Muitas almas têm medo de Deus

Arautos em São Paulo: “Muitas almas têm medo de Deus”

Verdades que muitas vezes esquecemos…

“São poucos os cristãos, mesmo entre os fervorosos, que possuem essa confiança que exclui toda ansiedade e hesitação. E são várias as causas dessa deficiência. O Evangelho narra que a pesca miraculosa aterrou São Pedro. Com sua impetuosidade habitual, ele mediu de relance a infinita distância que separava a grandeza do Mestre da sua própria pequenez. Tremeu de terror sagrado, e prosternando-se, a face contra o chão, exclamou: “Afastai-Vos de mim, Senhor; que sou um pecador! “.

Certas almas têm, como São Pedro, esse terror. Elas sentem tão vivamente a própria indigência e as próprias misérias, que mal ousam aproximar-se da Divina Santidade. Parece-lhes que um Deus assim tão puro deveria sentir repulsa ao inclinar-Se para elas. Triste impressão, que lhes dá à vida interior uma atitude contrafeita, e, por vezes, a chega a paralisá-la completamente.

Como se enganam essas almas!

Logo aproximou-Se Jesus do Apóstolo assustado: “Não temas!”, disse-lhe, e fê-lo levantar-se…

Vós também, cristãos, que do seu amor tantas provas tendes recebido, nada temais! O que Nosso Senhor receia acima de tudo é que tenhais medo d’Ele. Vossas imperfeições, vossas fraquezas, vossas faltas, mesmo graves, vossas reincidências tão frequentes, nada O desanimará, contanto que desejeis sinceramente converter-vos. Quanto mais miseráveis sois, mais Ele tem compaixão de vossa miséria, mais deseja cumprir, junto a vós, sua missão de Salvador…

Não foi para os pecadores, sobretudo, que Ele veio à terra?…”[1]

 


[1] O Livro da Confiança. Pe. Thomas de Saint-Laurent, cap. I.

A doçura de viver

Arautos em São Paulo: “A doçura de viver”

Vida… dela quem não gosta? Muitos podem até oferecê-la em palavras, mas desprender-se de um tão grande bem como esse é especialmente difícil. No entanto, apesar de o benefício ser comum a todos os homens, uma coisa não é discutível: há modos e modos de se levar a vida…

Há quem tenha vivido de tal maneira que no fim de seus dias tenha podido exclamar: “como foi doce viver!” Mais que uma simples pessoa, houve época em que se pôde dizer haver a verdadeira “doçura de viver”, ou melhor, a douceur de vivre”, onde o trato de uns para com os outros de tal modo eram requintados em educação e respeito que, não fosse o conhecimento das mazelas humanas, quase se pensaria viver no paraíso. Tal período foi intitulado como Antigo Regime, Ancién Régime, antes da terrível mudança ocorrida na França por ocasião da Revolução de 1789.

Entre os elementos que constituíam a “doçura de viver”, especial papel era dado àquele modo distinto de proceder e de falar, conhecido pela expressão politesse (polidez). Essa qualidade encontrava-se difundida por todas as classes sociais e se baseava numa espécie de necessidade inata de devotamento, abnegação e dom de si mesmo. Tal estado de espírito era a aplicação do ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos tenho amado.” (Jo 13, 34)

Mas, o que é a politesse?

Um escritor (Hipolyte Taine) bem a definiu:

“É uma “arte engenhosa e encantadora que penetra todos os pormenores da palavra e da ação para transformá-las em graça [no sentido de bom trato, de encanto], e que impõem ao homem, não o servilismo e a mentira, mas o respeito e a preocupação com os num padrão que não é o seu, mas o que analisamos aqui é o seu modo de tratar. outros, permitindo-lhe, em contrapartida, extrair da sociedade humana toda a alegria que ela pode proporcionar”.

Juntamente com a politesse, desabrochou outra rosa, a causerie, a arte de conversar.

Naqueles tempos essa arte se desenvolveu com tal brilho, transformou-se em algo tão magnífico, que passou a ser reputada uma das mais altas distinções da vida. Por amor à brevidade, é-nos impossível contar os inumeráveis casos de politesse e causerie que enchem as páginas da história do Ancien Régime.

Vejamos apenas alguns pequenos exemplos:

* O Grand Condé

O primeiro desses casos passou-se com Luís II de Bourbon, cujos títulos eram: Príncipe de Conde, primeiro príncipe de sangue real, primeiro Par de França, Duque d’Enghien, de Bourbonnais, de Châteauroux, de Montmorency, Cavaleiro das Ordens do Rei, governador da Borgonha e de Bresse.

Em 1674, após uma grande batalha, na qual a bandeira francesa alcançou esplêndida vitória graças à coragem e sabedoria do Príncipe de Condé, o Rei Luís XIV quis recebê-lo solenemente no palácio de Saint-Germain.

