Os caminhos da vida…

A vida do homem sobre a terra é uma luta, já dizia a Escritura no livro de Jó. É ao mesmo um campo de batalha e uma encruzilhada, pois, quantos caminhos diferentes pode-se tomar na vida? Certamente muitos… e que conduzem cada qual a um determinado fim; alguns felizes, outros nem tanto…

Uma pequena lenda muitas vezes pode elucidar grandes verdades. Vejamos…

“Encaminhavam‑se três viajantes para um país longínquo, em busca de honras e fortunas. Por algum tempo, andaram juntos, consultando o mesmo roteiro, comendo do mesmo pão e dormindo sob a mesma tenda.

Apesar de ser o rumo determinado com relativa facilidade pelas constelações, começaram eles a preocupar‑se com os acidentes do terreno e bem cedo suas opiniões se dividiram. Por esse tempo, atravessavam uma vasta zona deserta e sentiram‑se aflitos ao ver quase terminada a provisão de água. Temendo as torturas da sede, depois de acalorada discussão, resolveram separar‑se dois deles, tomando caminhos que lhes pareciam mais razoáveis.

O primeiro, desprezando o mapa, que levavam, saiu sozinho pelo areal ardente, ansioso por achar uma fonte e depois o país remoto. Andou dias e dias, até se esgotarem todos os recursos para a longa viagem. Em meio de sua angústia, entreviu, ao longe, um córrego de águas cristalinas. Correu para ele, fazendo os derradeiros esforços para chegar à margem. Mas tombou moribundo e sem esperanças, quando verificou que a corrente era apenas uma enganadora miragem.

O segundo viajante também desprezou o roteiro e seguiu o rumo aconselhado por outros, antes da partida, homens que jamais quiseram arriscar‑se a empreender a perigosa jornada. Após alguns dias de inauditas canseiras, viu, à distância, o que lhe pareceu um lago. Estugou o passo até chegar à margem e exultou de alegria ao ver que tinha água fresca à disposição. Mas sofreu, em seguida, decepção amarga, ao provar da água e verificar que era salgada. Tinha diante de si apenas um braço de mar, avançando por solitárias regiões. Ali mesmo expirou exânime o louco aventureiro.

Mas o terceiro caminhante agiu doutro modo. Assentado na areia, poupando as forças, examinou detidamente o roteiro, orientou‑se pelas estrelas e foi‑lhe fácil, afinal, acertar com uma quase apagada vereda. Alcançou breve um delicioso oásis, onde descansou, comeu frutos e bebeu água fresca e límpida. Uma caravana que passava, levou‑o seguramente à terra desejada e aí encontrou muito mais do que havia sonhado em honras e riqueza!

Um velho contou esta história à um grupo de jovens, que o escutava atentamente e acrescentou:

‑ Meus filhos: o roteiro, que nos ensina o caminho para o país longínquo, é a Palavra de Deus, Nosso Senhor.

O primeiro viajante é o homem que, desprezando os ensinamentos sagrados, deixando de olhar para o alto e preocupando‑se apenas com os interesses mundanos, se dirige tão somente com a fraca luz de sua inteligência. No final da vida, verifica que perseguiu miragens enganadoras e já não tem mais forças nem tempo para retroceder.

O segundo viajante é o que espera achar o rumo através da filosofia e da opinião dos homens. Segue conselhos, faz esforços bem intencionados, porém tudo em vão, porque seus conselheiros são homens que apenas dizem: “Fazei assim”, e eles mesmos nunca empreenderam a heróica jornada.

Mas o terceiro viajante é o que lê atentamente a Sagrada Escritura, medita nos seus profundos ensinamentos, olha para o alto e obedece com fidelidade aos divinos preceitos. A despeito de toda a aridez da vida, não tarda a encontra‑se no consolador oásis da fé e são as virtudes evangélicas que o levam, pela graça divina, à presença de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Quereis um conselho? Não desprezes, filhos meus, esse roteiro, enquanto fazeis vossa jornada pelo caminho da vida!”

