Os três Arcanjos

Os três Arcanjos: São Miguel, São Gabriel e São Rafael

Comemoramos no dia 29 de setembro a festa de três grandes arcanjos, mas pelo fato de neste ano cair no domingo não os celebraremos na liturgia. Porém, não deixemos de aqui nos lembrarmos destes grandes personagens do mundo angélico, aos quais devemos prestar, além do culto de veneração, toda a gratidão que merecem da nossa parte, por cooperarem ativamente na história da salvação. Continue lendo “Os três Arcanjos”

Dedicação da igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima

Arautos Granja Viana: “Dedicação da igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima”

A imensidade de Deus excede tanto a tudo quanto podemos cogitar que o Salmista Davi não encontrou melhores dizeres para dar a entender a grandeza do Criador senão as seguintes palavras: “É Moab minha bacia de banho, sobre Edom eu porei meu calçado” (Sl 107). Afirmação grandiosa, mas ainda assim as palavras do autor inspirado carecem profundamente de precisão. Qual habitação conseguiria conter o Autor do universo? Não obstante de exceder em infinito as vastidões da Criação, o Deus infinito quis habitar no finito.

“Aquele a quem os Céus no podiam conter, tu carregastes em vosso seio”, reza uma antiga melodia do ofício dedicado à Santíssima Virgem. Aquele que não poderia ser contido nem por todo o universo, por grande que seja, quis habitar num corpo humano, tomado das entranhas virginais de Maria.

Todavia, o mesmo Deus desejou para si outras moradas, além de Nossa Senhora, embora de maneira distinta. Quais? Todas as igrejas a Ele consagradas e que ocupam as vastidões da terra. Um destes templos consagrados ao culto divino é a igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, localizada no Centro Juvenil dos Arautos do Evangelho em São Paulo, e que foi solenimente dedicada no último domingo por Sua Excelência Reverendíssima Dom Luís Antônio Guedes, Bispo de Campo Limpo. Sendo que nesta mesma celebração estiveram presentes outros dois prelados: Dom Emilio Pignoli e Dom Benedito Beni dos Santos; além de centenas de fiéis provenientes das mais variadas regiões de São Paulo e do Brasil.

Confira as fotos desta solenidade na página Últimas Atividades.

“Ele nasceu para morrer por nós”

Quaresma! Estamos na quaresma. A Santa Igreja trocou o verde do tempo comum pelo roxo da penitência. Penitência que Deus quer que seus filhos pratiquem para apresentarem suas almas puras e limpas. Isto porque o próprio Cristo, contador da parábola do Filho pródigo, não considera tanto o começo quanto o fim de nossas obras. Se erramos, é lamentável; mas Ele nos dá a capacidade de arrependermo-nos de sincero coração, consertando nossos atos, esperando de Deus, que não despreza um coração arrependido, a salvação eterna, e, com ela, a felicidade.

Para introduzir o estado de espírito próprio a este período litúrgico, o Centro Juvenil dos Arautos em São Paulo foi objeto de uma oportunidade ímpar: uma conferência com Dom Benedito Beni dos Santos. O prelado, personagem de grande vulto no campo teológico, discorreu sabiamente sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e, de modo mais específico, sobre as palavras ditas pelo Redentor na Cruz.

Pela manhã, Dom Benedito Beni dos Santos teve diante de si um público jovem, tratando do tema acima destacado. Pela tarde, com igual lógica e clareza, tratou sobre os problemas aos quais está exposta a família em nossos dias e, por fim, celebrou solenemente a Santa Missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, localizada no Centro Juvenil.

Entre vários comentários acerca da Paixão, feitos pelo prelado nesta ocasião, colocamos alguns ao conhecimento do caro leitor:

“[Jesus Cristo] anuncia sua morte não como derrota, mas como glorificação: ‘chegou a hora em que o filho do homem será glorificado’. E, se nós pensarmos bem, a morte de Cristo foi de fato uma glorificação. Em primeiro lugar foi uma glorificação porque não foi um simples deixar de existir. Foi uma morte de martírio, testemunho supremo de sua fidelidade à missão do Pai.

