A Encarnação: Deus se fez homem para fazer o homem filho seu

Arautos em São Paulo: “A Encarnação”

Aos poucos, a esta altura do ano, as casas, comércios e demais construções vão se revestindo de uma decoração peculiar. A atmosfera do Natal vai tomando espaço nas cogitações…

É a consideração do nascimento do Menino-Deus, o qual se encarnou no seio de uma Virgem. Encarnação… mas para quê a Encarnação? É um tema que bem pode ser objeto de uma análise mais detida. Por que não, nestes dias que antecedem o Natal?

Deus “apiedou-se mais do gênero humano do que dos demais seres existentes na terra”[1], e percebendo que naturalmente ele era incapaz de subsistir pelos séculos, concedeu-lhe algo a mais: criou o homem “à sua imagem, fazendo-os partícipes do poder de seu próprio Verbo”[2], e concedendo-lhes, assim, a bem-aventurança.

Introduzido no Paraíso terrestre, o homem pode desfrutar de inúmeros benefícios e liberalidades de Deus, sob apenas uma condição: “Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás de morrer.”[3] Não obstante, caiu o homem e o pecado foi introduzido na face da Terra.

Segundo Santo Atanásio, grande luminar da Igreja, o “terás de morrer” não vem a significar somente “morrereis, mas permanecereis sujeitos à corrupção e à morte.”[4] Porém, longe de apartar das considerações a Encarnação do Verbo o fato de considerar a queda do primeiro homem, antes concorre para a conclusão desejada, pois “o Senhor veio e apareceu entre os homens”[5], de modo que “o homem foi o motivo da encarnação, e por sua salvação, o Verbo amou o homem até nascer e manifestar-se com um corpo.”[6]Deus havia criado o homem, tirando-o do nada e concedendo-lhe viver segundo Deus, desejando que possuísse incorruptibilidade eterna: “Deus criou o homem para a incorruptibilidade e o fez imagem de sua própria eternidade”[7], mas “os homens, por negligência, abandonaram a contemplação de Deus”[8], “se desviaram dos bens eternos, e por instigação do diabo voltaram-se para as coisas corruptíveis, tornando-se deste modo para si mesmos causa de morte.”[9]

“Então, o que faria Deus, que é bom, uma vez que seres racionais pereciam e as obras divinas se precipitavam na ruína?”[10] Deixar que a morte e a corrupção prevalecessem no mundo? Então, para quê criá-los? “Era preferível não ser do que ser e perecer por abandono.”[11]

Certamente pela própria dignidade da bondade de Deus não convinha deixar os homens serem pela corrupção arrebatados. Fazia-se necessário uma inteira restauração. Mas quem poderia fazê-lo senão o Verbo de Deus, que no começo criara todas as coisas e sob seu governo elas se encontravam? “Competia-lhe reconduzir o corrutível à incorrupção, e salvar o que convinha ao Pai em todas as coisas. Ele, o Verbo de Deus, acima de tudo, era o único, portanto, capaz de refazer todas as coisas, de sofrer por todos, de ser em favor de todos digno embaixador junto do Pai.”[12]Foi o que Deus fez: tomou a carne humana a fim de restaurar quem jazia sob o jugo do pecado. Deus se fez homem para tornar o homem filho seu.


[1] SANTO ATANÁSIO. Contra os pagãos; A Encarnação do Verbo; Apologia ao Imperador Constâncio;Apologia de sua fuga; Vida e conduta de Santo Antão. Trad. Orlando Tiago Loja Rodrigues Mendes. São Paulo: Paulus, 2002, (Patrística; 18). 3, 3.

[2] Idem 3, 3.

[3] Gn 2, 16.17.

[4] A encarnação do Verbo 3, 5.

[5] Idem 4, 2.

[6] Idem 4, 3.

[7] Sb 2, 23-24.

[8] A encarnação do Verbo 4, 4.

[9] Idem 5, 1.

[10] Idem 6, 7.

[11] Idem 6, 7.

[12] Idem 7, 5.

Advento? O que é isto?

Arautos em São Paulo: “Advento? O que é isto?”

Uma atmosfera de ternura e carinho começa a penetrar em nossas almas! Mas qual é a origem de tal sentimento?

-Ora!!! Não está sentindo o aroma de natal que se aproxima?