Athalicio Pithan

João de Assis, mais conhecido como Francisco…

“Francisco foi primeiramente chamado João, mas depois mudou de nome e passou a ser conhecido como Francisco. Essa mudança de nome parece ter se devido a muitas causas. Primeira  causa, lembrar um milagre, o de ter recebido de Deus o conhecimento da língua francesa, daí sua legenda afirmar que sempre que estava pleno de ardor do Espírito Santo punha para fora suas emoções em francês. Segunda causa, divulgar seu ministério, daí sua legenda afirmar que foi como resultado da sabedoria divina que ele foi chamado assim, a fim de que por esse nome singular, inabitual, sua crença fosse conhecida mais rapidamente em todo o universo. Terceira causa, indicar os resultados que devia obter, quer dizer, das a conhecer que ele e seus filhos deviam tornar francos e livres muitos escravos do pecado e do demônio. Quarta causa, destacar a magnanimidade de seu coração, pois se os francos são conhecidos pela ferocidade, têm por natureza um espírito de verdade e de magnanimidade. Quinta causa, cortar os vícios pela virtuosidade de sua palavra. Sexta causa, aterrorizar o demônio e afugentá-lo. Sétima causa, assegurar a virtude pela perfeição de suas obras e pela honestidade de sua maneira de viver. Estas três últimas causas estão associadas às franciscas, machados levados pelos cônsules de Roma como insígnia de terror, de segurança e de honra.”[1]


[1] VARAZZE, Jacopo de. Legenda Áurea: vida de Santos. Trad. Hilário Franco Júnior. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 836.

Mártires do Brasil: Protomártires de Cunhaú e Uruaçu, RN

Protomártires de Cunhaú e Uruaçu, RN03 de Outubro

O Brasil, terra já em seus primórdios semeada do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, foi também regada com o sangue precioso de irmãos nossos na fé, fazendo “a caridade de Nosso Senhor Jesus Cristo vencer nos seus mártires”, como dizia Máximo em um sermão[1]. Dessa maneira preparavam eles um futuro promissor para a Santa Igreja nestas terras brasileiras, “regando o solo pátrio, tornando-o fértil para a geração de novos cristãos”[2] , onde atualmente “assiste-se também a grandes renascimentos católicos, a uma dinâmica de florescimento de novos movimentos”, como afirmava Bento XVI no livro Luz do Mundo[3].

Estes 44 protomártires, foram vítimas dos protestantes holandeses em 1645. Todos foram martirizados neste mesmo ano, porém em duas ocasiões distintas. A primeira, ocorrida na pequena cidade de Cunhaú, no estado do Rio Grande do Norte, onde o Pe. André Soveral exercia seu ministério. Em plena missa dominical, a igreja é invadida por um grupo de índios Tamoios e Tapuias (antropófagos) liderados por um alemão de nome Jacob Rabbi, que estava a serviço dos holandeses. Estes invasores fecharam as portas e janelas do templo e ali foram martirizados os fiéis e o sacerdote, que antes de morrer exclamou: “Viva o Santíssimo Sacramento do altar!”.

Três meses após este episódio, no dia três de outubro, outro semelhante ocorre desta vez em Uruaçu. Novamente por meio do alemão Jacob Rabbi, uma igreja é invadida em plena celebração da Santa Missa, pelo Pe. Ambrósio Francisco Ferro, tanto o celebrante quanto os fiéis são cruelmente torturados, muitos têm suas línguas cortadas e seus membros decepados, recebem ali mesmo naquela igreja, a coroa do martírio.

Foram todos eles beatificados pelo Beato João Paulo II, no dia cinco de março de 2000.


[1] AQUINO, Tomás de. Do martírio.

[2] Homilia de João Paulo II na missa de beatificação dos 44 protomártires brasileiros.