Tolhido pelos ferimentos ainda não cicatrizados e por um reumatismo (nessa ocasião contava com 53 anos), o Grand Condé desculpava-se por subir demasiado lentamente a grande escada no alto da qual o rei e a corte o esperavam, Luís XIV lhe respondeu:

— Quem vem tão carregado de vitórias não pode caminhar depressa!

* “Espere mais um pouco…”

Outro fato deu-se com um soldado que perdera o braço numa batalha, e por isso ficara inválido. Todas as semanas ia ao Palácio de Versailles aguardar a passagem do rei e pedir-lhe um aumento de sua pensão, pois o que recebia não era suficiente para o sustento de sua família.

A resposta do rei, invariavelmente, era:

— Está bem, espere mais um pouco…

Assim aconteceu durante várias semanas.

Um dia ao renovar seu pedido, ouviu do Rei a costumeira resposta.

Tendo o rei passado adiante, o soldado, fazendo uma reverência, disse:

— Majestade!

O rei voltou-se para o soldado, fazendo um gesto permitindo-lhe falar:

— Majestade, se eu houvesse respondido a meu comandante, “espere mais um pouco”, quando recebi a ordem de avançar, talvez eu ainda estivesse com o meu braço!

O Rei gostou tanto de ouvir aquela ousada frase que imediatamente deu ordem para que sua pensão não fosse aumentada, mas duplicada!

Um Menino que transformou a História

 

“Entremos numa certa Gruta e ali veremos um Menino adorado por sua Mãe Santíssima e São José, reunidos em família, oferecendo mais glória a Deus do que toda a humanidade idólatra, e até mesmo mais do que os próprios Anjos do Céu em sua totalidade. Já em seu nascimento, numa singela manjedoura, aquele Divino Infante reparava os delírios de glória egoísta sofregamente procurada pelos pecadores. Ele se encarnou para fazer a vontade do Pai e, assim, dar-nos o perfeitíssimo exemplo de vida.” (CLÁ DIAS, Mons. João Scognamiglio. O Inédito sobre os Evangelhos. Cittá del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, p. 105-106, vol. V).

Ao acompanharmos a Liturgia nesses dias contemplamos o nascimento de um Menino, o qual, dividindo a História ao meio, merece perene louvor pelos séculos, representado pela solene oitava de comemoração do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Se enganaria quem julgasse o Natal como data passada, um dia mais festivo em meio às centenas de outros tantos. Certamente assim seria, se o nascimento comemorado fosse de qualquer um de nós e não de Deus, como de fato é. Nascimento de Deus? A pergunta mostra-se absurda em sua elaboração, pois quem é Deus obviamente não tem princípio. Todavia, o que para os homens parece absurdo, para Deus foi o meio escolhido para demonstrar aos mesmos homens, dignos de todo castigo, o amor e a condescendência d’Aquele que não se horrorizou em tomar nossa carne para nos reconduzir àquela pátria impossível de alcançar, não fosse a verdade de um tão admirável Natal.

Natal glorioso, mas ao mesmo tempo silencioso, repleto de luz e, entretanto, escondido em meio às trevas da meia-noite, cantado pelos Anjos do Céu, presenciado apenas pelos pastores da terra… Paradoxo sublime! Registrado nas páginas da História, lembrado nas canções… Canções? Sim, canções; e das mais variadas partes do mundo e épocas históricas. Foi precisamente para rememorar essas canções que os jovens do Projeto Futuro & Vida prepararam diversas apresentações natalinas neste fim de ano. Uma delas, e digna de nota, foi realizada na diretoria de ensino do município de Osasco – SP, como todos poderão acompanhar nas fotos deste post, e da página “ÚLTIMAS ATIVIDADES”, deste mesmo blog.

Quem é mais, manda menos…

A vida comum e corrente de todos os dias nos traz ensinamentos valorosos na compreensão de vários acontecimentos. A observação detida, e às vezes desinteressada, pode nos fornecer princípios que talvez décadas de estudo não proporcionariam. Assim nascem, na maioria das vezes, os chamados “ditados populares”, os quais, diga-se de passagem, resumem em pequenas sentenças o que os livros dedicariam boas páginas no intuito de tratar dignamente de certos temas.

Pois bem, um dos ditos populares muito familiar a nossos ouvidos talvez seja: “Quem pode mais, chora menos…” Frase um pouco crua no que diz respeito a uma educação mais polida, porém, verdadeira. Não obstante, mais do que o simples significado da afirmação, o que nos interessa no presente momento é a “moldura” que a reveste, a qual, sem muita dificuldade, deixa entrever que aquele que possui maior força, maior poder, maior autoridade, é o que faz valer sua voz, é o que subjuga, que intimida precisamente pelo que representa diante dos outros. Essa concepção, apesar de não figurar tão sem véus assim, é o modo como muitas vezes interpretamos a toda e qualquer autoridade, como se a hierarquia viesse de fábrica com uma espécie de selo macabro e injusto. Ora, a análise de uma vida digna de imitação, isto é, a de Nosso Senhor Jesus Cristo bem nos mostra uma outra concepção acerca da hierarquia, conforme comenta Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP:

“À primeira vista, a constituição da Sagrada Família é um mistério, pois nela quem tem mais autoridade é São José, como patriarca e pai, com direito sobre a esposa e sobre o fruto de suas puríssimas entranhas.