A morte de Cristo foi uma glorificação porque foi uma morte redentora. Na Cruz, por amor, Ele oferece a vida a Deus Pai, mas oferece em nosso favor, para o nosso proveito, para a nossa salvação. Finalmente, sua morte na Cruz foi uma glorificação porque Ele morreu para ressuscitar.” (Dom Benedito Beni dos Santos).

 

E o Verbo se fez carne…

Mais algum tempo e terá passado o Tempo do Natal, conforme nos ensina a Liturgia. Todavia, certamente não será tempo de esquecer os preciosos ensinamentos e esperanças que nos deu a Encarnação do Verbo de Deus, como lembra o Pe. Thomas de Saint-Laurent:

“O sábio constrói a casa sobre o rochedo: nem inundação, nem chuvas, nem tempestades a poderão lançar por terra. Para que o edifício da nossa confiança resista a todas as provas, preciso é que se eleve sobre bases inabaláveis.

“Quereis saber, diz São Francisco de Sales, que fundamento deve ter a nossa confiança? Deve basear‑se na infinita bondade de Deus e nos méritos da Morte e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, com esta condição da nossa parte: a firme e total resolução de sermos inteiramente de Deus e de nos abandonarmos completamente e sem reservas à sua Providência” ([1]).

As razões de esperança são demasiado numerosas para que possamos citá‑las todas. Examinaremos aqui somente as que nos são fornecidas pela Encarnação do Verbo e pela Pessoa sagrada do Salvador. De resto, é Cristo em verdade a pedra angular ([2]) sobre a qual principalmente deve apoiar‑se a nossa vida interior.

Que confiança nos inspiraria o mistério da Encarnação, se nos esforçássemos por estudá‑lo de maneira menos superficial!…

Quem é essa criança que chora no presépio, quem é esse adolescente que trabalha na oficina de Nazaré, esse pregador que entusiasma multidões, esse taumaturgo que opera prodígios sem conta, essa vítima inocente que morre na Cruz?

É o Filho do Altíssimo, eterno e Deus como o Pai… é o Emanuel desde tanto tempo esperado; é Aquele que o Profeta chama o “Admirável, o Deus forte, o Príncipe da paz” ([3]).

Mas Jesus ‑ disto nos esquecemos frequentemente ‑ é nossa propriedade. Em todo o rigor do termo, Ele pertence‑nos; é nosso; temos sobre Ele direitos imprescritíveis, pois o Pai celeste no‑Lo deu. A Escritura assim o afirma: “O Filho de Deus nos foi dado” ([4]).

E São João, no seu Evangelho, diz também: “Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho Unigênito” ([5]).

Ora, se Cristo nos pertence, os méritos infinitos dos seus trabalhos, dos seus sofrimentos e da sua morte pertencem‑nos também. Sendo assim, como poderíamos perder a coragem? Entregando‑nos o Filho, o Pai do Céu deu‑nos a plenitude de todos os bens. Saibamos explorar largamente esse precioso tesouro.

Dirijamo‑nos, pois, aos Céus com santa audácia; e, em nome desse Redentor que é nosso, imploremos, sem hesitar, as graças que desejamos. Peçamos as bênçãos temporais e sobretudo o socorro da graça; para a nossa Pátria solicitemos paz e prosperidade; para a Igreja, calma e liberdade.

Essa oração será certamente atendida.” (O Livro da Confiança. Padre Thomas de Saint Laurent, cap. V.)

Certamente ainda é tempo de ver as comemorações natalinas que os arautos em São Paulo fizeram no decorrer deste período natalino. Veja mais fotos na página ÚLTIMAS ATIVIDADES, APRESENTAÇÕES NATALINAS…


[1] ) Les vrais entretiens spirituels. Ed. de Annecy, t. VI, p. 30.

[2] ) Cf. Atos, IV, 11.

[3] ) Isaías, 9, 6.

[4] ) Filius datus est nobis. Isaías, IX, 6.

[5] ) Jo. 3, 16.

A Igreja é a Estrela que nos leva a Belém!

Arautos em São Paulo: “A Igreja é a Estrela que nos lev

Tivemos ontem a comemoração litúrgica da Epifania do Senhor. A este propósito Mons. João S. Clá Dias, Fundador dos Arautos, tece o seguinte comentário acerca deste acontecimento:

“Chama-se festa dos Reis Magos, mas em realidade é a festa da Epifania. Essa festa vem desde o século terceiro, foi estabelecida primeiro no Oriente e, depois, assumida também pela Igreja Latina, pela Igreja do Ocidente. E ela representa a festa dos gentios. Porque é neste momento em que Nosso Senhor se manifesta especialmente para os que não são judeus.