[3] Bento XVI. Luz do Mundo: O Papa, a Igreja e os sinais dos tempos

Santa Teresinha: Padroeira da Comunhão diária

Quem nunca ouviu falar de Santa Teresinha do Menino Jesus? A singela freira que viveu nas solidões do convento de Lisieux, e que mais tarde foi coroada com o título de Padroeira das Missões, sem sequer sair das paredes de sua reclusão religiosa… Por quê? Porque sua ardente caridade, identificando-se no coração da Igreja, propugnou as missões mais longínquas.

Seu exemplo não se limitou ao ardor missionário, mas também brilhou seu fervor eucarístico. Com efeito, naquele então ainda não havia o privilégio de uma dupla Comunhão no dia, nem mesmo o costume de comungar a cada dia. A influência do jansenismo se alastrou poderosamente em todos os ambientes religiosos. Somente se comungava com o consentimento do confessor. Ora, Teresinha, apesar de ser autorizada a comungar 4 a 5 vezes por semana, tinha o desejo de fazê-lo todos os dias, muito embora não se atrevesse a pedir-lhe[1]. Porém o que estava impedida de fazer na terra, certamente poderia modificar-se na eternidade. Prometeu que, estando no Céu, haveria de trabalhar para que fosse mudada a regulamentação acerca da recepção da comunhão[2]. De fato, foi o que ocorreu algum tempo depois: «quando o Papa Pio X tomou conhecimento do ensinamento dessa carta teresiana, disse: “Oportuníssimo! Oportuníssimo!”»[3]

São Pio X, associando aos escritos de Santa Teresinha outros acontecimentos na história da Igreja, mandou publicar o decreto Quam Singulari[4], o qual, além de favorecer a Comunhão aos infantes, incentivou a recepção frequente e diária do Corpo de Jesus Sacramentado.

A Santa de Lisieux, em maio de 1889, assim escreve à Irmã Maria Guérin, a qual sofria de grandes escrúpulos:

“Irmãzinha querida, comunga muitas vezes, muitas vezes… Eis aí o único remédio, se queres te curar. Não foi sem razão que Jesus pôs esta atração em tua alma. (Creio que ele ficaria contente se puderes recuperar as tuas duas Comunhões perdidas. Então, a vitória do demônio seria menor, pois não teria conseguido afastar Jesus de teu coração.) Não tenhas medo de amar demasiadamente Nossa Senhora. Nunca a amarás suficientemente, e Jesus estará bem feliz, pois a Santíssima Virgem é sua Mãe.”

Desta forma, bem se poderia considerar Santa Teresinha como padroeira não somente das missões, mas também da Comunhão frequente, quiçá, diária.

Seu amor por Nosso Senhor a acompanhou em toda a sua vida, de tal sorte que até mesmo a morte não lhe causava medo, mas antes alegria. Mons. João S. Clá Dias, EP, numa de suas homilias assim comenta os últimos momentos desta alma abrasada:

“Santa Terezinha do Menino Jesus, jovem, juveníssima, quando no meio da sua tuberculose teve uma hemoptise à noite, aguentou até de manhã para não olhar, pois fez a penitência de não olhar o que tinha saído de seus lábios. Porque se fosse sangue ela teria uma alegria tão grande que seria intemperante. Então, ela aguentou até o amanhecer. Quando amanheceu e ela viu que era sangue mesmo e que, portanto, a morte se aproximava uma alegria invadiu sua alma.

E quantos santos ao saírem desta vida estão cheios de alegria e gratidão. Por quê? Porque chegou a hora de nascer para o Céu. O santo não considera a morte como uma tragédia. Ele considera como uma passagem maravilhosa desta vida para a outra. E não considera uma morte, mas considera um nascimento.”[5]

Peçamos a intercessão de Santa Teresinha do Menino Jesus para sermos almas eucarísticas e para, no término desta vida, podermos compartilhar da mesma alegria nos Céus.


