A nobre arte de adestrar falcões – I

Arautos Granja Viana: “A nobre arte de adestrar falcões”

O falcoeiro Bernardt Wetzel liberta seu cão caçador. O perdigueiro dispara em direção a uns arbustos, e, segundos depois, levanta vôo uma perdiz. Voando em círculos a 100 m de altitude, um falcão peregrino escocês, com 1 m de envergadura de asas, paira majestosamente na claridade do céu. Ao avistar a perdiz, mergulha, com as asas esticadas e rígidas, atingindo uma velocidade que pode ultrapassar a 250 km/h. Ataca a perdiz e pousa com ela no campo.

Wetzel, homem alto, louro, ligeiramente bronzeado de sol pela vida ao ar livre, caminha em direção de seu falcão, orgulhosamente em pé, segurando a sua presa.

Exibe-lhe então um pedaço de carne para que voe de volta a sua luva de couro. Após um momento de hesitação o animal obedece. Depois, Wetzel apanha a perdiz e a deposita em seu saco de caça, sempre sob o olhar penetrante, vivo, cintilante do falcão peregrino.

O costume de capturar aves de rapina e treiná-las para a caça remonta a 2000 a. C. aproximadamente na Ásia Central. A falcoaria tornar-se-ia popular na Europa durante a Idade Média, e os falcoeiros holandeses gozavam de grande reputação. No século XVII, Valkenswaard, no Sul da Holanda, em particular, tornar-se-ia um importante centro desta arte.

A caça com aves de rapina esteve durante muito tempo reservada à nobreza, havendo normas rígidas a respeito de quem podia caçar e com que tipo desses predadores. Por volta do ano de 1500, por exemplo, o emprego de falcões peregrinos estava reservado apenas aos duques e príncipes. Os imperadores eram os únicos a poder caçar com águias de grande porte. Os falcões nórdicos eram apanágio dos reis. Quem ocupava as classes inferiores a estas caçavam com açores e gaviões.

Com o passar do tempo, essas leis desapareceram, mas a falcoaria continua a ter sua nobreza, pois não é qualquer um que possui os dotes necessários para o adestramente e a caça com falcões.

Wetzel diz que o instrutor não pode manifestar medo e receio quando o falcão volta perigosamente o seu afiado bico para a sua face. Ainda há uma série de leis que regularizam o direito a caçar com aves de rapina. Wetzel, por exemplo, teve de esperar 10 anos pela sua, mesmo depois de ter provado a um instrutor que sabia lidar com aves de rapina e conseguiria controlar responsavelmente as populações de caça.

Na Holanda, existem cerca de 120 falcoeiros, o que não é muito, se compararmos a cifra às de países árabes como o Qtar, o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos, onde a antiga tradição ainda prospera.

O interesse de Wetzel pela falcoaria foi despertado quando o atual treinador ainda se encontrava na escola primária e pela janela assistia ao vôo dos gaviões, açores e falcões.

Concluído os estudos, um encontro casual com o diretor da Escola Britânica de Falcoaria resultaria num curso que o jovem faria na Inglaterra.


Como se adestra um falcão

No “escritório” de Wetzel, onde ele adestra as suas aves, estão empoleirados numa barra, dois falcões vindos da Índia que ainda não completaram um ano, enquanto no jardim estão dois falcões e um açor. Todos foram criados para a caça.

Apanha Rani, um dos falcões indianos, e o leva no punho para um passeio de treino. Seu punho, que desempenha um papel determinante na falcoaria, está protegido das garras cortantes das aves de rapina por uma espessa luva de couro. Por vezes, Bernardt caminha durante cinco ou seis horas por dia, treinando um animal, para habituá-lo ao ambiente, ao punho e ao falcoeiro. A ave deverá acostumar-se a ver o punho como um local seguro para se alimentar. O passo seguinte  é convencê-la a voar de certa distância até ele. Primeiro, alguns centímetros, que irão aumentando gradualmente até chegar a 100 m. As recompensas sistemáticas de comida a “ensinam” a voltar para o punho do falcoeiro.