A esposa é Mãe de Deus, Mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Sendo Mãe, tem Ela poder sobre um Deus que Se encarnou em seu seio virginal e Se fez seu Filho.

Nosso Senhor Jesus Cristo, como filho, deve obediência a esse pai adotivo, aceitando em tudo a orientação e a formação dada por José; e também à sua Mãe, criatura sua. Que imenso, insondável e sublime paradoxo!

Assim, na ordem natural, José é o chefe; Maria, a esposa e mãe; e Jesus, a criança. Porém, na ordem sobrenatural, o Menino é o Criador e Redentor; Ela, a Medianeira de todas as graças, Rainha do Céu e da Terra; e José, o Patriarca da Igreja. José, o que de si tem menos poder, exerce a autoridade sobre Nossa Senhora, a qual tem a ciência infusa e a plenitude da graça, e sobre o Menino, que é o Autor da graça.

Por que dispôs Deus essa inversão de papéis?

Assim fez para nos dar uma grande lição: Ele ama a hierarquia e deseja que a sociedade humana seja governada por este princípio, do qual o próprio Verbo Encarnado quis dar exemplo.”[1]


[1] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2012, 130-131, vol. V.

A NOITE SANTA

Arautos em São Paulo: Histórias Natalinas

“Tinha eu cinco anos quando sofri o meu primeiro desgosto e tão profundo que dificilmente poderei dizer-se, desde então, tive outro maior. Foi quando minha avó morreu. Era hábito seu sentar-se todos os dias no sofá de canto do seu quarto e contar nos histórias.

Lembro me bem da vovó contando histórias, umas após outras, de manhã à noite, e de nós, crianças, sentadas ao seu lado, muito quietas, ouvindo. Era uma vida esplêndida! Nenhuma outra criança teve, como nós, um tempo tão feliz!

Assim, não será de estranhar que eu fale um pouco a respeito da vovó. Vejo a, ainda hoje, com o seu cabelo branco de neve, o corpo ligeiramente inclinado e os dedos, muitos ágeis, tricotando meias, durante todo o dia. Lembro me, também, de que, quando terminava uma história, ela costumava passar a mão sobre a minha cabeça e dizer:   Tudo isto é tão verdadeiro, como é verdade que estou vendo você e você me vê.

Vovó gostava muito de cantar e todas as canções que sabia eram suaves como ela mesma. Infelizmente, nem todos os dias se dispunha a nos deixar ouvir as suas melodias; lembro me de que uma de suas canções falava do cavalheiro e da sereia e tinha um estribilho que era assim: “Sopra um vento frio, um vento frio do mar”. Do hino que costumava cantar, só aprendi uma estrofe; mas a pequenina oração que me ensinou, rezo a até hoje.

De todas as histórias que nos contava guardei apenas uma vaga lembrança. Porém, uma delas ficou tão nitidamente gravada em minha memória, que sou capaz de repeti-la a qualquer momento   a pequenina história do Nascimento de Jesus.

E aqui está, mais ou menos imprecisamente, tudo quanto posso recordar a respeito de minha avó, menos uma coisa e desta recordo me com a mais perfeita exatidão: a grande solidão em que ficamos quando ela se foi. Aquela manhã em que o sofá de canto permaneceu vazio… E a nossa incapacidade de compreender que ela nunca mais poderia vir ocupá-lo! Oh! Disto eu me recordo tão bem, que nunca o esquecerei!

Tenho presente o medo que nos dominava quando nós, crianças, nos adiantamos para depositar na mão da morta o último beijo; mas alguém disse que esta era a única oportunidade que tínhamos para agradecer à vovó todas as alegrias que nos havia proporcionado.

E as histórias e canções que embelezavam a nossa casa calaram se, encerradas naquele negro cofre, e nunca mais voltaram! E então, alguma coisa de muito doce faltou às nossas vidas. Foi como se nos tivessem expulsado de um mundo encantado e maravilhoso, cujas portas, sempre abertas, que tínhamos a liberdade de transpor, conforme a nossa fantasia, se tivessem fechado de repente e para sempre! E ninguém mais havia que fosse capaz de abri-las!

Pouco a pouco, aprendemos a brincar com bonecas e demais brinquedos e a viver como vivem as outras crianças; dávamos, então, a impressão de que, embora recordássemos sempre a nossa avó, não sentíamos muito a sua falta.