Manifestou-se já, e tivemos isso por ocasião do Natal, aos pastores que são os mais próximos d’Ele que representam o povo judeu. E, agora, Ele chama do oriente esses reis para simbolizar todos os povos e a universalidade da Redenção. Ele veio para salvar a todos, de todas as classes, de todas as raças, de todos os cantos.

E hoje é a comemoração que a Igreja promove para exaltar e adorar a Nosso Senhor enquanto Deus. Ele no presépio e para os judeus Ele se manifesta enquanto Deus, Ele se manifesta enquanto Homem. Hoje Ele, homem, se manifesta enquanto Deus. Se não houvesse uma festa de Reis, como foi estabelecida por Pio XII, se não tivesse essa festa, hoje nós poderíamos considerar bem de perto e com toda a propriedade a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque são reis que vem prestar homenagem ao Rei dos reis.

E é, portanto, uma festa para nós do ocidente mais importante ainda do que o próprio Natal. Porque no Natal Ele se manifesta mais especialmente para os judeus e nesta de hoje Ele se manifesta a nós.

[…] nasce Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas Ele nasce numa terra judaica, em Belém, de uma mãe judia. Nasce para os judeus, porque chama os pastores. Dir-se-ia que Ele vem, portanto, com uma vocação estritamente feita para o povo judeu, para o povo eleito. […] Ele antecipa nesta festa dos Reis Magos o chamado das nações pagãs, das nações longínquas.

E vai mover esses reis que estão lá longe. Eles se põem a caminhar, pura e simplesmente, porque vêem a estrela e estavam estudando as profecias e sabiam que ia aparecer um rei, um salvador, que era um salvador das nações, mas especialmente para Israel, que era um rei dos judeus. E por isso eles se põem a caminho. Põe-se a caminho porque o Espírito Santo toca a alma deles como tocou as almas dos pastores, como tocou a alma de Simeão, como tocou a alma de tanta gente. É o Espírito Santo que promove esses movimentos.

E nós vemos que eles seguem, no meio dessas dificuldades todas, mas nós veremos depois, mais tarde, na história que se estabelece dentro do cristianismo quantos e quantos povos, quantas e quantas nações, quantas e quantas famílias, quantas e quantas pessoas vão também seguir a estrela. Que estrela? A estrela da Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

Porque a Igreja faz o papel do Espírito Santo. A Igreja distribui os sacramentos, a Igreja promove a santificação das almas, a Igreja distribui as graças, portanto. É a Igreja que faz o papel dessa estrela que cintila diante dos nossos olhos e que faz com que nós nos movimentemos e sigamos a voz interior. Porque ao mesmo tempo que a Igreja nos santifica com os seus sacramentos, com a sua palavra, ao mesmo tempo, também, o Espírito Santo fala no nosso interior.”[1]


[1] Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP. Homila na Epifania do Senhor, 06 jan. 2008.

Muitas almas têm medo de Deus

Arautos em São Paulo: “Muitas almas têm medo de Deus”

Verdades que muitas vezes esquecemos…

“São poucos os cristãos, mesmo entre os fervorosos, que possuem essa confiança que exclui toda ansiedade e hesitação. E são várias as causas dessa deficiência. O Evangelho narra que a pesca miraculosa aterrou São Pedro. Com sua impetuosidade habitual, ele mediu de relance a infinita distância que separava a grandeza do Mestre da sua própria pequenez. Tremeu de terror sagrado, e prosternando-se, a face contra o chão, exclamou: “Afastai-Vos de mim, Senhor; que sou um pecador! “.

Certas almas têm, como São Pedro, esse terror. Elas sentem tão vivamente a própria indigência e as próprias misérias, que mal ousam aproximar-se da Divina Santidade. Parece-lhes que um Deus assim tão puro deveria sentir repulsa ao inclinar-Se para elas. Triste impressão, que lhes dá à vida interior uma atitude contrafeita, e, por vezes, a chega a paralisá-la completamente.

Como se enganam essas almas!