O momento mais assustador é aquele que o pássaro é libertado pela primeira vez. “No ano passado, eu estava pondo um deles para voar. A ave estava perfeita, melhor que nunca, subiu a mais de 150 m, virou para a esquerda e nunca mais a vi. O que terá acontecido ainda hoje é um mistério para mim.”

Após algumas semanas de habituação, inicia-se outra fase de treinamento. Uma presa artificial feita com duas asas de pato ou de outro pássaro são fixadas uma à outra, às quais se prende um pedaço de carne, que depois é pendurado a um fio. O tempo de treinamento total dura de seis a oito semanas, até o dia em que a primeira presa verdadeira é perseguida.

Um pequeno capuz de couro é uma das principais peças para o adestramento. “Se houver muita gente por perto ou muito trânsito, pode-se encapuzá-los”, explica. “Isso faz maravilhas.” Com destreza, faz deslizar o capucho pela cabeça de Rani. A venda, inofensiva, é utilizada para manter os pássaros sossegados durante o treino ou quando são transportados. A reação natural de um pássaro que não consiga ver é manter-se quieto. (In: SABE)

quieto.

Mais alguma coisa?

Arautos Granja Viana: “Mais alguma coisa?”

Certa vez, um famosíssimo biliardário decidiu comprar um fabuloso presente para sua filhinha, que fazia seu primeiro aniversário. Indo a uma loja de grandes preços, escolheu uma magnífica pérola, a qual achou muito adequada para ornar o pescoço de sua menina. Indo até o caixa, puxa a grande carteira, e, começa a selecionar o valor para pagar o belo presente. Enquanto isto, o balconista lhe pergunta:

– “Mais alguma coisa senhor?”

Não acreditando na pergunta do moço, o rico empresário fica desconcertado. “Como? Paguei tão  caro nesta pedra e ele me perguntava se quero mais algo?” Com a voz calma, o ricaço pergunta ao rapaz se havia algo mais caro naquela loja. O vendedor disse que havia um carro, leiloado em penhor por alguma madame de anos atrás. O empresário diz que vai comprá-lo, e deixa o jovem assustado, pois não sabe o que uma criança de um ano irá fazer com um automóvel de luxo; entretanto, prepara o recibo e pergunta:

– “Mais alguma coisa senhor?”

Furioso, escorrendo gotículas de suor, o milionário bate na mesa e diz:

– “Quero a coisa mais cara que existe nesta loja! Aí você verá como eu sou rico!!!”

O funcionário procura e procura nos documentos de aquisição dos materiais da loja, e descobre que existe a apólice de uma ilha que estava a venda, mas tão  cara que nenhum magnata até aquele dia tinha conseguido comprar. O rico senhor então exclama:

– “Eu compro! Aqui está o cheque!

O moço repete seu anterior procedimento:

– “Uma pérola, um automóvel, uma ilha. Mais alguma coisa?

Nauseabundo, irritado, o milionário grita:

– “Procure na internet a coisa mais cara que o mundo oferta!”

O balconista vai para trás de um monitor de computador e sai de lá com uma solução:

– “Senhor, a NASA fabricou um foguete de última geração e o pôs a venda, por uma fábula trilionária…”

– “Não tem problema! Esta nave espacial vai um presente para minha filha! Quero ver se você vai perguntar novamente: ‘Mais alguma coisa?’!”

– “Não diga uma coisa dessas”, replicou o jovem. “Meu patrão é exigente, e pede que eu sempre pergunte: ‘Mais alguma coisa.”

– “Então é por isso?!” interrompeu o empresário. “Saiba que vou comprar esta loja amanhã e vou demitir seu patrão! Como é possível ter algo a mais para eu dar a minha filha?!”