[1] Consta na Positio de Santa Teresinha, nas p. 289-290. Cf. Também CAVALCANTE, 1997, pp. 215-216.

[2] Cfr. P. T. Cavalcante, Dicionário de Santa Teresinha, Paulus, São Paulo, 1997, p. 118.

[3] P. T. Cavalcante, Dicionário de Santa Teresinha, p. 118.

[4] Cfr. S. CONGREGATIO DE SACRAMENTIS, Decretum: Quam singulari, (8 Augusti 1910) in AAS II  (1910), pp. 577-583.

[5] CLÁ DIAS, Mons. João S.. Homilia de 29 jun. 2008.

Santo do Dia: São Cosme e São Damião, Mártires

São Cosme e São Damião, ambos irmãos de sangue e na fé, são considerados os padroeiros dos médicos e dos farmacêuticos, isso por quê?

Como explicar o fato de que quando os dois irmãos, ao serem condenados tendo como pena de morte a lapidação, ou seja o apedrejamento, não morrerem devido ao milagre que as pedras se voltavam para aqueles que as jogavam? Ou então o que comentar, depois desse fato, sobre a maldade dos homens que, vendo tal milagre, decidem matá-los com flechadas e recebendo como castigo que as flechas lançadas sobre os dois santos se voltavam contra os que as lançavam? Mesmo assim os corações desses homens estavam mais duros do que as pedras lançadas com o intuito de matá-los…

Imaginemos andar o dia inteiro com uma pedra dentro do sapato, que a cada vez que pisamos no chão sentimos aquele incômodo que não nos deixa em paz. O mesmo se dá quando alguém virtuoso está na presença de más pessoas, as quais se sentem como que atormentadas constantemente por uma pedra no sapato, pois aquele que é verdadeiramente bom, diante do mal, toma logo uma posição de censura e fará tudo para reverter a situação. No caso de São Cosme e São Damião, a presença deles incomodava aqueles pagãos. Depois de várias tentativas frustadas de martirizá-los, foram obrigados a recorrer à espada para a decapitação, honra reservada só aos cidadãos romanos, pois eles eram da região da Síria, assim foram decapitados sobre as ordens do imperador Diocleciano.

Os dois mártires eram médicos e curavam não somente pessoas mas até os animais. Ambos faziam isto apenas por caridade, não aceitando qualquer recompensa. Conta-se que em uma das curas feitas por São Damião, este aceitou a contribuição financeira de uma mulher de nome Paládia, curada por ele. Isto provocou uma séria repreensão de seu irmão, São Cosme, ao ponto de dizer que não queria ser enterrado junto com o irmão que rompeu o compromisso de caridade. Após a morte de ambos, os cristãos decidiram enterrá-los separados, cumprindo a vontade de S. Cosme, porém, milagrosamente um camelo assumiu a voz humana e bradou para unirem os irmãos, pois S. Damião, aceitando o modesto honorário oferecido por Paládia, fizera-o em nome da caridade para não humilhar a pobre senhora.

Rezemos a estes dois grandes santos e peçamos que nos curem também de toda enfermidade corporal, mas sobretudo das moléstias espirituais, as quais são muito mais graves que as físicas. As físicas fazem mal ao corpo, só que as espirituais fazem mal a alma, a qual permanece viva após a morte. Que nos deem a força de alma para enfrentarmos as dificuldades da vida presente, e que por sua intercessão gozemos das alegrias eternas.

Santo do Dia: Santo André Kim Taegón e seus companheiros mártires

Nesta data a Igreja comemora o grande testemunho que deram em terras do extremo Oriente, a bem dizer na Coréia, Santo André Kim Taegón e seus companheiros mártires. Em breves palavras assim podemos dizer de seu martírio:

No início do século XVII, a fé cristã entrou pela primeira vez em terras da Coréia, por iniciativa de alguns leigos, de cujo esforço, sem pastores, surgiu uma comunidade forte e fervorosa.