Logo aproximou-Se Jesus do Apóstolo assustado: “Não temas!”, disse-lhe, e fê-lo levantar-se…

Vós também, cristãos, que do seu amor tantas provas tendes recebido, nada temais! O que Nosso Senhor receia acima de tudo é que tenhais medo d’Ele. Vossas imperfeições, vossas fraquezas, vossas faltas, mesmo graves, vossas reincidências tão frequentes, nada O desanimará, contanto que desejeis sinceramente converter-vos. Quanto mais miseráveis sois, mais Ele tem compaixão de vossa miséria, mais deseja cumprir, junto a vós, sua missão de Salvador…

Não foi para os pecadores, sobretudo, que Ele veio à terra?…”[1]

 


[1] O Livro da Confiança. Pe. Thomas de Saint-Laurent, cap. I.

A doçura de viver

Arautos em São Paulo: “A doçura de viver”

Vida… dela quem não gosta? Muitos podem até oferecê-la em palavras, mas desprender-se de um tão grande bem como esse é especialmente difícil. No entanto, apesar de o benefício ser comum a todos os homens, uma coisa não é discutível: há modos e modos de se levar a vida…

Há quem tenha vivido de tal maneira que no fim de seus dias tenha podido exclamar: “como foi doce viver!” Mais que uma simples pessoa, houve época em que se pôde dizer haver a verdadeira “doçura de viver”, ou melhor, a douceur de vivre”, onde o trato de uns para com os outros de tal modo eram requintados em educação e respeito que, não fosse o conhecimento das mazelas humanas, quase se pensaria viver no paraíso. Tal período foi intitulado como Antigo Regime, Ancién Régime, antes da terrível mudança ocorrida na França por ocasião da Revolução de 1789.

Entre os elementos que constituíam a “doçura de viver”, especial papel era dado àquele modo distinto de proceder e de falar, conhecido pela expressão politesse (polidez). Essa qualidade encontrava-se difundida por todas as classes sociais e se baseava numa espécie de necessidade inata de devotamento, abnegação e dom de si mesmo. Tal estado de espírito era a aplicação do ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos tenho amado.” (Jo 13, 34)

Mas, o que é a politesse?

Um escritor (Hipolyte Taine) bem a definiu:

“É uma “arte engenhosa e encantadora que penetra todos os pormenores da palavra e da ação para transformá-las em graça [no sentido de bom trato, de encanto], e que impõem ao homem, não o servilismo e a mentira, mas o respeito e a preocupação com os num padrão que não é o seu, mas o que analisamos aqui é o seu modo de tratar. outros, permitindo-lhe, em contrapartida, extrair da sociedade humana toda a alegria que ela pode proporcionar”.

Juntamente com a politesse, desabrochou outra rosa, a causerie, a arte de conversar.

Naqueles tempos essa arte se desenvolveu com tal brilho, transformou-se em algo tão magnífico, que passou a ser reputada uma das mais altas distinções da vida. Por amor à brevidade, é-nos impossível contar os inumeráveis casos de politesse e causerie que enchem as páginas da história do Ancien Régime.

Vejamos apenas alguns pequenos exemplos:

* O Grand Condé

O primeiro desses casos passou-se com Luís II de Bourbon, cujos títulos eram: Príncipe de Conde, primeiro príncipe de sangue real, primeiro Par de França, Duque d’Enghien, de Bourbonnais, de Châteauroux, de Montmorency, Cavaleiro das Ordens do Rei, governador da Borgonha e de Bresse.

Em 1674, após uma grande batalha, na qual a bandeira francesa alcançou esplêndida vitória graças à coragem e sabedoria do Príncipe de Condé, o Rei Luís XIV quis recebê-lo solenemente no palácio de Saint-Germain.

Tolhido pelos ferimentos ainda não cicatrizados e por um reumatismo (nessa ocasião contava com 53 anos), o Grand Condé desculpava-se por subir demasiado lentamente a grande escada no alto da qual o rei e a corte o esperavam, Luís XIV lhe respondeu:

— Quem vem tão carregado de vitórias não pode caminhar depressa!

* “Espere mais um pouco…”

Outro fato deu-se com um soldado que perdera o braço numa batalha, e por isso ficara inválido. Todas as semanas ia ao Palácio de Versailles aguardar a passagem do rei e pedir-lhe um aumento de sua pensão, pois o que recebia não era suficiente para o sustento de sua família.

