ser e perecer por abandono.”[11]

Certamente pela própria dignidade da bondade de Deus não convinha deixar os homens serem pela corrupção arrebatados. Fazia-se necessário uma inteira restauração. Mas quem poderia fazê-lo senão o Verbo de Deus, que no começo criara todas as coisas e sob seu governo elas se encontravam? “Competia-lhe reconduzir o corrutível à incorrupção, e salvar o que convinha ao Pai em todas as coisas. Ele, o Verbo de Deus, acima de tudo, era o único, portanto, capaz de refazer todas as coisas, de sofrer por todos, de ser em favor de todos digno embaixador junto do Pai.”[12]Foi o que Deus fez: tomou a carne humana a fim de restaurar quem jazia sob o jugo do pecado. Deus se fez homem para tornar o homem filho seu.


[1] SANTO ATANÁSIO. Contra os pagãos; A Encarnação do Verbo; Apologia ao Imperador Constâncio;Apologia de sua fuga; Vida e conduta de Santo Antão. Trad. Orlando Tiago Loja Rodrigues Mendes. São Paulo: Paulus, 2002, (Patrística; 18). 3, 3.

[2] Idem 3, 3.

[3] Gn 2, 16.17.

[4] A encarnação do Verbo 3, 5.

[5] Idem 4, 2.

[6] Idem 4, 3.

[7] Sb 2, 23-24.

[8] A encarnação do Verbo 4, 4.

[9] Idem 5, 1.

[10] Idem 6, 7.

[11] Idem 6, 7.

[12] Idem 7, 5.

Advento? O que é isto?

Arautos em São Paulo: “Advento? O que é isto?”

Uma atmosfera de ternura e carinho começa a penetrar em nossas almas! Mas qual é a origem de tal sentimento?

-Ora!!! Não está sentindo o aroma de natal que se aproxima?

-Ah… sim meu amigo, mas vamos com calma, pois a vinda do menino Jesus já começa se fazer sentir: é verdade. Mas antes, devemos preparar com ardente desejo por meio do recolhimento e das orações que a Santa Igreja nos oferece para nos prepararmos para a chegada daquele que é o esperado das nações e que foi anunciado pelos profetas….Este é o tempo litúrgico do advento! Falemos um pouco dele.

Os paramentos deste tempo litúrgico (casulaestoladalmática etc.) são de cor roxa para atestar sobriedade e uma discreta alegria que chegará ao seu pináculo apenas no dia de Natal. Os sacerdotes revestem-se com paramentos de cor roxa usado desde as I Vésperas do I Domingo do Advento até a última missa que antecede a da Noite de Natal, e indica a espera do Messias, através da  equilíbrio e sobriedade, uma vez que a Igreja neste período do advento exorta os fiéis a prepararem suas  almas com clamores e  súplicas elevadas ao céu,  como nos ensina o Livro do Eclesiástico: a prece do justo atravessa as nuvens (Cf. Eclesiástico). De maneira que a Providência Divina faça chover o Justo do mais alto dos céus, como faz menção o cântico gregoriano Rorate Caeli: “et nubes pluant justum,” (que as nuvens façam chover O Justo).

A palavra Advento  tem sua origem latina, do Adventus, que quer dizer: chegada. Esse tempo litúrgico tem seu início nas vésperas do Domingo mais próximo do dia 30 de Novembro e se prolonga até as primeiras vésperas do Santo Natal, contando com quatro domingos.

Se canta o Glória somente no dia da festa do Natal, para que toda a cristandade una-se aos Anjos entoando este hino como um  cântico novo, como nos diz São Pedro.

O advento é um período de conversão. É, portanto tempo de penitência, ou seja, de “metanoia,” que significa “mudança de espírito”. Algumas normas estabelecidas pela CNBB orientam-nos neste tempo: a ornamentação das flores e  o uso dos instrumentos musicais sejam usados nas renovação do Santo sacrifício com moderação, para que não seja antecipada a  magna alegria da Natividade do Salvador.