O rapaz, corajoso, o interpela:

– “Na verdade há assim, caro senhor. Apenas pergunto: você já deu o Criador a sua filhinha?”

– “Não brinque comigo, jovem!” diz sério o magnata. “Como posso dar Deus a alguém?”

– “O senhor não pode”, responde o balconista, “mas o próprio Deus quis dar-se a nós em uma Cruz. Sua filha já foi batizada?”

– “Ehh… Ehh.. realmente, preciso preparar uma grande festa de batizado: convidar presidentes, chamar autoridades, vai ser uma comemoração de muita importância…”

– “Não, senhor. Não é disso que falo. Se o senhor me pergunta qual o maior presente que pode dar à sua filhinha, eu lhe respondo sem hesitação: é o próprio Deus, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, cujo Reino não terá fim. Quando uma pessoa é batizada, o próprio Deus vem habitar nela e a transforma num templo, onde reside a Santíssima Trindade”.

“No momento em que a pessoa é batizada”, continuou o vendedor, “Deus a adota como Sua própria filha, e lhe dá o direito de receber por herança eterna tudo o que pertence a Ele mesmo. E adotando-a, a faz participar da Sua própria natureza divina, comunicando-lhe Sua própria vida eterna e sobrenatural”.

“Dar Deus a alguém é um presente tão grande, tão insuperável, que apesar de ser onipotente, nem Ele poderia dar um presente maior”, concluiu o jovem.

O bilionário calou-se. Ficou pensativo um momento, levantou-se, deu um abraço no rapaz e lhe disse: “Muito obrigado, meu filho. Você tem toda razão. Reze por mim para que não só eu possa dar esse tesouro incalculável para minha filha o quanto antes, como possa recuperá-lo para minha própria alma”.

Xadrez, um jogo curioso…

Arautos Granja Viana: “Xadrez, um jogo curioso…”

Chess, xadrez, ajedrez, шахи, Schach, satranç, ludus latruncularius, şahmat, cờ vua,
棋, шахматы… seja como for, este jogo já há muitos séculos vem trazendo atrás de si
gerações de aficcionados, desde simples camponeses até renomados estadistas.

Até mesmo alguns santos puderam honrá-lo algumas vezes…

Não queremos entrar em discussão acerca de seu nascedouro, mas uma forte
corrente afirma datar os antecessores diretos do xadrez em torno de 600 d.C., tendo
provavelmente sua origem na Índia. Já o xadrez “moderno” que conhecemos, com a
Rainha e o Bispo, pode-se afirmar com segurança existirem no final do séc. XV, ou seja
na era dos descobrimentos.

Muitas são as finalidades dos praticantes dessa modalidade: alguns jogam por profissão,
outros por lazer, e outros ainda, para ficarem mais inteligentes, pois o jogo envolve
o uso de vários compartimentos avançados do cérebro… Em alguns países levam tão
a sério a aprendizagem da criança com o xadrez, que chega a ser disciplina escolar
obrigatória, como é o exemplo da Romênia, na qual as notas em Matemática dependem
em 33% do desempenho no xadrez.

Dentre tantas as curiosidades que o xadrez suscita, consta a infinidade de jogadas na
qual podem ocorrer dentro de uma partida: Existem precisamente 169.518.829.100.544
quatrilhões (15 zeros) de maneiras de jogar apenas os dez primeiros lances. Para os 40
lances seguintes de um jogo, o número é estimado em 25 x 10 elevado a 115ª potência.