A resposta do rei, invariavelmente, era:

— Está bem, espere mais um pouco…

Assim aconteceu durante várias semanas.

Um dia ao renovar seu pedido, ouviu do Rei a costumeira resposta.

Tendo o rei passado adiante, o soldado, fazendo uma reverência, disse:

— Majestade!

O rei voltou-se para o soldado, fazendo um gesto permitindo-lhe falar:

— Majestade, se eu houvesse respondido a meu comandante, “espere mais um pouco”, quando recebi a ordem de avançar, talvez eu ainda estivesse com o meu braço!

O Rei gostou tanto de ouvir aquela ousada frase que imediatamente deu ordem para que sua pensão não fosse aumentada, mas duplicada!

Um Menino que transformou a História

 

“Entremos numa certa Gruta e ali veremos um Menino adorado por sua Mãe Santíssima e São José, reunidos em família, oferecendo mais glória a Deus do que toda a humanidade idólatra, e até mesmo mais do que os próprios Anjos do Céu em sua totalidade. Já em seu nascimento, numa singela manjedoura, aquele Divino Infante reparava os delírios de glória egoísta sofregamente procurada pelos pecadores. Ele se encarnou para fazer a vontade do Pai e, assim, dar-nos o perfeitíssimo exemplo de vida.” (CLÁ DIAS, Mons. João Scognamiglio. O Inédito sobre os Evangelhos. Cittá del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, p. 105-106, vol. V).

Ao acompanharmos a Liturgia nesses dias contemplamos o nascimento de um Menino, o qual, dividindo a História ao meio, merece perene louvor pelos séculos, representado pela solene oitava de comemoração do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Se enganaria quem julgasse o Natal como data passada, um dia mais festivo em meio às centenas de outros tantos. Certamente assim seria, se o nascimento comemorado fosse de qualquer um de nós e não de Deus, como de fato é. Nascimento de Deus? A pergunta mostra-se absurda em sua elaboração, pois quem é Deus obviamente não tem princípio. Todavia, o que para os homens parece absurdo, para Deus foi o meio escolhido para demonstrar aos mesmos homens, dignos de todo castigo, o amor e a condescendência d’Aquele que não se horrorizou em tomar nossa carne para nos reconduzir àquela pátria impossível de alcançar, não fosse a verdade de um tão admirável Natal.

Natal glorioso, mas ao mesmo tempo silencioso, repleto de luz e, entretanto, escondido em meio às trevas da meia-noite, cantado pelos Anjos do Céu, presenciado apenas pelos pastores da terra… Paradoxo sublime! Registrado nas páginas da História, lembrado nas canções… Canções? Sim, canções; e das mais variadas partes do mundo e épocas históricas. Foi precisamente para rememorar essas canções que os jovens do Projeto Futuro & Vida prepararam diversas apresentações natalinas neste fim de ano. Uma delas, e digna de nota, foi realizada na diretoria de ensino do município de Osasco – SP, como todos poderão acompanhar nas fotos deste post, e da página “ÚLTIMAS ATIVIDADES”, deste mesmo blog.

A NOITE SANTA

Arautos em São Paulo: Histórias Natalinas

“Tinha eu cinco anos quando sofri o meu primeiro desgosto e tão profundo que dificilmente poderei dizer-se, desde então, tive outro maior. Foi quando minha avó morreu. Era hábito seu sentar-se todos os dias no sofá de canto do seu quarto e contar nos histórias.

Lembro me bem da vovó contando histórias, umas após outras, de manhã à noite, e de nós, crianças, sentadas ao seu lado, muito quietas, ouvindo. Era uma vida esplêndida! Nenhuma outra criança teve, como nós, um tempo tão feliz!

Assim, não será de estranhar que eu fale um pouco a respeito da vovó. Vejo a, ainda hoje, com o seu cabelo branco de neve, o corpo ligeiramente inclinado e os dedos, muitos ágeis, tricotando meias, durante todo o dia. Lembro me, também, de que, quando terminava uma história, ela costumava passar a mão sobre a minha cabeça e dizer:   Tudo isto é tão verdadeiro, como é verdade que estou vendo você e você me vê.