No terceiro domingo do Advento, há o chamado domingo Gaudete ou da Alegria. Os sacerdotes são revestidos com paramentos litúrgicos de cores róseas que são a junção das cores roxas e brancos para indicar a alegria da vinda do Salvador que está se aproximando.

Portanto, por intercessão de Maria Santíssima, Virgem das virgens, unamo-nos a Ela em preces e súplicas ao Pai celeste, para que ao nascer o Menino Jesus junto ao presépio, estejamos genuflexos aos pés da manjedoura, para adorarmos com todo vigor de nossas almas àquele que nos trouxe a salvação e abriu-nos as portas do céu.

_____________________________________________  Nathan Ruach

Medianeira e Dispensadora universal de todas as graças

Arautos em São Paulo: “Medianeira e Dispensadora universal de todas as graças”

“Daí de graça o que de graça recebestes”; frase célebre porque muitas vezes ouvida, mas, mais ainda, por vir dos lábios do Divino Mestre.[1] Ora se há algo que de graça recebemos é a própria graça dada por Deus.

Graça… mas o que é a graça?  “A graça de Deus é um dom habitual, uma disposição estável e sobrenatural para aperfeiçoar a própria alma e torná-la capaz de viver com Deus, agir por seu amor.”[2] Graça pela qual nos tornamos filhos de Deus e alcançamos o Céu, pois “sem o auxílio da graça de Deus, só com as nossas forças, não podemos fazer nada que nos seja útil para a vida eterna.”[3]

Ora, de todas as graças a Virgem Santíssima é a Medianeira e Dispensadora universal.[4] Jesus é o receptáculo de todas as graças, Maria as distribui. Quanto teríamos de lhe agradecer, quão poucas palavras lhe conseguimos dirigir. Porém, um bom hino de louvor poderia ser o que segue:

“Ah! Verdadeiramente, a invenção seria genial, se não fosse divina. Que Maria seja bem efetivamente esta Medianeira, isso sobressai do que Ela é em relação ao Mediador e em relação a nós. Ele lhe deve tudo, pois Ela é sua Mãe; Ela nos deve tudo, porque é a nossa. Portanto, entre Ele e nós, Ela é o sagrado liame, a augusta intermediária que não saberia resignar-se a um rompimento, e para evitá-lo emprega todos os seus recursos, usa de todos os seus direitos, faz valer toda a sua graça.

Ó Jesus, quem exaltará vossas misericórdias? Suspenso ao madeiro, entregue indefeso aos golpes da justiça divina, compreendendo então, por experiência, quanto é terrível para a fraqueza humana de se encontrar só, com suas faltas, em face de Deus, quisestes nos abrir um asilo, mesmo contra vossa cólera de Cordeiro.”

Vosso servo Jó, outrora bradou: ‘Quem, Senhor, me protegerá contra vossa cólera?’ O sondo de Jó, Vós o realizastes, confiando-nos ao coração da mais compassiva das mulheres.”[5]


[1] Cf. Mt 10, 8.

[2] Catecismo da Igreja Católica, n. 2000.

[3] Catecismo de São Pio X. n. 532.

[4] Cf. ROSCHINI, Gabriel. Instruções Marianas. São Paulo: Paulinas, 1960, p. 83; 96.

[5] DADOLLE, Pierre. Le Mois de Marie. Paris: J. Gabalda, 1925, p.239. In: CLÁ DIAS, JOÃO SCOGNAMIGLIO. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. 2 ed. São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2011, v. II, p. 144-145.

O papel das imagens na piedade católica

Quando entramos numa igreja, geralmente nossa atitude é de primeiro se ajoelhar diante do Santíssimo Sacramento que lá se faz presente e de fazer uma reverência à imagem de Nossa Senhora ou de algum santo que a igreja possua.