-Ah… sim meu amigo, mas vamos com calma, pois a vinda do menino Jesus já começa se fazer sentir: é verdade. Mas antes, devemos preparar com ardente desejo por meio do recolhimento e das orações que a Santa Igreja nos oferece para nos prepararmos para a chegada daquele que é o esperado das nações e que foi anunciado pelos profetas….Este é o tempo litúrgico do advento! Falemos um pouco dele.

Os paramentos deste tempo litúrgico (casulaestoladalmática etc.) são de cor roxa para atestar sobriedade e uma discreta alegria que chegará ao seu pináculo apenas no dia de Natal. Os sacerdotes revestem-se com paramentos de cor roxa usado desde as I Vésperas do I Domingo do Advento até a última missa que antecede a da Noite de Natal, e indica a espera do Messias, através da  equilíbrio e sobriedade, uma vez que a Igreja neste período do advento exorta os fiéis a prepararem suas  almas com clamores e  súplicas elevadas ao céu,  como nos ensina o Livro do Eclesiástico: a prece do justo atravessa as nuvens (Cf. Eclesiástico). De maneira que a Providência Divina faça chover o Justo do mais alto dos céus, como faz menção o cântico gregoriano Rorate Caeli: “et nubes pluant justum,” (que as nuvens façam chover O Justo).

A palavra Advento  tem sua origem latina, do Adventus, que quer dizer: chegada. Esse tempo litúrgico tem seu início nas vésperas do Domingo mais próximo do dia 30 de Novembro e se prolonga até as primeiras vésperas do Santo Natal, contando com quatro domingos.

Se canta o Glória somente no dia da festa do Natal, para que toda a cristandade una-se aos Anjos entoando este hino como um  cântico novo, como nos diz São Pedro.

O advento é um período de conversão. É, portanto tempo de penitência, ou seja, de “metanoia,” que significa “mudança de espírito”. Algumas normas estabelecidas pela CNBB orientam-nos neste tempo: a ornamentação das flores e  o uso dos instrumentos musicais sejam usados nas renovação do Santo sacrifício com moderação, para que não seja antecipada a  magna alegria da Natividade do Salvador.

No terceiro domingo do Advento, há o chamado domingo Gaudete ou da Alegria. Os sacerdotes são revestidos com paramentos litúrgicos de cores róseas que são a junção das cores roxas e brancos para indicar a alegria da vinda do Salvador que está se aproximando.

Portanto, por intercessão de Maria Santíssima, Virgem das virgens, unamo-nos a Ela em preces e súplicas ao Pai celeste, para que ao nascer o Menino Jesus junto ao presépio, estejamos genuflexos aos pés da manjedoura, para adorarmos com todo vigor de nossas almas àquele que nos trouxe a salvação e abriu-nos as portas do céu.

_____________________________________________  Nathan Ruach

Medianeira e Dispensadora universal de todas as graças

Arautos em São Paulo: “Medianeira e Dispensadora universal de todas as graças”

“Daí de graça o que de graça recebestes”; frase célebre porque muitas vezes ouvida, mas, mais ainda, por vir dos lábios do Divino Mestre.[1] Ora se há algo que de graça recebemos é a própria graça dada por Deus.

Graça… mas o que é a graça?  “A graça de Deus é um dom habitual, uma disposição estável e sobrenatural para aperfeiçoar a própria alma e torná-la capaz de viver com Deus, agir por seu amor.”[2] Graça pela qual nos tornamos filhos de Deus e alcançamos o Céu, pois “sem o auxílio da graça de Deus, só com as nossas forças, não podemos fazer nada que nos seja útil para a vida eterna.”[3]

Ora, de todas as graças a Virgem Santíssima é a Medianeira e Dispensadora universal.[4] Jesus é o receptáculo de todas as graças, Maria as distribui. Quanto teríamos de lhe agradecer, quão poucas palavras lhe conseguimos dirigir. Porém, um bom hino de louvor poderia ser o que segue:

“Ah! Verdadeiramente, a invenção seria genial, se não fosse divina. Que Maria seja bem efetivamente esta Medianeira, isso sobressai do que Ela é em relação ao Mediador e em relação a nós. Ele lhe deve tudo, pois Ela é sua Mãe; Ela nos deve tudo, porque é a nossa. Portanto, entre Ele e nós, Ela é o sagrado liame, a augusta intermediária que não saberia resignar-se a um rompimento, e para evitá-lo emprega todos os seus recursos, usa de todos os seus direitos, faz valer toda a sua graça.