Vovó gostava muito de cantar e todas as canções que sabia eram suaves como ela mesma. Infelizmente, nem todos os dias se dispunha a nos deixar ouvir as suas melodias; lembro me de que uma de suas canções falava do cavalheiro e da sereia e tinha um estribilho que era assim: “Sopra um vento frio, um vento frio do mar”. Do hino que costumava cantar, só aprendi uma estrofe; mas a pequenina oração que me ensinou, rezo a até hoje.

De todas as histórias que nos contava guardei apenas uma vaga lembrança. Porém, uma delas ficou tão nitidamente gravada em minha memória, que sou capaz de repeti-la a qualquer momento   a pequenina história do Nascimento de Jesus.

E aqui está, mais ou menos imprecisamente, tudo quanto posso recordar a respeito de minha avó, menos uma coisa e desta recordo me com a mais perfeita exatidão: a grande solidão em que ficamos quando ela se foi. Aquela manhã em que o sofá de canto permaneceu vazio… E a nossa incapacidade de compreender que ela nunca mais poderia vir ocupá-lo! Oh! Disto eu me recordo tão bem, que nunca o esquecerei!

Tenho presente o medo que nos dominava quando nós, crianças, nos adiantamos para depositar na mão da morta o último beijo; mas alguém disse que esta era a única oportunidade que tínhamos para agradecer à vovó todas as alegrias que nos havia proporcionado.

E as histórias e canções que embelezavam a nossa casa calaram se, encerradas naquele negro cofre, e nunca mais voltaram! E então, alguma coisa de muito doce faltou às nossas vidas. Foi como se nos tivessem expulsado de um mundo encantado e maravilhoso, cujas portas, sempre abertas, que tínhamos a liberdade de transpor, conforme a nossa fantasia, se tivessem fechado de repente e para sempre! E ninguém mais havia que fosse capaz de abri-las!

Pouco a pouco, aprendemos a brincar com bonecas e demais brinquedos e a viver como vivem as outras crianças; dávamos, então, a impressão de que, embora recordássemos sempre a nossa avó, não sentíamos muito a sua falta.

No entanto, todos os dias –  e já quarenta anos são passados! –  quando me disponho a reunir numa coleção todas as legendas sobre Cristo, ouvidas no Oriente, dentro de mim desperta a lembrança da pequena história de Jesus, como a contava minha avó, e com tal clareza que me sinto impelida a incluí-la neste livro!

Era dia de Natal. Toda a família se tinha dirigido à igreja, menos minha avó e eu. Creio mesmo que em casa ninguém mais ficara. Estávamos, portanto, completamente sós. Não tínhamos tido permissão de acompanhar os demais, por ser uma já muito velha e a outra ainda muito jovem. E estávamos ambas muito tristes por não termos ido à Missa do Galo, nem ouvido os cânticos, nem visto as grandes candeias de Natal.

Então, reunidas na nossa solidão, minha avó começou a contar uma história.

–  Havia um homem –  disse ela –  que, já noite escura, saiu de casa para arranjar emprestada uma brasa, a fim de acender o fogo.

Batendo às portas das cabanas, ele dizia:

–  Meu caro amigo, ajuda me. Minha Esposa acaba de dar à luz um Menino e eu preciso fazer fogo para aquecê-la e ao pequenino.

E ia de cabana em cabana. Mas a noite já estava muito adiantada; todo o mundo dormia e ninguém lhe respondia. E o homem caminhava, caminhava. De repente, longe, muito fora da estrada, uma luz brilhou; apressado e ansioso, o homem seguiu naquela direção, na esperança de encontrar auxílio; porém, com surpresa, viu que não se tratava de uma habitação, mas de uma fogueira ateada ao relento.

À sua volta, uma porção de carneiros dormia, guardada por um velho pastor que, sentado, os contemplava. Quando o homem, que desejava uma brasa emprestada, chegou junto ao rebanho, três enormes cães, que até aí dormitavam aos pés do pastor, ergueram se rápidos e fizeram menção de latir. Mas foram vãos os seus esforços. Nenhum som foi emitido.

O estrangeiro pôde ver, então, os pêlos eriçados dos animais e os afiados dentes, muito alvos, cintilando à luz do fogo. Súbito, como movidos por uma única mola, os três cães arremessaram se furiosamente contra ele, abocanhando lhe um, a perna; outro a mão; enquanto o terceiro se atirava à sua garganta.