No entanto, todos os dias –  e já quarenta anos são passados! –  quando me disponho a reunir numa coleção todas as legendas sobre Cristo, ouvidas no Oriente, dentro de mim desperta a lembrança da pequena história de Jesus, como a contava minha avó, e com tal clareza que me sinto impelida a incluí-la neste livro!

Era dia de Natal. Toda a família se tinha dirigido à igreja, menos minha avó e eu. Creio mesmo que em casa ninguém mais ficara. Estávamos, portanto, completamente sós. Não tínhamos tido permissão de acompanhar os demais, por ser uma já muito velha e a outra ainda muito jovem. E estávamos ambas muito tristes por não termos ido à Missa do Galo, nem ouvido os cânticos, nem visto as grandes candeias de Natal.

Então, reunidas na nossa solidão, minha avó começou a contar uma história.

–  Havia um homem –  disse ela –  que, já noite escura, saiu de casa para arranjar emprestada uma brasa, a fim de acender o fogo.

Batendo às portas das cabanas, ele dizia:

–  Meu caro amigo, ajuda me. Minha Esposa acaba de dar à luz um Menino e eu preciso fazer fogo para aquecê-la e ao pequenino.

E ia de cabana em cabana. Mas a noite já estava muito adiantada; todo o mundo dormia e ninguém lhe respondia. E o homem caminhava, caminhava. De repente, longe, muito fora da estrada, uma luz brilhou; apressado e ansioso, o homem seguiu naquela direção, na esperança de encontrar auxílio; porém, com surpresa, viu que não se tratava de uma habitação, mas de uma fogueira ateada ao relento.

À sua volta, uma porção de carneiros dormia, guardada por um velho pastor que, sentado, os contemplava. Quando o homem, que desejava uma brasa emprestada, chegou junto ao rebanho, três enormes cães, que até aí dormitavam aos pés do pastor, ergueram se rápidos e fizeram menção de latir. Mas foram vãos os seus esforços. Nenhum som foi emitido.

O estrangeiro pôde ver, então, os pêlos eriçados dos animais e os afiados dentes, muito alvos, cintilando à luz do fogo. Súbito, como movidos por uma única mola, os três cães arremessaram se furiosamente contra ele, abocanhando lhe um, a perna; outro a mão; enquanto o terceiro se atirava à sua garganta.

Porém, nem goelas, nem dentes obedeceram aos ferozes instintos; o homem não sofreu o menor dano. Por isto, pensou em se aproximar mais, a fim de obter o que tanto necessitava. Mas os carneiros, deitados lado a lado, estavam de tal modo juntos que era de todo impossível passar entre eles. Então o homem passou sobre eles, caminhou sobre seus dorsos, em direção à fogueira, e nem um animal acordou ou se moveu!

Até este ponto, vovó tinha feito a sua narrativa sem a mínima interrupção. Mas neste ponto não pude conter a curiosidade que me dominava.

–  Por que é que os animais fizeram isto, vovó? perguntei.

– Você saberá daqui a pouco –  respondeu minha avó.

Quando o homem estava quase alcançando a fogueira, o pastor o olhou. Era o pastor velho rude, áspero e cruel para com os seres humanos. Ao ver o estrangeiro, que serenamente se adiantava, tomou o longo e aguçado cajado que trazia sempre consigo, quando vigiava o rebanho, e o atirou contra ele. O cajado partiu célere, mas, antes de alcançar o seu objetivo, voltou sobre si mesmo e, sibilando, foi cair longe, entre o feno.

Aqui, interrompi vovó novamente.

–  Vovó! Por que é que o cajado não quis ferir o homem?

Mas vovó não perdeu tempo em responder e a história continuou.

–  Então o desconhecido chegou se ao pastor e disse lhe:

–  Bom homem, ajuda me, empresta me algumas brasas. Minha Esposa acaba de dar à luz um Menino e eu preciso fazer fogo para aquecê-La e ao Pequenino.

Pareceu ao rude pastor que um pedido tão estranho nunca lhe houvera sido feito, e preparou se para recusar quando, em tempo, se lembrou de que àquele homem os cães não tinham podido morder; que aos seus pés os carneiros se tinham imobilizado e que o cajado, para o não ferir, se tinha atirado no meio do feno e, então, um supersticioso terror o dominou. Não ousando negar, respondeu:

–  Leva quanto necessitares.

Porém, a fogueira estava acesa ao relento; não havia ali nem uma acha, nem galho abandonado; somente uma enorme pilha de rubros carvões, e o desconhecido não trazia consigo nem pá, nem enxada, com que pudesse transportar uma só daquelas ardentes pedras.

Percebendo isso, o pastor repetiu:

–  Leva quanto necessitares.