Ó Jesus, quem exaltará vossas misericórdias? Suspenso ao madeiro, entregue indefeso aos golpes da justiça divina, compreendendo então, por experiência, quanto é terrível para a fraqueza humana de se encontrar só, com suas faltas, em face de Deus, quisestes nos abrir um asilo, mesmo contra vossa cólera de Cordeiro.”

Vosso servo Jó, outrora bradou: ‘Quem, Senhor, me protegerá contra vossa cólera?’ O sondo de Jó, Vós o realizastes, confiando-nos ao coração da mais compassiva das mulheres.”[5]


[1] Cf. Mt 10, 8.

[2] Catecismo da Igreja Católica, n. 2000.

[3] Catecismo de São Pio X. n. 532.

[4] Cf. ROSCHINI, Gabriel. Instruções Marianas. São Paulo: Paulinas, 1960, p. 83; 96.

[5] DADOLLE, Pierre. Le Mois de Marie. Paris: J. Gabalda, 1925, p.239. In: CLÁ DIAS, JOÃO SCOGNAMIGLIO. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. 2 ed. São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2011, v. II, p. 144-145.

Santo do Dia: São Cosme e São Damião, Mártires

São Cosme e São Damião, ambos irmãos de sangue e na fé, são considerados os padroeiros dos médicos e dos farmacêuticos, isso por quê?

Como explicar o fato de que quando os dois irmãos, ao serem condenados tendo como pena de morte a lapidação, ou seja o apedrejamento, não morrerem devido ao milagre que as pedras se voltavam para aqueles que as jogavam? Ou então o que comentar, depois desse fato, sobre a maldade dos homens que, vendo tal milagre, decidem matá-los com flechadas e recebendo como castigo que as flechas lançadas sobre os dois santos se voltavam contra os que as lançavam? Mesmo assim os corações desses homens estavam mais duros do que as pedras lançadas com o intuito de matá-los…

Imaginemos andar o dia inteiro com uma pedra dentro do sapato, que a cada vez que pisamos no chão sentimos aquele incômodo que não nos deixa em paz. O mesmo se dá quando alguém virtuoso está na presença de más pessoas, as quais se sentem como que atormentadas constantemente por uma pedra no sapato, pois aquele que é verdadeiramente bom, diante do mal, toma logo uma posição de censura e fará tudo para reverter a situação. No caso de São Cosme e São Damião, a presença deles incomodava aqueles pagãos. Depois de várias tentativas frustadas de martirizá-los, foram obrigados a recorrer à espada para a decapitação, honra reservada só aos cidadãos romanos, pois eles eram da região da Síria, assim foram decapitados sobre as ordens do imperador Diocleciano.

Os dois mártires eram médicos e curavam não somente pessoas mas até os animais. Ambos faziam isto apenas por caridade, não aceitando qualquer recompensa. Conta-se que em uma das curas feitas por São Damião, este aceitou a contribuição financeira de uma mulher de nome Paládia, curada por ele. Isto provocou uma séria repreensão de seu irmão, São Cosme, ao ponto de dizer que não queria ser enterrado junto com o irmão que rompeu o compromisso de caridade. Após a morte de ambos, os cristãos decidiram enterrá-los separados, cumprindo a vontade de S. Cosme, porém, milagrosamente um camelo assumiu a voz humana e bradou para unirem os irmãos, pois S. Damião, aceitando o modesto honorário oferecido por Paládia, fizera-o em nome da caridade para não humilhar a pobre senhora.

Rezemos a estes dois grandes santos e peçamos que nos curem também de toda enfermidade corporal, mas sobretudo das moléstias espirituais, as quais são muito mais graves que as físicas. As físicas fazem mal ao corpo, só que as espirituais fazem mal a alma, a qual permanece viva após a morte. Que nos deem a força de alma para enfrentarmos as dificuldades da vida presente, e que por sua intercessão gozemos das alegrias eternas.