O número inteiro de átomos em todo o universo é apenas uma pequena fração desse
resultado…

Se em um “simples” jogo pode-se obter a cada partida um jogo diferente, o que não
será de Deus na visão beatífica quando os homens que se salvarem poderão gozar
eternamente de novos reflexos de seu Criador que é infinitamente maior? São coisas que
valem a pena pensar…

A Santa Mãe de Deus e seus títulos

Arautos Granja Viana: “A Santa Mãe de Deus e seus títulos”

Uma das maneiras de medirmos a grandeza de um nobre é conhecermos os seus títulos. Por exemplo, o Grand Condé, Luís II de Bourbon, contemporâneo de Luís XIV, possuía os seguintes títulos: Príncipe de Condé, Primeiro Príncipe de sangue real, Primeiro Par de França, Duque d’Enghien, Duque de Bourbonnais, Duque de Châteauroux, Duque de Montmorency, Cavaleiro das Ordens do Rei, Governador da Borgonha e Governador de Bresse.

Vemos que não é qualquer um esse Grand Condé. De fato, ele foi uma das glórias do reino de França.

O mesmo se passa com um rei ou com uma rainha. Seria um disparate dizer que cada título faz com que um Rei, uma Rainha ou um nobre seja outra pessoa. No caso do Grand Condé ele se multiplicaria em 10 pessoas, pois este é o número de seus títulos nobiliárquicos. Bem sabemos que isso não é assim, pois ele possui todos esses títulos.

Isso não se passa somente no campo nobiliárquico. Por exemplo, um Embaixador pode ser formado em Medicina, Catedrático de História, professor de diversos idiomas, etc. Então, vemos  que um só homem pode ter vários títulos.

Pode-se dar um exemplo mais fácil de se entender ainda: nossa mãe, a mesma que cuida de nós, vai ao supermercado, à feira, talvez tenha algum trabalho fora. Em nenhum momento ela deixa de ser a nossa mãe para ser a senhora que vai fazer compras. Ela será sempre a nossa mãe!

Se assim é com um nobre, com um embaixador, com uma mãe, muito mais será com Aquela que foi escolhida para ser Mãe de Deus, a Santíssima Virgem Maria! Nosso Senhor Jesus Cristo é o “Rei dos reis e Senhor dos senhores”, segundo está afirmado nas Sagradas Escrituras. Ora, se Nosso Senhor Jesus Cristo é Rei, Nossa Senhora é Rainha, pois Ela é a Mãe do Rei.

Para se ter uma ideia só em um livro há 378 invocações de Nossa Senhora![1] Outro trata sobre os “mil nomes de Nossa Senhora”[2]!

São Bernardo disse que “de Maria nunquam satis – de Maria, nunca basta”, o que se pode dizer sobre Ela é inesgotável. A tal ponto isso é assim, que na Europa saem em média mil livros sobre Nossa Senhora, por ano!

Sobre esta frase de São Bernardo, comenta São Luis Maria Grignon de Montfort[3]: “Ainda não se louvou, exaltou, honrou, amou e serviu suficientemente a Maria, pois muito mais louvor, respeito, amor e serviço Ela merece. (…) Os Santos disseram coisas admiráveis desta Cidade Santa de Deus. (…) E, depois, proclamaram que é impossível perceber a altura de seus méritos, que Ela elevou até o trono da Divindade; que a largura de sua caridade mais extensa que a Terra, não se pode medir.”

Só para ilustrar melhor a afirmação que faz São Luís, é interessante conhecermos que a superfície da Terra é estimada em 510.065.500 Km2! Pois bem, São Luís diz que a caridade, o amor de Nossa Senhora a Deus é mais extenso que a Terra!

São Luís continua: “A profundeza de sua humildade e de todas as suas virtudes e graças são um abismo impossível de sondar!”

O maior Monte da Terra é o Everest, com 8.848 m! Onde há grandes montanhas, há grandes abismos, imaginem os que ali se podem encontrar! Isso não é nada em comparação com os “abismos” de virtude de Nossa Senhora!

Terminemos o que diz São Luís: “Os olhos não viram, o ouvido não ouviu, nem o coração do homem compreendeu as belezas, as grandezas e excelências de Maria, o milagre dos milagres da graça, da natureza e da glória.”