E estava alegre o velho, pois o homem não tinha possibilidade de levar sequer uma brasa. O desconhecido, porém, abaixou se e, dentre as cinzas, com as próprias mãos nuas, retirou um punhado de brasas e as colocou dentro do manto. E suas mãos não foram queimadas! E seu manto nem chamuscado ficou! E as pedras de fogo foram transportadas como se maças ou nozes fossem!

Aqui a narradora foi interrompida pela terceira vez:

– Vovó, por que é que o fogo não queimou o homem?   perguntei, cheia de admiração.

– Isto você saberá depois –  e vovó continuou: quando o pastor viu tudo isto, maravilhou- se.

–  Que espécie de noite é esta? –  pensou ele –  na qual os cães não mordem, o rebanho não foge, o cajado não fere e o fogo não queima?

E, chamando o desconhecido, já de regresso, disse lhe:

–  Que espécie de noite é esta? Que aconteceu, para que todas as coisas manifestem compaixão?

Ao que o homem respondeu:

–  Nada te posso dizer, vem e vê!

E tratou de seguir seu caminho, a fim de bem depressa chegar e fazer fogo para aquecer a sua Esposa e a Criança. Mas o pastor não queria perder o homem de vista, sem encontrar uma razão para aqueles presságios. Levantou se, pois, e o seguiu até o lugar em que vivia. Com surpresa, constatou que o homem nem cabana tinha para morar e que tanto sua Esposa como a Criança estavam no chão de uma gruta na montanha, onde nada havia, a não serem as frias e nuas paredes de pedra.

E, olhando a pobre e inocente Criança, o velho pastor pensou que ela talvez fosse morrer de frio ali dentro; apesar de rude, sentiu se tocado por um doce sentimento de compaixão e resolveu salvá-Lo. Desprendeu dos ombros a mochila, tirou de si a macia e branca pele de ovelha e deu a ao desconhecido, dizendo lhe que o Menino dormiria melhor agasalhado nela.

Logo após esta demonstração de misericórdia, os seus olhos foram abertos e ele viu o que antes não pudera ver e ouviu o que antes não pudera ouvir. E percebeu que se achava cercado de inúmeros Anjos de prateadas asas que, de pé, cantavam, em gloriosos tons, que havia nascido o Salvador. Aquele que redimiria o mundo dos seus pecados. E o velho pastor compreendeu que a terra era tão feliz naquela noite bendita, que tinha, por momento, esquecido o mal.

Mas os Anjos não estavam apenas à volta do pastor, ele os via por toda a parte. Havia- os dentro da gruta, havia os pela montanha e sob os Céus revoando. Vinham em profusão e, passando, lançavam sobre a Criança um doce e rápido olhar. Quanto júbilo! Quanto deslumbramento! Que de cânticos e melodias! Tudo o pastor viu na noite escura, ele que, antes, nada pudera ver!

E, então, transbordante de felicidade, o velho e rude homem caiu de joelhos e rendeu graças ao Senhor! Aqui, vovó suspirou e disse:

–  E o que aquele pastor viu nós podíamos também ver, se nos fosse permitido, pois em toda véspera do Natal os Anjos descem voando dos Céus. Passando, depois, a mão sobre a minha cabeça, disse:

–  Você não deve jamais esquecer isto, pois que é verdade que eu vejo você e você me vê. Isto não será revelado à luz de lâmpadas ou candeias; não depende do sol, nem da lua; o que é necessário é que tenhamos olhos capazes de ver a Glória de Deus.”

O Sol, imagem de Deus

Arautos em São Paulo: “O Sol, imagem de Deus”

Os doutores da Igreja tentaram explicitar ao máximo o significado da auto-definição divina: “Eu sou aquele que sou”. E concluíram eles que só é possível compreender algo deste mistério divino através de comparações.

O Evangelho de São João apresenta – em continuidade com a tradição do Antigo Testamento – uma profunda analogia que nos ajuda a levantar o véu da grande questão sobre a identidade de Deus: a da luz. Deus é luz, luz que é vida para os homens em Cristo (Jo 1, 3-4).

Deus revela seu Ser, que é Luz. Ele comunica aos homens não somente algo do seu Ser, como Ele faz às criaturas inanimadas, mas às criaturas inteligentes faz participar de sua Vida e de sua Luz. Todo o Evangelho de São João está polarizado em torno desse tema, tão rico e muito acentuado nos demais livros da Bíblia. A Luz se faz presente em Deus, na Criação, na Antiga Aliança e seus ritos, como na sua Lei, em Jesus Cristo e na sua Igreja, na vida moral, e, enfim, na Jerusalém Celeste.

Na imagem da luz, uma criatura vem à nossa mente como a mais evocativa figura de Deus: o Sol.

Sim, o Sol é o astro da luz, uma verdadeira e luminosa parábola da grandeza e do esplendor Divino. Dentre as maravilhas da natureza, o Sol sempre foi um tema riquíssimo para todas as formas de arte. Porém, o astro-rei é, sobretudo, uma criatura rica em simbologia, através da qual se intui algo da grandeza do Criador.