Santo do Dia: Santo André Kim Taegón e seus companheiros mártires

Nesta data a Igreja comemora o grande testemunho que deram em terras do extremo Oriente, a bem dizer na Coréia, Santo André Kim Taegón e seus companheiros mártires. Em breves palavras assim podemos dizer de seu martírio:

No início do século XVII, a fé cristã entrou pela primeira vez em terras da Coréia, por iniciativa de alguns leigos, de cujo esforço, sem pastores, surgiu uma comunidade forte e fervorosa.

Só em 1836 os primeiros missionários, vindos da França, entraram furtivamente no país. Nesta comunidade, floresceram, com as perseguições de 1839, 1846 e 1866, cento e três mártires, entre os quais sobressaem o primeiro sacerdote e ardoroso pastor de almas André Kim Taegón e o insigne apóstolo leigo Paulo Chóng Hasang, a que se juntaram muitos leigos, homens e mulheres, casados e solteiros, velhos, jovens e crianças. Todos eles consagraram com seu testemunho e sangue as primícias da Igreja coreana.

Apesar das perseguições à Igreja de Cristo, nada a impede em seu dinamismo apostólico, que ela cresça sempre em manifestação de graça e santidade. Em sua última exortação, Santo André Kim disse: “Irmãos caríssimos, lembrai-vos de que Nosso Senhor Jesus, descendo a este mundo, sofreu inúmeras dores e tendo fundado a Igreja por sua paixão, ele a faz crescer pelos sofrimentos dos fiéis. Apesar de todas as pressões e perseguições, os poderes terrenos não poderão prevalecer: da Ascenção de Cristo e do tempo dos apóstolos até hoje, a Santa Igreja continua crescendo no meio das tribulações.”

Fonte: Liturgia das Horas. Vol. IV. Pg. 1295.

Como faço para marcar a História? – II

É possível ser lembrado pela História? É a pergunta que o caro leitor fez, e que começou a encontrar a almejada resposta no último artigo com este nome. Era a história de Flaminio, que, às portas da morte, pediu a Deus que lhe concedesse uma póstuma memória, através dos versos de seu filho. Ao que, aliás, Deus acedeu… mas não como ele imaginava…

Passado o tempo estimado, Flaminio voltou a sua Roma. Diferente de tudo o que já tinha visto, procurou aquedutos de pedra, fortes milicianos Romanos, faustosos palácios; entretanto, Flaminio viu casas feitas de um material diferente, objetos metálicos que circulavam, e imensos templos. Perambulando pela rua, ele queria logo ouvir o verso de seu filho, que proferido pelas bocas mais jovens, devia ser as alegrias das boas mães. Entretanto, guiado por um anjo, foi posto à frente de um suntuoso edifício. Perguntando se era ali que ouviria as imortais palavras que fariam sua lembrança ser eterna, entrou com ênfase e energia. No momento que adentrava, Flaminio viu uma multidão de pessoas, todas voltadas para frente. Então, um homem, com uma roupa diferente, ostentou um cálice e um pedaço de algo que parecia pão, à toda aquela assembleia, dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, e todos responderam: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo.”

Então, o anjo lhe disse que já era hora de voltar. Queixando-se, Flaminio comentou que ainda não ouvira o tal verso. Porém, o anjo, olhando-o com santa ternura, lhe replicou:

– “Flaminio, acaso não percebestes que estas são as palavras de teu filho Cornélio?”

– “Meu filho que fez-se soldado?”

– “Este mesmo. Não foram as palavras soberbas de Tito, o poeta, que a ti trariam eterna memória, caro Flaminio; mas sim as palavras sinceras e cheias de fé de teu filho centurião, que ditas diante do homem Deus com humildade e respeito, serão lembradas até o fim do mundo…”

Acho que isto responde a tua cara indagação, amigo leitor. O único modo de marcarmos a História é seguirmos a estória: Não serão palavras e gestos de vaidade, mas unicamente uma vida resoluta de fé, esperança e caridade.

