Como faço para marcar a História? – II

É possível ser lembrado pela História? É a pergunta que o caro leitor fez, e que começou a encontrar a almejada resposta no último artigo com este nome. Era a história de Flaminio, que, às portas da morte, pediu a Deus que lhe concedesse uma póstuma memória, através dos versos de seu filho. Ao que, aliás, Deus acedeu… mas não como ele imaginava…

Passado o tempo estimado, Flaminio voltou a sua Roma. Diferente de tudo o que já tinha visto, procurou aquedutos de pedra, fortes milicianos Romanos, faustosos palácios; entretanto, Flaminio viu casas feitas de um material diferente, objetos metálicos que circulavam, e imensos templos. Perambulando pela rua, ele queria logo ouvir o verso de seu filho, que proferido pelas bocas mais jovens, devia ser as alegrias das boas mães. Entretanto, guiado por um anjo, foi posto à frente de um suntuoso edifício. Perguntando se era ali que ouviria as imortais palavras que fariam sua lembrança ser eterna, entrou com ênfase e energia. No momento que adentrava, Flaminio viu uma multidão de pessoas, todas voltadas para frente. Então, um homem, com uma roupa diferente, ostentou um cálice e um pedaço de algo que parecia pão, à toda aquela assembleia, dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, e todos responderam: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo.”

Então, o anjo lhe disse que já era hora de voltar. Queixando-se, Flaminio comentou que ainda não ouvira o tal verso. Porém, o anjo, olhando-o com santa ternura, lhe replicou:

– “Flaminio, acaso não percebestes que estas são as palavras de teu filho Cornélio?”

– “Meu filho que fez-se soldado?”

– “Este mesmo. Não foram as palavras soberbas de Tito, o poeta, que a ti trariam eterna memória, caro Flaminio; mas sim as palavras sinceras e cheias de fé de teu filho centurião, que ditas diante do homem Deus com humildade e respeito, serão lembradas até o fim do mundo…”

Acho que isto responde a tua cara indagação, amigo leitor. O único modo de marcarmos a História é seguirmos a estória: Não serão palavras e gestos de vaidade, mas unicamente uma vida resoluta de fé, esperança e caridade.

Como faço para marcar a História? – I

Caro leitor, devo dizer que vossa pergunta me intriga. Como fazer para desvendar semelhante questão? Pensei muito sobre o assunto, e, passeando pelos memorandos de meu compartimento intelectivo, achei uma história que lhe dá uma inusitada solução.

Há muito tempo, na época em que homens viviam de camelos e iluminavam as noites com velas, estava um velho homem a mendigar pequenas porções alimentícias, ao lado de um grande mercado árabe. Ele era romano de nascimento, porém havia se mudado com sua família para as terras quentes da África, onde estabelecera sólida casa ao leste da terras que hoje seria o leste de Marrocos. Nos primeiros anos de vida naquele deserto continente, tudo corria bem para o abastado Flaminio, como era o nome de nosso ancião personagem. Ele tinha toda sua atenção voltada ao primeiro filho, Tito, que era um verdadeiro poeta. Pessoas de toda parte vinham vê-lo declamar suas poesias, e cumprimentavam Flaminio pelo ótimo filho que tinha; era o jovem escritor que começava sua fama nas terras do pai. Entretanto, Tito, inchado de glória, decidiu partir com seus amigos para as longínquas regiões da Grécia. Deixando seu pai no abandono, partiu para nunca mais voltar. Contavam-se das proezas linguísticas de Tito na ilha dos filósofos, no entanto Flaminio nunca mais recebeu uma carta sua. Para sua maior tristeza, sua esposa morreu de rara doença um ano após a partida de seu primogênito. Flaminio tinha um segundo filho, mas, àquelas alturas, já tinha se alistado como soldado romano, e partira de casa ainda jovem. Assim, nosso velho personagem ficou pobre e solitário. Estabeleceu um ponto de descanso, e passava dias inteiros pedindo aos transeuntes do mercado árabe um resto de comida.

Passados anos, Flaminio, já muito magro e as portas da morte, presenciou uma disputa de dois beduínos em frente ao local que escolhera para mendigar. Tentando ajudar, recebeu uma punhalada de um dos contendores. Expirou deste modo Flaminio, o romano.

Diante de Deus, ele pediu um favor ao Criador. Pediu uma glória para sua família, e que um dos seus filhos continuasse a estirpe dos antigos flaminios, com honra e valor. Deus, vendo que seu pedido era sincero, declarou: “Flaminio, daqui a dezoito séculos voltarás a esta Terra, e verás que os versos de teu filho continuam e continuarão a se fazer ouvir por toda face.”

Flaminio exultou. Sabia que seu filho Tito haveria de levar seu nome por todos os tempos! Enfim achara ele um meio de marcar a História!

Entretanto, passado este período de anos, Flaminio voltou a sua terra natal, a grandiosa Roma. Esperava ansioso para ver as frases de seu filho. O que ele haveria de achar?

CONTINUA NO PRÓXIMO NÚMERO…

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                                                                                                                                       Guilherme Cueva