Tal é a pulcritude e grandeza do Sol, que vários povos pagãos adoraram-no, pois bem parece divino. Mas o Sol é uma simples criatura. Deus o criou como um inconfundível selo de luz que reflete a grandeza do Autor sublime do Universo. […]

Edmond Rostand (1868-1918), numa espirituosa frase exclamava: “Oh Sol! Tu, sem o qual as coisas não seriam senão o que elas são”. Cheia de inteligência e de brilho, a sentença do célebre poeta faz sentir com poucas palavras o poder do astro-rei para emprestar a cada objeto uma beleza que ele, de si, jamais haveria de ter.[…]

O Sol é uma imagem da infinita perfeição e do poder divino. Deus é o Belo, matriz de todas as belezas do Universo. Deus é o Poder, origem e sustentáculo de toda a ordem da Criação. O Sol é uma imagem do Motor imóvel que tudo move. É o Ser necessário a todas as contigentes.

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ARAUTOS DO EVANGELHO. Deus… Quem é Ele. São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2012. pp. 26-30.

 

“Eis a serva do Senhor”

Obedecendo, ensina Santo Irineu, a Santíssima Virgem tornou-Se causa de salvação, para si e para todo o gênero humano.[1]

Diz o Evangelho:

O anjo disse-lhe: “Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim”. Maria perguntou ao anjo: “Como se fará isso, pois não conheço homem?” Respondeu-lhe o anjo: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível.” Então disse Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo afastou-se dela” (Lc 1, 30-38).

Neste trecho da Sagrada Escritura repleto de bênção e cheio de unção Divina, São Lucas nos faz meditar sobre a humilde e discreta obediência d’Aquela a quem devemos a Encarnação do Verbo.

Se percebermos a Virgem ficar atônita por um instante, não é porque está hesitada diante da vontade de Deus, mas é porque sua incomparável humildade e delicada pureza A faz temer a insigne honra da maternidade divina.

Escutemos Santo Ambrósio:

Maria não iria recusar a crer no anjo, e nem usurpar temerariamente as coisas divinas. Por isso disse ao anjo: “como se fará isto?” Esta resposta foi mais oportuna do que a do sacerdote. Maria disse “como se fará isso? e aquele disse: “como poderei saber isto?” Aquele se nega a crer e parece buscar outro motivo que confirme sua fé, porém Maria não duvida que ela deve fazer, visto que pergunta como se fará.[2]

Assim, no coração de Maria não havia outra resposta a não ser o “fiat”, proclamando-se “serva do Senhor”, frase usual no ambiente oriental para se falar com um superior, aceita os desígnios divinos, que é uma mostra de confiança e de obediência à Palavra de Deus. Através desse consentimento, Maria tornou-se Mãe de Jesus e “consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e obra de seu Filho”.[3]

Na antiguidade, época em que a escravidão era prática comum, é onde devemos valorar esta expressão. O escravo não tinha vontade própria e nem um querer fora de seu amo. Também Nossa Senhora, diante de Deus, não tinha outro querer senão o Divino[4]. Por isso, inclinou-se diante da palavra do anjo e pronunciou seu “Fiat” imortal, que ecoará até o fim, soando mesmo no meio das humilhações e dos abandonos do Calvário. De sua alma submissa sempre se evolará o brado da obediência e do amor: “Fiat mihi secundum verbum tuum” (Lc 1, 38).[5]


[1] Cf. IRINEU. Adver. Haer. 3, 22, 4. In: MIGNE, J. P. Patrologiae Cursus Completus: Patrologiae Graecae. Vol. 7, p. 959.

[2] Apud. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. Vol. IV. Buenos Aires: CCC, 1946. p. 20.

[3] “Ita Maria filia Adam, verbo divino consentiens, facta est Mater Iesu, ac salvificam voluntatem Dei, pleno corde et nullo retardata peccato, complectens, semetipsam ut Domini ancillam personae et operi Filii sui totaliter devovit, sub Ipso et cum Ipso, omnipotentis Dei gratia, mysterio redemptionis inserviens”. (CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 21 nov. 1964. In: AAS 57 (1965) 56. p. 60. Tradução do autor).

[4] Cf. TUYA, Manuel. Biblia Comentada: Evangelios. Vol Vb. 3. ed. Madrid: BAC, 1977. p. 28.

[5] Cf. L’AMI DU CLERGÉ PAROISSIAL. Sermon Pour la Purification. Saint Pierre, n. 3, 16 jan. 1902. p. 49-56.