Santo do Dia: São José de Cupertino

Neste dia 18 de setembro a Igreja comemora São José de Cupertino, o santo padroeiro dos estudantes, mas não porque gozava de grande inteligência, senão que justamente por causa de sua pouca capacidade intelectual. Se é bem verdade que são belos os vitrais, é preciso reconhecer que sua beleza vem da conjugação das mais variadas cores. Também na história dos Santos é preciso reconhecer a beleza própria a cada inspiração da graça para uma via de santidade…

Nasceu paupérrimo em Cupertino, na Púglia, em 1603. Viveu os primeiros meses de sua existência em um estábulo, porque o pai, endividado, teve que vender tudo. Aos 17 anos queria fazer-se frade, mas os frades menores não o aceitaram porque era muito ignorante, e os capuchinhos que o haviam acolhido como irmão leigo, pouco depois impuseram-lhe que depusesse o hábito (foi como se me arrancassem a pele do corpo, disse mais tarde) por sua grande confusão mental.

Em lugar algum o queriam de volta, nem a sua própria mãe. Foi então que os frades menores de Grotella finalmente lhe abriram as portas do seu convento, confiando-lhe os mais humildes serviços, como tomar conta de uma mula. José se auto definiu: irmão burro, e não obstante isso, queria estudar a fim de ser padre. Nos exames foi sorteada a única questão que ele sabia: comentar um trecho do Evangelho.

Mas desde aquele momento, começaram a aparecer na vida desse frade esquisito os sinais da predileção divina, e fenômenos que atestam a santidade interior. Frequentemente encontravam-no em êxtase diante da imagem de Nossa Senhora, suspenso da terra alguns palmos.

Quase sem nenhum estudo teológico, tinha o dom da ciência infusa, e era consultado por teólogos a respeito de questões delicadas de doutrina e de exegese, e dava respostas claras e sábias. “O frade mais ignorante de toda a Ordem franciscana” foi convocado para ir a Roma; recebido em audiência por Urbano VIII, diante do papa o frade caiu em êxtase. A fama dos seus prodígios fez afluir a ele gente de toda parte, e os seus superiores faziam-no mudar continuamente de convento. José de Cupertino aceitou tudo com transparente simplicidade. Só lamentava não poder rever a imagem de Nossa Senhora do seu convento de Grotella, cujo pensamento o levava ao êxtase.

Finalmente os seus confrades designaram-no para o convento de Assis, mas desta vez foi o papa em pessoa que desaconselhou este destino: “Em Assis, comentou, um São Francisco é mais que suficiente.” Assim José de Cupertino morreu em Osimo, aos sessenta anos, em 1663. O “frade burro”, que na vida tinha encontrado sérios problemas para superar os exames, é invocado pelos estudantes no momento de enfrentar as provas escolares.

O papel das imagens na piedade católica

Quando entramos numa igreja, geralmente nossa atitude é de primeiro se ajoelhar diante do Santíssimo Sacramento que lá se faz presente e de fazer uma reverência à imagem de Nossa Senhora ou de algum santo que a igreja possua.

Ora, Deus no Êxodo (20, 4), proíbe o povo eleito de confeccionar qualquer imagem sob o risco de cair em idolatria. Então porque, os católicos, que não adoram imagens, as confeccionam e veneram?

Esta é uma pergunta curiosa. O próprio Deus (Ex 25, 17-22) mandou Moisés colocar dois querubins de ouro sobre o Propiciatório da Arca, e era através deste Propiciatório que Deus falava com o povo. Quando Deus mandou serpentes no deserto para castigo do povo que se tinha revoltado, ao aplacar Sua cólera, mandou que Moisés construísse uma serpente de bronze que curava todo aquele que a olhasse (Nm 21, 4-9). O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, durante toda Sua vida pública, utilizava-se de parábolas, símbolos e imagens para instruir o povo ou reprender suas ações.

Nos primeiros tempos da Igreja, os cristãos, utilizavam imagens nas catacumbas como de Noé, Daniel e a imagem do peixe que simbolizava a Cristo. Mas para que servem as imagens na piedade católica? São Gregório já dizia:

“Tu não devias quebrar o que foi colocado nas igrejas não para ser adorado, mas simplesmente para ser venerado. Uma coisa é adorar uma imagem, a outra coisa é aprender, mediante essa imagem, a quem se dirigem as tuas preces. O que a Escritura é para aqueles que sabem ler, a imagem o é para os ignorantes; mediante essas imagens aprendem o caminho a seguir. A imagem é o livro daqueles que não sabem ler” (Epíst. XI 13 PL 77, 1128c).