Só em 1836 os primeiros missionários, vindos da França, entraram furtivamente no país. Nesta comunidade, floresceram, com as perseguições de 1839, 1846 e 1866, cento e três mártires, entre os quais sobressaem o primeiro sacerdote e ardoroso pastor de almas André Kim Taegón e o insigne apóstolo leigo Paulo Chóng Hasang, a que se juntaram muitos leigos, homens e mulheres, casados e solteiros, velhos, jovens e crianças. Todos eles consagraram com seu testemunho e sangue as primícias da Igreja coreana.

Apesar das perseguições à Igreja de Cristo, nada a impede em seu dinamismo apostólico, que ela cresça sempre em manifestação de graça e santidade. Em sua última exortação, Santo André Kim disse: “Irmãos caríssimos, lembrai-vos de que Nosso Senhor Jesus, descendo a este mundo, sofreu inúmeras dores e tendo fundado a Igreja por sua paixão, ele a faz crescer pelos sofrimentos dos fiéis. Apesar de todas as pressões e perseguições, os poderes terrenos não poderão prevalecer: da Ascenção de Cristo e do tempo dos apóstolos até hoje, a Santa Igreja continua crescendo no meio das tribulações.”

Fonte: Liturgia das Horas. Vol. IV. Pg. 1295.

Como faço para marcar a História? – II

É possível ser lembrado pela História? É a pergunta que o caro leitor fez, e que começou a encontrar a almejada resposta no último artigo com este nome. Era a história de Flaminio, que, às portas da morte, pediu a Deus que lhe concedesse uma póstuma memória, através dos versos de seu filho. Ao que, aliás, Deus acedeu… mas não como ele imaginava…

Passado o tempo estimado, Flaminio voltou a sua Roma. Diferente de tudo o que já tinha visto, procurou aquedutos de pedra, fortes milicianos Romanos, faustosos palácios; entretanto, Flaminio viu casas feitas de um material diferente, objetos metálicos que circulavam, e imensos templos. Perambulando pela rua, ele queria logo ouvir o verso de seu filho, que proferido pelas bocas mais jovens, devia ser as alegrias das boas mães. Entretanto, guiado por um anjo, foi posto à frente de um suntuoso edifício. Perguntando se era ali que ouviria as imortais palavras que fariam sua lembrança ser eterna, entrou com ênfase e energia. No momento que adentrava, Flaminio viu uma multidão de pessoas, todas voltadas para frente. Então, um homem, com uma roupa diferente, ostentou um cálice e um pedaço de algo que parecia pão, à toda aquela assembleia, dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, e todos responderam: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo.”

Então, o anjo lhe disse que já era hora de voltar. Queixando-se, Flaminio comentou que ainda não ouvira o tal verso. Porém, o anjo, olhando-o com santa ternura, lhe replicou:

– “Flaminio, acaso não percebestes que estas são as palavras de teu filho Cornélio?”

– “Meu filho que fez-se soldado?”

– “Este mesmo. Não foram as palavras soberbas de Tito, o poeta, que a ti trariam eterna memória, caro Flaminio; mas sim as palavras sinceras e cheias de fé de teu filho centurião, que ditas diante do homem Deus com humildade e respeito, serão lembradas até o fim do mundo…”

Acho que isto responde a tua cara indagação, amigo leitor. O único modo de marcarmos a História é seguirmos a estória: Não serão palavras e gestos de vaidade, mas unicamente uma vida resoluta de fé, esperança e caridade.