A Encarnação: Deus se fez homem para fazer o homem filho seu

Arautos em São Paulo: “A Encarnação”

Aos poucos, a esta altura do ano, as casas, comércios e demais construções vão se revestindo de uma decoração peculiar. A atmosfera do Natal vai tomando espaço nas cogitações…

É a consideração do nascimento do Menino-Deus, o qual se encarnou no seio de uma Virgem. Encarnação… mas para quê a Encarnação? É um tema que bem pode ser objeto de uma análise mais detida. Por que não, nestes dias que antecedem o Natal?

Deus “apiedou-se mais do gênero humano do que dos demais seres existentes na terra”[1], e percebendo que naturalmente ele era incapaz de subsistir pelos séculos, concedeu-lhe algo a mais: criou o homem “à sua imagem, fazendo-os partícipes do poder de seu próprio Verbo”[2], e concedendo-lhes, assim, a bem-aventurança.

Introduzido no Paraíso terrestre, o homem pode desfrutar de inúmeros benefícios e liberalidades de Deus, sob apenas uma condição: “Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás de morrer.”[3] Não obstante, caiu o homem e o pecado foi introduzido na face da Terra.

Segundo Santo Atanásio, grande luminar da Igreja, o “terás de morrer” não vem a significar somente “morrereis, mas permanecereis sujeitos à corrupção e à morte.”[4] Porém, longe de apartar das considerações a Encarnação do Verbo o fato de considerar a queda do primeiro homem, antes concorre para a conclusão desejada, pois “o Senhor veio e apareceu entre os homens”[5], de modo que “o homem foi o motivo da encarnação, e por sua salvação, o Verbo amou o homem até nascer e manifestar-se com um corpo.”[6]Deus havia criado o homem, tirando-o do nada e concedendo-lhe viver segundo Deus, desejando que possuísse incorruptibilidade eterna: “Deus criou o homem para a incorruptibilidade e o fez imagem de sua própria eternidade”[7], mas “os homens, por negligência, abandonaram a contemplação de Deus”[8], “se desviaram dos bens eternos, e por instigação do diabo voltaram-se para as coisas corruptíveis, tornando-se deste modo para si mesmos causa de morte.”[9]

“Então, o que faria Deus, que é bom, uma vez que seres racionais pereciam e as obras divinas se precipitavam na ruína?”[10] Deixar que a morte e a corrupção prevalecessem no mundo? Então, para quê criá-los? “Era preferível não ser do que ser e perecer por abandono.”[11]

Certamente pela própria dignidade da bondade de Deus não convinha deixar os homens serem pela corrupção arrebatados. Fazia-se necessário uma inteira restauração. Mas quem poderia fazê-lo senão o Verbo de Deus, que no começo criara todas as coisas e sob seu governo elas se encontravam? “Competia-lhe reconduzir o corrutível à incorrupção, e salvar o que convinha ao Pai em todas as coisas. Ele, o Verbo de Deus, acima de tudo, era o único, portanto, capaz de refazer todas as coisas, de sofrer por todos, de ser em favor de todos digno embaixador junto do Pai.”[12]Foi o que Deus fez: tomou a carne humana a fim de restaurar quem jazia sob o jugo do pecado. Deus se fez homem para tornar o homem filho seu.


[1] SANTO ATANÁSIO. Contra os pagãos; A Encarnação do Verbo; Apologia ao Imperador Constâncio;Apologia de sua fuga; Vida e conduta de Santo Antão. Trad. Orlando Tiago Loja Rodrigues Mendes. São Paulo: Paulus, 2002, (Patrística; 18). 3, 3.

[2] Idem 3, 3.

[3] Gn 2, 16.17.

[4] A encarnação do Verbo 3, 5.

[5] Idem 4, 2.

[6] Idem 4, 3.

[7] Sb 2, 23-24.

[8] A encarnação do Verbo 4, 4.

[9] Idem 5, 1.

[10] Idem 6, 7.

[11] Idem 6, 7.

[12] Idem 7, 5.

Advento? O que é isto?

Arautos em São Paulo: “Advento? O que é isto?”

Uma atmosfera de ternura e carinho começa a penetrar em nossas almas! Mas qual é a origem de tal sentimento?

-Ora!!! Não está sentindo o aroma de natal que se aproxima?

-Ah… sim meu amigo, mas vamos com calma, pois a vinda do menino Jesus já começa se fazer sentir: é verdade. Mas antes, devemos preparar com ardente desejo por meio do recolhimento e das orações que a Santa Igreja nos oferece para nos prepararmos para a chegada daquele que é o esperado das nações e que foi anunciado pelos profetas….Este é o tempo litúrgico do advento! Falemos um pouco dele.