São Gregório de Nissa (+394) observava: “O desenho mudo sabe falar sobre as paredes das igrejas e ajuda grandemente” (Panegírico de S. Teodoro, PG 46, 737 d).

São João Damasceno (+749) proclamava: “O que a Bíblia é para os que sabem ler, a imagem o é para os iletrados” (De imaginibus I 17 PG 94, 1248 c).

Tanto as imagens, quanto os vitrais eram considerados como: a Bíblia dos pobres.

Mas o significado não é só isto. Quando queremos lembrarmo-nos de algum parente muito caro que faleceu, pegamos uma foto que temos de recordação e começamos a lembrar todos os tempos que passamos junto a ele, para tentar matar a saudade, o que nos dá a ideia de que ele se faz presente ao nosso lado. Assim também, quando queremos um convívio com algum santo ou com a própria Mãe de Deus buscamo-los através das imagens que simbolizam nossa devoção.

E não é em vão que se estabeleceu o culto das imagens, porque temos imagens que milagrosamente choraram, que milagrosamente foram esculpidas, enfim, que grandemente nos transmitem uma piedade sobrenatural e nos transportam ao convívio celeste.

O mundo dourado

No início deste mês de setembro, quem anda pelas ruas de São Paulo, repara em vários locais da cidade uma coloração diferente: o amarelo.

São os ipês, árvores muito curiosas, que mantém seus botões fechados até determinado momento do ano. Numa bela manhã, geralmente na primeira semana de setembro, observa-se que todos os botões estão abertos e suas flores aparecendo à luz do sol.

E os ipês se mostram eufóricos por estarem sob essa intensa ação do sol, o que os deixa particularmente atraentes.

Monsenhor João Clá Dias, EP,  sempre incentivou os Arautos a não ficarem somente na visão material da natureza, mas procurar nela a relação mais profunda com o homem.

A primeira reação de quem olha esta maravilha da natureza tem um primeiro deslumbramento no qual a análise não é possível.
Não é que não haja uma análise. Estar deslumbrado é analisar, é degustar e degustar é analisar. Mas é uma análise que não desce aos pormenores, não desce aos detalhes, se contenta com o esplendor do colorido e da linha geral. Mas depois das primeira floradas de ipê que alguém assista, a atenção se volta aos pormenores e então começa a ser analisado tudo aquilo quanto é o significado profundo daquela flor, o que é que ela significa na ordem do universo, o que é que ela significa na ordem da beleza, o que ela significa como expressão de Deus na vocação daquele país onde ela floresce, e assim, muitas outras considerações vêm ao espírito humano.

Sem dúvida, uma das mais belas árvores que há, o ipê simboliza determinados estados de espírito do homem ou situações da vida.
Assemelha-se ele a uma árvore ornada de magnífico manto dourado, conferindo um ar de corte onde se encontra. São sóis que reluzem em meio ao verde da mata, e suas flores reunidas em cachos de ouro estão a nos transmitir uma mensagem de esperança no porvir, nas promessas de Deus ainda não realizadas, mas que se cumprirão a seu tempo.

Vem-nos naturalmente à lembrança a poesia de Casimiro de Abreu:

“Ai que saudades que tenho
da aurora da minha vida,
De minha infância querida,
Que os anos não trazem mais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
O mundo é um sonho dourado,
A vida, um hino de amor!”

Andando novamente pelas ruas da cidade e vendo este “mundo que é um sonho dourado” neste mês de setembro, analisemos em cada ipê amarelo, a mensagem que este nos quer transmitir.

 

A “Boca de Ouro” da Igreja

Hoje a Igreja comemora um dos luminares da hagiografia, isto é, da história dos Santos: São João Crisóstomo. Se se pode dizer que sua vida foi comparável a um luminar, com mais ênfase se pode afirmar que suas palavras tinham o valor e o coruscar do mais fino ouro, tanto mais que lhe coube ao nome o acréscimo de “boca de ouro”, ou seja, crisóstomo…

São João Crisóstomo nasceu em Antioquia por volta de 349. Sua mãe, Santa Antusa, lhe deu uma educação eximiamente cristã, fazendo de sua própria casa um verdadeiro mosteiro religioso até a sua juventude. Quando faleceu sua mãe, o nosso santo contemplado hoje pela Igreja foi viver no deserto por seis anos. Todo o povo vendo a santidade desse homem providencial, decide chamá-lo para a cidade recebendo seu consentimento. Estando lá, é ordenado diácono e depois se prepara em cinco anos para o sacerdócio e para a pregação. Tornou-se um zeloso colaborador no governo da diocese de Antioquia através do seu pastoreio e pregação demonstrando uma grande cultura e, mais que tudo, uma evidente santidade.