Porém, nem goelas, nem dentes obedeceram aos ferozes instintos; o homem não sofreu o menor dano. Por isto, pensou em se aproximar mais, a fim de obter o que tanto necessitava. Mas os carneiros, deitados lado a lado, estavam de tal modo juntos que era de todo impossível passar entre eles. Então o homem passou sobre eles, caminhou sobre seus dorsos, em direção à fogueira, e nem um animal acordou ou se moveu!

Até este ponto, vovó tinha feito a sua narrativa sem a mínima interrupção. Mas neste ponto não pude conter a curiosidade que me dominava.

–  Por que é que os animais fizeram isto, vovó? perguntei.

– Você saberá daqui a pouco –  respondeu minha avó.

Quando o homem estava quase alcançando a fogueira, o pastor o olhou. Era o pastor velho rude, áspero e cruel para com os seres humanos. Ao ver o estrangeiro, que serenamente se adiantava, tomou o longo e aguçado cajado que trazia sempre consigo, quando vigiava o rebanho, e o atirou contra ele. O cajado partiu célere, mas, antes de alcançar o seu objetivo, voltou sobre si mesmo e, sibilando, foi cair longe, entre o feno.

Aqui, interrompi vovó novamente.

–  Vovó! Por que é que o cajado não quis ferir o homem?

Mas vovó não perdeu tempo em responder e a história continuou.

–  Então o desconhecido chegou se ao pastor e disse lhe:

–  Bom homem, ajuda me, empresta me algumas brasas. Minha Esposa acaba de dar à luz um Menino e eu preciso fazer fogo para aquecê-La e ao Pequenino.

Pareceu ao rude pastor que um pedido tão estranho nunca lhe houvera sido feito, e preparou se para recusar quando, em tempo, se lembrou de que àquele homem os cães não tinham podido morder; que aos seus pés os carneiros se tinham imobilizado e que o cajado, para o não ferir, se tinha atirado no meio do feno e, então, um supersticioso terror o dominou. Não ousando negar, respondeu:

–  Leva quanto necessitares.

Porém, a fogueira estava acesa ao relento; não havia ali nem uma acha, nem galho abandonado; somente uma enorme pilha de rubros carvões, e o desconhecido não trazia consigo nem pá, nem enxada, com que pudesse transportar uma só daquelas ardentes pedras.

Percebendo isso, o pastor repetiu:

–  Leva quanto necessitares.

E estava alegre o velho, pois o homem não tinha possibilidade de levar sequer uma brasa. O desconhecido, porém, abaixou se e, dentre as cinzas, com as próprias mãos nuas, retirou um punhado de brasas e as colocou dentro do manto. E suas mãos não foram queimadas! E seu manto nem chamuscado ficou! E as pedras de fogo foram transportadas como se maças ou nozes fossem!

Aqui a narradora foi interrompida pela terceira vez:

– Vovó, por que é que o fogo não queimou o homem?   perguntei, cheia de admiração.

– Isto você saberá depois –  e vovó continuou: quando o pastor viu tudo isto, maravilhou- se.

–  Que espécie de noite é esta? –  pensou ele –  na qual os cães não mordem, o rebanho não foge, o cajado não fere e o fogo não queima?

E, chamando o desconhecido, já de regresso, disse lhe:

–  Que espécie de noite é esta? Que aconteceu, para que todas as coisas manifestem compaixão?

Ao que o homem respondeu:

–  Nada te posso dizer, vem e vê!

E tratou de seguir seu caminho, a fim de bem depressa chegar e fazer fogo para aquecer a sua Esposa e a Criança. Mas o pastor não queria perder o homem de vista, sem encontrar uma razão para aqueles presságios. Levantou se, pois, e o seguiu até o lugar em que vivia. Com surpresa, constatou que o homem nem cabana tinha para morar e que tanto sua Esposa como a Criança estavam no chão de uma gruta na montanha, onde nada havia, a não serem as frias e nuas paredes de pedra.

E, olhando a pobre e inocente Criança, o velho pastor pensou que ela talvez fosse morrer de frio ali dentro; apesar de rude, sentiu se tocado por um doce sentimento de compaixão e resolveu salvá-Lo. Desprendeu dos ombros a mochila, tirou de si a macia e branca pele de ovelha e deu a ao desconhecido, dizendo lhe que o Menino dormiria melhor agasalhado nela.