Em artigos futuros conheceremos alguns títulos de Nossa Senhora, não de todos, porque isso é impossível, dado a imensa quantidade de seus títulos e invocações.

(Retirado de artigo publicado pelo boletim: Triunfo do Imaculado coração de Maria).

 


[1] Cfr. Miryam, de Mário Fonseca.

[2] Cfr. Os Cinco Minutos de Maria, de Alfonso Milagro.

[3] São Luís Maria Grignon de Montfort, Tratato da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, Vozes, Petrópolis, 1961, pp. 20-23.

Deus provê às nossas necessidades temporais…

Arautos Granja Viana: “Deus provê às nossas necessidades temporais”[1]

“A confiança, já o dissemos, é uma esperança heróica; não difere da esperança comum a todos os fiéis senão pelo seu grau de perfeição. Ela é, pois, exercida sobre os mesmos objetos que aquela virtude, mas por meio de atos mais intensos e vibrantes.

Como a esperança ordinária, a confiança espera do Pai Celeste todos os socorros que são necessários para se viver santamente aqui na terra e merecer a bem‑aventurança do Paraíso.

Ela espera, primeiramente, os bens temporais na medida em que estes nos podem conduzir ao fim último.

Nada mais lógico: não podemos ir à conquista do Céu à maneira dos puros espíritos; somos compostos de corpo e de alma. Este corpo que o Criador formou pelas suas mãos adoráveis é o companheiro inseparável da nossa existência terrestre; e sê‑lo‑á ainda da nossa sorte eterna depois da ressurreição geral. Não podemos prescindir da sua assistência na luta pela conquista da vida bem‑aventurada.

Ora, para sustentar‑se, para cumprir plenamente a sua tarefa, o corpo tem múltiplas exigências. Essas exigências, é preciso que a Providência as satisfaça; e ela fá‑lo magnificamente.

Deus encarrega‑se de prover às nossas necessidades temporais; cuida delas generosamente. Segue‑nos com olhar vigilante e não nos deixa na indigência. Perante as dificuldades materiais mais angustiantes, não nos devemos perturbar. Com uma certeza serena esperemos das mãos divinas o que é preciso para o sustento da nossa vida.

“Eu vos digo, declara o Salvador, não vos inquieteis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer ou de beber, nem quanto ao vosso corpo com o que haveis de vestir. Porventura não é o corpo mais do que o vestido e a vida mais do que o alimento? Olhai para as aves do céu: Não semeiam, nem ceifam, nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai Celeste alimenta‑as. Não valeis vós mais do que elas?…

“Porque vos preocupais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios do campo! Não trabalham nem fiam. Pois Eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé?

“Não vos preocupeis, dizendo: Que comeremos nós, que beberemos, ou que vestiremos? Os pagãos, esses sim, afadigam‑se com tais coisas; porém, o vosso Pai Celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isso.

“Procurai pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo” ([2]).

Não basta passar os olhos de relance sobre este discurso de Nosso Senhor. Importa que nele fixemos longamente a atenção, para procurarmos o seu significado profundo e nos deixarmos embeber pela sua doutrina.”

 


[1] THOMAS DE SAINT-LAURENT. O Livro da Confiança. Cap. III.

[2] ) Mt. 6, 25‑26 e 28‑33.

“Esse Terço é meu!”

Arautos Granja Viana: “Esse Terço é meu!”

Opinião alheia… quantas vezes a opinião geral que nos circunda nos impõe ações que não faríamos se estivéssemos a sós. O medo de ir contra a “correnteza” em muitas épocas já sepultou a vários na mais vergonhosa covardia. Talvez seja por isso que os fatos de intrasigência que ocorreram na História brilham de maneira especial como, por exemplo, um Santo Inácio de Antioquia que, além das feras do Coliseu, enfrentou ao imperador e à milhares de pessoas que se reuniram apenas para vê-lo destroçado pela voragem dos leões.