São João de Antioquia – o sobre nome Crisóstomo (boca de ouro), foi-lhe conferido três séculos depois pelos bizantinos – tornou-se mais tarde patriarca de Constantinopla. Na capital do Oriente, ele promoveu procissões contra os arianos  – os quais incorreram na heresia de dizer que Nosso Senhor Jesus Cristo não era Deus e sim um grande homem dotado de poderes extraordinários -, também construiu hospitais, além de fazer uma eficaz evangelização na zona rural.

Através de seus sermões de fogo, que duravam horas, ele afervorava os tíbios, colocava medo nos hereges e confirmava na fé os que eram fervorosos. Porém, como algumas vezes acontece quando se é corrigido, isto é, não se aceitar a repreensão e, pelo contrário, pagar a repreensão com ódio. Foi o que aconteceu com São João Crisóstomo. Foi deposto e exilado ilegalmente por um conjunto de bispos de Constantinopla chefiados por Teófilo.

Após pouco tempo de exílio, São João foi reconduzido novamente a Constantinopla pelo imperador Arcádio, o qual fora atingido por várias desgraças que chegaram ao seu palácio. Mas como a vida de um santo é pervadida de fatos que a primeira vista não tem uma explicação humana, após dois meses o santo “boca de ouro” foi exilado novamente, primeiramente para a fronteira com a Armênia, depois para as margens do Mar Negro.

Faleceu neste exílio a 14 de setembro de 407, teve seu corpo transladado pelo filho de Arcádio, Teodósio, para Constantinopla e sendo recebido com todo fervor que ele merecia. O acervo com suas obras constitui verdadeiro tesouro para a Igreja Católica, e seus ensinamentos se perpetuaram pelos séculos. Se o leitor quer um exemplo da beleza de sua pregação e do zelo de suas palavras, veja o exemplo de um de seus sermões:

A Santa Cruz

*Junto da Cruz de Jesus estava Sua Mãe+. Viste essa vitória admirável? Viste os magníficos prodígios da Cruz? Posso dizer-te alguma coisa ainda mais admirável? Ouve o modo como se deu a vitória, e hás-de maravilhar-te ainda mais. Cristo venceu o diabo valendo-Se dos meios com que o diabo tinha vencido, e derrotou-o tomando as próprias armas que ele tinha usado. Ouve como o fez:

A virgem, o madeiro e a morte, foram os sinais da nossa derrota. A virgem era Eva, pois ainda não conhecera varão; o madeiro era a árvore; a morte, o castigo de Adão. E eis que também a virgem, o madeiro e a morte, que foram os sinais da nossa derrota, se tornaram os sinais da nossa vitória. Com efeito, em vez de Eva está Maria; em vez da árvore do bem e do mal, está o madeiro da Cruz; em vez da morte de Adão, está a morte de Cristo.

Vês como o demônio foi vencido pelos mesmos meios por que vencera? Na árvore, o diabo fez cair Adão; na árvore, Cristo derrotou o diabo. A primeira levava à região dos mortos; mas a segunda faz voltar até os que já para ali haviam descido. Do mesmo modo, a primeira árvore ocultou o homem já vencido e nu; esta, porém, mostrou a todos o vencedor, também nu, levantado ao alto.

Todos estes magníficos efeitos nos conseguiu a Cruz: a Cruz é troféu levantado contra os demônios, e uma espada contra o pecado, espada com a qual Cristo trespassou a serpente; a Cruz é a vontade do Pai, a glória do Seu Filho Unigênito, a alegria do Espírito Santo, a honra dos Anjos, a segurança da Igreja, o regozijo de São Paulo, a fortaleza dos Santos, a luz de toda a terra.

Fonte: São João Crisóstomo (cerca 345 – 407), Bispo de Antioquia, depois de Constantinopla, Doutor da Igreja, Sermão para Sexta feira Santa sobre a Cruz, 2 ; PG 49, 396 (trad. breviário)