Logo após esta demonstração de misericórdia, os seus olhos foram abertos e ele viu o que antes não pudera ver e ouviu o que antes não pudera ouvir. E percebeu que se achava cercado de inúmeros Anjos de prateadas asas que, de pé, cantavam, em gloriosos tons, que havia nascido o Salvador. Aquele que redimiria o mundo dos seus pecados. E o velho pastor compreendeu que a terra era tão feliz naquela noite bendita, que tinha, por momento, esquecido o mal.

Mas os Anjos não estavam apenas à volta do pastor, ele os via por toda a parte. Havia- os dentro da gruta, havia os pela montanha e sob os Céus revoando. Vinham em profusão e, passando, lançavam sobre a Criança um doce e rápido olhar. Quanto júbilo! Quanto deslumbramento! Que de cânticos e melodias! Tudo o pastor viu na noite escura, ele que, antes, nada pudera ver!

E, então, transbordante de felicidade, o velho e rude homem caiu de joelhos e rendeu graças ao Senhor! Aqui, vovó suspirou e disse:

–  E o que aquele pastor viu nós podíamos também ver, se nos fosse permitido, pois em toda véspera do Natal os Anjos descem voando dos Céus. Passando, depois, a mão sobre a minha cabeça, disse:

–  Você não deve jamais esquecer isto, pois que é verdade que eu vejo você e você me vê. Isto não será revelado à luz de lâmpadas ou candeias; não depende do sol, nem da lua; o que é necessário é que tenhamos olhos capazes de ver a Glória de Deus.”

O Sol, imagem de Deus

Arautos em São Paulo: “O Sol, imagem de Deus”

Os doutores da Igreja tentaram explicitar ao máximo o significado da auto-definição divina: “Eu sou aquele que sou”. E concluíram eles que só é possível compreender algo deste mistério divino através de comparações.

O Evangelho de São João apresenta – em continuidade com a tradição do Antigo Testamento – uma profunda analogia que nos ajuda a levantar o véu da grande questão sobre a identidade de Deus: a da luz. Deus é luz, luz que é vida para os homens em Cristo (Jo 1, 3-4).

Deus revela seu Ser, que é Luz. Ele comunica aos homens não somente algo do seu Ser, como Ele faz às criaturas inanimadas, mas às criaturas inteligentes faz participar de sua Vida e de sua Luz. Todo o Evangelho de São João está polarizado em torno desse tema, tão rico e muito acentuado nos demais livros da Bíblia. A Luz se faz presente em Deus, na Criação, na Antiga Aliança e seus ritos, como na sua Lei, em Jesus Cristo e na sua Igreja, na vida moral, e, enfim, na Jerusalém Celeste.

Na imagem da luz, uma criatura vem à nossa mente como a mais evocativa figura de Deus: o Sol.

Sim, o Sol é o astro da luz, uma verdadeira e luminosa parábola da grandeza e do esplendor Divino. Dentre as maravilhas da natureza, o Sol sempre foi um tema riquíssimo para todas as formas de arte. Porém, o astro-rei é, sobretudo, uma criatura rica em simbologia, através da qual se intui algo da grandeza do Criador.

Tal é a pulcritude e grandeza do Sol, que vários povos pagãos adoraram-no, pois bem parece divino. Mas o Sol é uma simples criatura. Deus o criou como um inconfundível selo de luz que reflete a grandeza do Autor sublime do Universo. […]

Edmond Rostand (1868-1918), numa espirituosa frase exclamava: “Oh Sol! Tu, sem o qual as coisas não seriam senão o que elas são”. Cheia de inteligência e de brilho, a sentença do célebre poeta faz sentir com poucas palavras o poder do astro-rei para emprestar a cada objeto uma beleza que ele, de si, jamais haveria de ter.[…]

O Sol é uma imagem da infinita perfeição e do poder divino. Deus é o Belo, matriz de todas as belezas do Universo. Deus é o Poder, origem e sustentáculo de toda a ordem da Criação. O Sol é uma imagem do Motor imóvel que tudo move. É o Ser necessário a todas as contigentes.

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ARAUTOS DO EVANGELHO. Deus… Quem é Ele. São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2012. pp. 26-30.