Os paramentos deste tempo litúrgico (casulaestoladalmática etc.) são de cor roxa para atestar sobriedade e uma discreta alegria que chegará ao seu pináculo apenas no dia de Natal. Os sacerdotes revestem-se com paramentos de cor roxa usado desde as I Vésperas do I Domingo do Advento até a última missa que antecede a da Noite de Natal, e indica a espera do Messias, através da  equilíbrio e sobriedade, uma vez que a Igreja neste período do advento exorta os fiéis a prepararem suas  almas com clamores e  súplicas elevadas ao céu,  como nos ensina o Livro do Eclesiástico: a prece do justo atravessa as nuvens (Cf. Eclesiástico). De maneira que a Providência Divina faça chover o Justo do mais alto dos céus, como faz menção o cântico gregoriano Rorate Caeli: “et nubes pluant justum,” (que as nuvens façam chover O Justo).

A palavra Advento  tem sua origem latina, do Adventus, que quer dizer: chegada. Esse tempo litúrgico tem seu início nas vésperas do Domingo mais próximo do dia 30 de Novembro e se prolonga até as primeiras vésperas do Santo Natal, contando com quatro domingos.

Se canta o Glória somente no dia da festa do Natal, para que toda a cristandade una-se aos Anjos entoando este hino como um  cântico novo, como nos diz São Pedro.

O advento é um período de conversão. É, portanto tempo de penitência, ou seja, de “metanoia,” que significa “mudança de espírito”. Algumas normas estabelecidas pela CNBB orientam-nos neste tempo: a ornamentação das flores e  o uso dos instrumentos musicais sejam usados nas renovação do Santo sacrifício com moderação, para que não seja antecipada a  magna alegria da Natividade do Salvador.

No terceiro domingo do Advento, há o chamado domingo Gaudete ou da Alegria. Os sacerdotes são revestidos com paramentos litúrgicos de cores róseas que são a junção das cores roxas e brancos para indicar a alegria da vinda do Salvador que está se aproximando.

Portanto, por intercessão de Maria Santíssima, Virgem das virgens, unamo-nos a Ela em preces e súplicas ao Pai celeste, para que ao nascer o Menino Jesus junto ao presépio, estejamos genuflexos aos pés da manjedoura, para adorarmos com todo vigor de nossas almas àquele que nos trouxe a salvação e abriu-nos as portas do céu.

_____________________________________________  Nathan Ruach

Medianeira e Dispensadora universal de todas as graças

Arautos em São Paulo: “Medianeira e Dispensadora universal de todas as graças”

“Daí de graça o que de graça recebestes”; frase célebre porque muitas vezes ouvida, mas, mais ainda, por vir dos lábios do Divino Mestre.[1] Ora se há algo que de graça recebemos é a própria graça dada por Deus.

Graça… mas o que é a graça?  “A graça de Deus é um dom habitual, uma disposição estável e sobrenatural para aperfeiçoar a própria alma e torná-la capaz de viver com Deus, agir por seu amor.”[2] Graça pela qual nos tornamos filhos de Deus e alcançamos o Céu, pois “sem o auxílio da graça de Deus, só com as nossas forças, não podemos fazer nada que nos seja útil para a vida eterna.”[3]

Ora, de todas as graças a Virgem Santíssima é a Medianeira e Dispensadora universal.[4] Jesus é o receptáculo de todas as graças, Maria as distribui. Quanto teríamos de lhe agradecer, quão poucas palavras lhe conseguimos dirigir. Porém, um bom hino de louvor poderia ser o que segue:

“Ah! Verdadeiramente, a invenção seria genial, se não fosse divina. Que Maria seja bem efetivamente esta Medianeira, isso sobressai do que Ela é em relação ao Mediador e em relação a nós. Ele lhe deve tudo, pois Ela é sua Mãe; Ela nos deve tudo, porque é a nossa. Portanto, entre Ele e nós, Ela é o sagrado liame, a augusta intermediária que não saberia resignar-se a um rompimento, e para evitá-lo emprega todos os seus recursos, usa de todos os seus direitos, faz valer toda a sua graça.

Ó Jesus, quem exaltará vossas misericórdias? Suspenso ao madeiro, entregue indefeso aos golpes da justiça divina, compreendendo então, por experiência, quanto é terrível para a fraqueza humana de se encontrar só, com suas faltas, em face de Deus, quisestes nos abrir um asilo, mesmo contra vossa cólera de Cordeiro.”

Vosso servo Jó, outrora bradou: ‘Quem, Senhor, me protegerá contra vossa cólera?’ O sondo de Jó, Vós o realizastes, confiando-nos ao coração da mais compassiva das mulheres.”[5]


[1] Cf. Mt 10, 8.

[2] Catecismo da Igreja Católica, n. 2000.

[3] Catecismo de São Pio X. n. 532.

[4] Cf. ROSCHINI, Gabriel. Instruções Marianas. São Paulo: Paulinas, 1960, p. 83; 96.

[5] DADOLLE, Pierre. Le Mois de Marie. Paris: J. Gabalda, 1925, p.239. In: CLÁ DIAS, JOÃO SCOGNAMIGLIO. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. 2 ed. São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2011, v. II, p. 144-145.