Para que as pessoas não julguem que o heroísmo da fé se limita aos Santos, ou a alguns poucos, vejamos um fato ocorrido num ambiente em que a opinião alheia muitas pesa sobre a conduta de cada um…

“Um jovem alferes (soldado) conta um interessante sucedido na tropa em que servia.

‘Estávamos alinhados no batalhão para os exercícios do dia. O sargento instrutor era conhecido por todos por seu ateísmo e por escarnecer de tudo o que era religioso. Naquele dia tinha nas mãos um trunfo especial, pensava ele. Balanceava entre os dedos um Terço e perguntou ironicamente aos submissos soldados, com um malicioso sorriso nos lábios:

—Quem é que perdeu esta coisa? Quem se apresenta?

O batalhão, católico na maior parte, de súbito tornou-se um magote de covardes, pois todos riram para estar bem com o escarnecedor, mesmo aqueles aos quais a própria mãe dera um Terço para levar consigo na tropa. Só um cadete a meu lado rangia os dentes, ofendido.

O sargento continuava a escarnecer, convencido de que ninguém teria coragem de se apresentar para levar o Terço. Porém, o cadete meu vizinho adiantou-se, fez continência e disse com voz clara e forte: “Esse Terço é meu!” O batalhão silenciou e não se riu mais. O Terço lhe foi entregue sem mais cerimônias pelo instrutor, que também parou com o escárnio.

Após a instrução, no intervalo, perguntei curioso ao moço: “Porque você deixou passar um tempo e não teve logo a coragem de se apresentar, e depois respondeu com tanta convicção?” — “Porque o Terço não era nada meu! Eu avancei porque queria acabar de vez com o deboche dele! Não agüentava mais! Fui inspirado pelo meu Anjo da Guarda’.

Este fato espalhou-se pelo quartel. E veio a descobrir-se quem era o verdadeiro dono do Terço. Desde então tornou-se impossível para ele permanecer no batalhão. Porém o destemido cadete passou a ser respeitado por todos como ‘o jovem de fé’.” [1]


[1] “Cavaleiro da Imaculada” nº842, maio de 2004.

Santo do Dia: São Cosme e São Damião, Mártires

São Cosme e São Damião, ambos irmãos de sangue e na fé, são considerados os padroeiros dos médicos e dos farmacêuticos, isso por quê?

Como explicar o fato de que quando os dois irmãos, ao serem condenados tendo como pena de morte a lapidação, ou seja o apedrejamento, não morrerem devido ao milagre que as pedras se voltavam para aqueles que as jogavam? Ou então o que comentar, depois desse fato, sobre a maldade dos homens que, vendo tal milagre, decidem matá-los com flechadas e recebendo como castigo que as flechas lançadas sobre os dois santos se voltavam contra os que as lançavam? Mesmo assim os corações desses homens estavam mais duros do que as pedras lançadas com o intuito de matá-los…

Imaginemos andar o dia inteiro com uma pedra dentro do sapato, que a cada vez que pisamos no chão sentimos aquele incômodo que não nos deixa em paz. O mesmo se dá quando alguém virtuoso está na presença de más pessoas, as quais se sentem como que atormentadas constantemente por uma pedra no sapato, pois aquele que é verdadeiramente bom, diante do mal, toma logo uma posição de censura e fará tudo para reverter a situação. No caso de São Cosme e São Damião, a presença deles incomodava aqueles pagãos. Depois de várias tentativas frustadas de martirizá-los, foram obrigados a recorrer à espada para a decapitação, honra reservada só aos cidadãos romanos, pois eles eram da região da Síria, assim foram decapitados sobre as ordens do imperador Diocleciano.