Santo do Dia: São José de Cupertino

Neste dia 18 de setembro a Igreja comemora São José de Cupertino, o santo padroeiro dos estudantes, mas não porque gozava de grande inteligência, senão que justamente por causa de sua pouca capacidade intelectual. Se é bem verdade que são belos os vitrais, é preciso reconhecer que sua beleza vem da conjugação das mais variadas cores. Também na história dos Santos é preciso reconhecer a beleza própria a cada inspiração da graça para uma via de santidade…

Nasceu paupérrimo em Cupertino, na Púglia, em 1603. Viveu os primeiros meses de sua existência em um estábulo, porque o pai, endividado, teve que vender tudo. Aos 17 anos queria fazer-se frade, mas os frades menores não o aceitaram porque era muito ignorante, e os capuchinhos que o haviam acolhido como irmão leigo, pouco depois impuseram-lhe que depusesse o hábito (foi como se me arrancassem a pele do corpo, disse mais tarde) por sua grande confusão mental.

Em lugar algum o queriam de volta, nem a sua própria mãe. Foi então que os frades menores de Grotella finalmente lhe abriram as portas do seu convento, confiando-lhe os mais humildes serviços, como tomar conta de uma mula. José se auto definiu: irmão burro, e não obstante isso, queria estudar a fim de ser padre. Nos exames foi sorteada a única questão que ele sabia: comentar um trecho do Evangelho.

Mas desde aquele momento, começaram a aparecer na vida desse frade esquisito os sinais da predileção divina, e fenômenos que atestam a santidade interior. Frequentemente encontravam-no em êxtase diante da imagem de Nossa Senhora, suspenso da terra alguns palmos.

Quase sem nenhum estudo teológico, tinha o dom da ciência infusa, e era consultado por teólogos a respeito de questões delicadas de doutrina e de exegese, e dava respostas claras e sábias. “O frade mais ignorante de toda a Ordem franciscana” foi convocado para ir a Roma; recebido em audiência por Urbano VIII, diante do papa o frade caiu em êxtase. A fama dos seus prodígios fez afluir a ele gente de toda parte, e os seus superiores faziam-no mudar continuamente de convento. José de Cupertino aceitou tudo com transparente simplicidade. Só lamentava não poder rever a imagem de Nossa Senhora do seu convento de Grotella, cujo pensamento o levava ao êxtase.

Finalmente os seus confrades designaram-no para o convento de Assis, mas desta vez foi o papa em pessoa que desaconselhou este destino: “Em Assis, comentou, um São Francisco é mais que suficiente.” Assim José de Cupertino morreu em Osimo, aos sessenta anos, em 1663. O “frade burro”, que na vida tinha encontrado sérios problemas para superar os exames, é invocado pelos estudantes no momento de enfrentar as provas escolares.

O papel das imagens na piedade católica

Quando entramos numa igreja, geralmente nossa atitude é de primeiro se ajoelhar diante do Santíssimo Sacramento que lá se faz presente e de fazer uma reverência à imagem de Nossa Senhora ou de algum santo que a igreja possua.

Ora, Deus no Êxodo (20, 4), proíbe o povo eleito de confeccionar qualquer imagem sob o risco de cair em idolatria. Então porque, os católicos, que não adoram imagens, as confeccionam e veneram?

Esta é uma pergunta curiosa. O próprio Deus (Ex 25, 17-22) mandou Moisés colocar dois querubins de ouro sobre o Propiciatório da Arca, e era através deste Propiciatório que Deus falava com o povo. Quando Deus mandou serpentes no deserto para castigo do povo que se tinha revoltado, ao aplacar Sua cólera, mandou que Moisés construísse uma serpente de bronze que curava todo aquele que a olhasse (Nm 21, 4-9). O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, durante toda Sua vida pública, utilizava-se de parábolas, símbolos e imagens para instruir o povo ou reprender suas ações.