Ora, Deus no Êxodo (20, 4), proíbe o povo eleito de confeccionar qualquer imagem sob o risco de cair em idolatria. Então porque, os católicos, que não adoram imagens, as confeccionam e veneram?

Esta é uma pergunta curiosa. O próprio Deus (Ex 25, 17-22) mandou Moisés colocar dois querubins de ouro sobre o Propiciatório da Arca, e era através deste Propiciatório que Deus falava com o povo. Quando Deus mandou serpentes no deserto para castigo do povo que se tinha revoltado, ao aplacar Sua cólera, mandou que Moisés construísse uma serpente de bronze que curava todo aquele que a olhasse (Nm 21, 4-9). O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, durante toda Sua vida pública, utilizava-se de parábolas, símbolos e imagens para instruir o povo ou reprender suas ações.

Nos primeiros tempos da Igreja, os cristãos, utilizavam imagens nas catacumbas como de Noé, Daniel e a imagem do peixe que simbolizava a Cristo. Mas para que servem as imagens na piedade católica? São Gregório já dizia:

“Tu não devias quebrar o que foi colocado nas igrejas não para ser adorado, mas simplesmente para ser venerado. Uma coisa é adorar uma imagem, a outra coisa é aprender, mediante essa imagem, a quem se dirigem as tuas preces. O que a Escritura é para aqueles que sabem ler, a imagem o é para os ignorantes; mediante essas imagens aprendem o caminho a seguir. A imagem é o livro daqueles que não sabem ler” (Epíst. XI 13 PL 77, 1128c).

São Gregório de Nissa (+394) observava: “O desenho mudo sabe falar sobre as paredes das igrejas e ajuda grandemente” (Panegírico de S. Teodoro, PG 46, 737 d).

São João Damasceno (+749) proclamava: “O que a Bíblia é para os que sabem ler, a imagem o é para os iletrados” (De imaginibus I 17 PG 94, 1248 c).

Tanto as imagens, quanto os vitrais eram considerados como: a Bíblia dos pobres.

Mas o significado não é só isto. Quando queremos lembrarmo-nos de algum parente muito caro que faleceu, pegamos uma foto que temos de recordação e começamos a lembrar todos os tempos que passamos junto a ele, para tentar matar a saudade, o que nos dá a ideia de que ele se faz presente ao nosso lado. Assim também, quando queremos um convívio com algum santo ou com a própria Mãe de Deus buscamo-los através das imagens que simbolizam nossa devoção.

E não é em vão que se estabeleceu o culto das imagens, porque temos imagens que milagrosamente choraram, que milagrosamente foram esculpidas, enfim, que grandemente nos transmitem uma piedade sobrenatural e nos transportam ao convívio celeste.

A “Boca de Ouro” da Igreja

Hoje a Igreja comemora um dos luminares da hagiografia, isto é, da história dos Santos: São João Crisóstomo. Se se pode dizer que sua vida foi comparável a um luminar, com mais ênfase se pode afirmar que suas palavras tinham o valor e o coruscar do mais fino ouro, tanto mais que lhe coube ao nome o acréscimo de “boca de ouro”, ou seja, crisóstomo…

São João Crisóstomo nasceu em Antioquia por volta de 349. Sua mãe, Santa Antusa, lhe deu uma educação eximiamente cristã, fazendo de sua própria casa um verdadeiro mosteiro religioso até a sua juventude. Quando faleceu sua mãe, o nosso santo contemplado hoje pela Igreja foi viver no deserto por seis anos. Todo o povo vendo a santidade desse homem providencial, decide chamá-lo para a cidade recebendo seu consentimento. Estando lá, é ordenado diácono e depois se prepara em cinco anos para o sacerdócio e para a pregação. Tornou-se um zeloso colaborador no governo da diocese de Antioquia através do seu pastoreio e pregação demonstrando uma grande cultura e, mais que tudo, uma evidente santidade.