Os dois mártires eram médicos e curavam não somente pessoas mas até os animais. Ambos faziam isto apenas por caridade, não aceitando qualquer recompensa. Conta-se que em uma das curas feitas por São Damião, este aceitou a contribuição financeira de uma mulher de nome Paládia, curada por ele. Isto provocou uma séria repreensão de seu irmão, São Cosme, ao ponto de dizer que não queria ser enterrado junto com o irmão que rompeu o compromisso de caridade. Após a morte de ambos, os cristãos decidiram enterrá-los separados, cumprindo a vontade de S. Cosme, porém, milagrosamente um camelo assumiu a voz humana e bradou para unirem os irmãos, pois S. Damião, aceitando o modesto honorário oferecido por Paládia, fizera-o em nome da caridade para não humilhar a pobre senhora.

Rezemos a estes dois grandes santos e peçamos que nos curem também de toda enfermidade corporal, mas sobretudo das moléstias espirituais, as quais são muito mais graves que as físicas. As físicas fazem mal ao corpo, só que as espirituais fazem mal a alma, a qual permanece viva após a morte. Que nos deem a força de alma para enfrentarmos as dificuldades da vida presente, e que por sua intercessão gozemos das alegrias eternas.

Santo do Dia: Santo André Kim Taegón e seus companheiros mártires

Nesta data a Igreja comemora o grande testemunho que deram em terras do extremo Oriente, a bem dizer na Coréia, Santo André Kim Taegón e seus companheiros mártires. Em breves palavras assim podemos dizer de seu martírio:

No início do século XVII, a fé cristã entrou pela primeira vez em terras da Coréia, por iniciativa de alguns leigos, de cujo esforço, sem pastores, surgiu uma comunidade forte e fervorosa.

Só em 1836 os primeiros missionários, vindos da França, entraram furtivamente no país. Nesta comunidade, floresceram, com as perseguições de 1839, 1846 e 1866, cento e três mártires, entre os quais sobressaem o primeiro sacerdote e ardoroso pastor de almas André Kim Taegón e o insigne apóstolo leigo Paulo Chóng Hasang, a que se juntaram muitos leigos, homens e mulheres, casados e solteiros, velhos, jovens e crianças. Todos eles consagraram com seu testemunho e sangue as primícias da Igreja coreana.

Apesar das perseguições à Igreja de Cristo, nada a impede em seu dinamismo apostólico, que ela cresça sempre em manifestação de graça e santidade. Em sua última exortação, Santo André Kim disse: “Irmãos caríssimos, lembrai-vos de que Nosso Senhor Jesus, descendo a este mundo, sofreu inúmeras dores e tendo fundado a Igreja por sua paixão, ele a faz crescer pelos sofrimentos dos fiéis. Apesar de todas as pressões e perseguições, os poderes terrenos não poderão prevalecer: da Ascenção de Cristo e do tempo dos apóstolos até hoje, a Santa Igreja continua crescendo no meio das tribulações.”

Fonte: Liturgia das Horas. Vol. IV. Pg. 1295.

Como faço para marcar a História? – II

É possível ser lembrado pela História? É a pergunta que o caro leitor fez, e que começou a encontrar a almejada resposta no último artigo com este nome. Era a história de Flaminio, que, às portas da morte, pediu a Deus que lhe concedesse uma póstuma memória, através dos versos de seu filho. Ao que, aliás, Deus acedeu… mas não como ele imaginava…

Passado o tempo estimado, Flaminio voltou a sua Roma. Diferente de tudo o que já tinha visto, procurou aquedutos de pedra, fortes milicianos Romanos, faustosos palácios; entretanto, Flaminio viu casas feitas de um material diferente, objetos metálicos que circulavam, e imensos templos. Perambulando pela rua, ele queria logo ouvir o verso de seu filho, que proferido pelas bocas mais jovens, devia ser as alegrias das boas mães. Entretanto, guiado por um anjo, foi posto à frente de um suntuoso edifício. Perguntando se era ali que ouviria as imortais palavras que fariam sua lembrança ser eterna, entrou com ênfase e energia. No momento que adentrava, Flaminio viu uma multidão de pessoas, todas voltadas para frente. Então, um homem, com uma roupa diferente, ostentou um cálice e um pedaço de algo que parecia pão, à toda aquela assembleia, dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, e todos responderam: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo.”