Nos primeiros tempos da Igreja, os cristãos, utilizavam imagens nas catacumbas como de Noé, Daniel e a imagem do peixe que simbolizava a Cristo. Mas para que servem as imagens na piedade católica? São Gregório já dizia:

“Tu não devias quebrar o que foi colocado nas igrejas não para ser adorado, mas simplesmente para ser venerado. Uma coisa é adorar uma imagem, a outra coisa é aprender, mediante essa imagem, a quem se dirigem as tuas preces. O que a Escritura é para aqueles que sabem ler, a imagem o é para os ignorantes; mediante essas imagens aprendem o caminho a seguir. A imagem é o livro daqueles que não sabem ler” (Epíst. XI 13 PL 77, 1128c).

São Gregório de Nissa (+394) observava: “O desenho mudo sabe falar sobre as paredes das igrejas e ajuda grandemente” (Panegírico de S. Teodoro, PG 46, 737 d).

São João Damasceno (+749) proclamava: “O que a Bíblia é para os que sabem ler, a imagem o é para os iletrados” (De imaginibus I 17 PG 94, 1248 c).

Tanto as imagens, quanto os vitrais eram considerados como: a Bíblia dos pobres.

Mas o significado não é só isto. Quando queremos lembrarmo-nos de algum parente muito caro que faleceu, pegamos uma foto que temos de recordação e começamos a lembrar todos os tempos que passamos junto a ele, para tentar matar a saudade, o que nos dá a ideia de que ele se faz presente ao nosso lado. Assim também, quando queremos um convívio com algum santo ou com a própria Mãe de Deus buscamo-los através das imagens que simbolizam nossa devoção.

E não é em vão que se estabeleceu o culto das imagens, porque temos imagens que milagrosamente choraram, que milagrosamente foram esculpidas, enfim, que grandemente nos transmitem uma piedade sobrenatural e nos transportam ao convívio celeste.

O mundo dourado

No início deste mês de setembro, quem anda pelas ruas de São Paulo, repara em vários locais da cidade uma coloração diferente: o amarelo.

São os ipês, árvores muito curiosas, que mantém seus botões fechados até determinado momento do ano. Numa bela manhã, geralmente na primeira semana de setembro, observa-se que todos os botões estão abertos e suas flores aparecendo à luz do sol.

E os ipês se mostram eufóricos por estarem sob essa intensa ação do sol, o que os deixa particularmente atraentes.

Monsenhor João Clá Dias, EP,  sempre incentivou os Arautos a não ficarem somente na visão material da natureza, mas procurar nela a relação mais profunda com o homem.

A primeira reação de quem olha esta maravilha da natureza tem um primeiro deslumbramento no qual a análise não é possível.
Não é que não haja uma análise. Estar deslumbrado é analisar, é degustar e degustar é analisar. Mas é uma análise que não desce aos pormenores, não desce aos detalhes, se contenta com o esplendor do colorido e da linha geral. Mas depois das primeira floradas de ipê que alguém assista, a atenção se volta aos pormenores e então começa a ser analisado tudo aquilo quanto é o significado profundo daquela flor, o que é que ela significa na ordem do universo, o que é que ela significa na ordem da beleza, o que ela significa como expressão de Deus na vocação daquele país onde ela floresce, e assim, muitas outras considerações vêm ao espírito humano.

Sem dúvida, uma das mais belas árvores que há, o ipê simboliza determinados estados de espírito do homem ou situações da vida.
Assemelha-se ele a uma árvore ornada de magnífico manto dourado, conferindo um ar de corte onde se encontra. São sóis que reluzem em meio ao verde da mata, e suas flores reunidas em cachos de ouro estão a nos transmitir uma mensagem de esperança no porvir, nas promessas de Deus ainda não realizadas, mas que se cumprirão a seu tempo.

Vem-nos naturalmente à lembrança a poesia de Casimiro de Abreu:

“Ai que saudades que tenho
da aurora da minha vida,
De minha infância querida,
Que os anos não trazem mais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
O mundo é um sonho dourado,
A vida, um hino de amor!”

Andando novamente pelas ruas da cidade e vendo este “mundo que é um sonho dourado” neste mês de setembro, analisemos em cada ipê amarelo, a mensagem que este nos quer transmitir.