São João de Antioquia – o sobre nome Crisóstomo (boca de ouro), foi-lhe conferido três séculos depois pelos bizantinos – tornou-se mais tarde patriarca de Constantinopla. Na capital do Oriente, ele promoveu procissões contra os arianos  – os quais incorreram na heresia de dizer que Nosso Senhor Jesus Cristo não era Deus e sim um grande homem dotado de poderes extraordinários -, também construiu hospitais, além de fazer uma eficaz evangelização na zona rural.

Através de seus sermões de fogo, que duravam horas, ele afervorava os tíbios, colocava medo nos hereges e confirmava na fé os que eram fervorosos. Porém, como algumas vezes acontece quando se é corrigido, isto é, não se aceitar a repreensão e, pelo contrário, pagar a repreensão com ódio. Foi o que aconteceu com São João Crisóstomo. Foi deposto e exilado ilegalmente por um conjunto de bispos de Constantinopla chefiados por Teófilo.

Após pouco tempo de exílio, São João foi reconduzido novamente a Constantinopla pelo imperador Arcádio, o qual fora atingido por várias desgraças que chegaram ao seu palácio. Mas como a vida de um santo é pervadida de fatos que a primeira vista não tem uma explicação humana, após dois meses o santo “boca de ouro” foi exilado novamente, primeiramente para a fronteira com a Armênia, depois para as margens do Mar Negro.

Faleceu neste exílio a 14 de setembro de 407, teve seu corpo transladado pelo filho de Arcádio, Teodósio, para Constantinopla e sendo recebido com todo fervor que ele merecia. O acervo com suas obras constitui verdadeiro tesouro para a Igreja Católica, e seus ensinamentos se perpetuaram pelos séculos. Se o leitor quer um exemplo da beleza de sua pregação e do zelo de suas palavras, veja o exemplo de um de seus sermões:

A Santa Cruz

*Junto da Cruz de Jesus estava Sua Mãe+. Viste essa vitória admirável? Viste os magníficos prodígios da Cruz? Posso dizer-te alguma coisa ainda mais admirável? Ouve o modo como se deu a vitória, e hás-de maravilhar-te ainda mais. Cristo venceu o diabo valendo-Se dos meios com que o diabo tinha vencido, e derrotou-o tomando as próprias armas que ele tinha usado. Ouve como o fez:

A virgem, o madeiro e a morte, foram os sinais da nossa derrota. A virgem era Eva, pois ainda não conhecera varão; o madeiro era a árvore; a morte, o castigo de Adão. E eis que também a virgem, o madeiro e a morte, que foram os sinais da nossa derrota, se tornaram os sinais da nossa vitória. Com efeito, em vez de Eva está Maria; em vez da árvore do bem e do mal, está o madeiro da Cruz; em vez da morte de Adão, está a morte de Cristo.

Vês como o demônio foi vencido pelos mesmos meios por que vencera? Na árvore, o diabo fez cair Adão; na árvore, Cristo derrotou o diabo. A primeira levava à região dos mortos; mas a segunda faz voltar até os que já para ali haviam descido. Do mesmo modo, a primeira árvore ocultou o homem já vencido e nu; esta, porém, mostrou a todos o vencedor, também nu, levantado ao alto.

Todos estes magníficos efeitos nos conseguiu a Cruz: a Cruz é troféu levantado contra os demônios, e uma espada contra o pecado, espada com a qual Cristo trespassou a serpente; a Cruz é a vontade do Pai, a glória do Seu Filho Unigênito, a alegria do Espírito Santo, a honra dos Anjos, a segurança da Igreja, o regozijo de São Paulo, a fortaleza dos Santos, a luz de toda a terra.

Fonte: São João Crisóstomo (cerca 345 – 407), Bispo de Antioquia, depois de Constantinopla, Doutor da Igreja, Sermão para Sexta feira Santa sobre a Cruz, 2 ; PG 49, 396 (trad. breviário)