Então, o anjo lhe disse que já era hora de voltar. Queixando-se, Flaminio comentou que ainda não ouvira o tal verso. Porém, o anjo, olhando-o com santa ternura, lhe replicou:

– “Flaminio, acaso não percebestes que estas são as palavras de teu filho Cornélio?”

– “Meu filho que fez-se soldado?”

– “Este mesmo. Não foram as palavras soberbas de Tito, o poeta, que a ti trariam eterna memória, caro Flaminio; mas sim as palavras sinceras e cheias de fé de teu filho centurião, que ditas diante do homem Deus com humildade e respeito, serão lembradas até o fim do mundo…”

Acho que isto responde a tua cara indagação, amigo leitor. O único modo de marcarmos a História é seguirmos a estória: Não serão palavras e gestos de vaidade, mas unicamente uma vida resoluta de fé, esperança e caridade.

Santo do Dia: São José de Cupertino

Neste dia 18 de setembro a Igreja comemora São José de Cupertino, o santo padroeiro dos estudantes, mas não porque gozava de grande inteligência, senão que justamente por causa de sua pouca capacidade intelectual. Se é bem verdade que são belos os vitrais, é preciso reconhecer que sua beleza vem da conjugação das mais variadas cores. Também na história dos Santos é preciso reconhecer a beleza própria a cada inspiração da graça para uma via de santidade…

Nasceu paupérrimo em Cupertino, na Púglia, em 1603. Viveu os primeiros meses de sua existência em um estábulo, porque o pai, endividado, teve que vender tudo. Aos 17 anos queria fazer-se frade, mas os frades menores não o aceitaram porque era muito ignorante, e os capuchinhos que o haviam acolhido como irmão leigo, pouco depois impuseram-lhe que depusesse o hábito (foi como se me arrancassem a pele do corpo, disse mais tarde) por sua grande confusão mental.

Em lugar algum o queriam de volta, nem a sua própria mãe. Foi então que os frades menores de Grotella finalmente lhe abriram as portas do seu convento, confiando-lhe os mais humildes serviços, como tomar conta de uma mula. José se auto definiu: irmão burro, e não obstante isso, queria estudar a fim de ser padre. Nos exames foi sorteada a única questão que ele sabia: comentar um trecho do Evangelho.

Mas desde aquele momento, começaram a aparecer na vida desse frade esquisito os sinais da predileção divina, e fenômenos que atestam a santidade interior. Frequentemente encontravam-no em êxtase diante da imagem de Nossa Senhora, suspenso da terra alguns palmos.

Quase sem nenhum estudo teológico, tinha o dom da ciência infusa, e era consultado por teólogos a respeito de questões delicadas de doutrina e de exegese, e dava respostas claras e sábias. “O frade mais ignorante de toda a Ordem franciscana” foi convocado para ir a Roma; recebido em audiência por Urbano VIII, diante do papa o frade caiu em êxtase. A fama dos seus prodígios fez afluir a ele gente de toda parte, e os seus superiores faziam-no mudar continuamente de convento. José de Cupertino aceitou tudo com transparente simplicidade. Só lamentava não poder rever a imagem de Nossa Senhora do seu convento de Grotella, cujo pensamento o levava ao êxtase.

Finalmente os seus confrades designaram-no para o convento de Assis, mas desta vez foi o papa em pessoa que desaconselhou este destino: “Em Assis, comentou, um São Francisco é mais que suficiente.” Assim José de Cupertino morreu em Osimo, aos sessenta anos, em 1663. O “frade burro”, que na vida tinha encontrado sérios problemas para superar os exames, é invocado pelos estudantes no momento de enfrentar as provas escolares.