Um Menino que transformou a História

 

“Entremos numa certa Gruta e ali veremos um Menino adorado por sua Mãe Santíssima e São José, reunidos em família, oferecendo mais glória a Deus do que toda a humanidade idólatra, e até mesmo mais do que os próprios Anjos do Céu em sua totalidade. Já em seu nascimento, numa singela manjedoura, aquele Divino Infante reparava os delírios de glória egoísta sofregamente procurada pelos pecadores. Ele se encarnou para fazer a vontade do Pai e, assim, dar-nos o perfeitíssimo exemplo de vida.” (CLÁ DIAS, Mons. João Scognamiglio. O Inédito sobre os Evangelhos. Cittá del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, p. 105-106, vol. V).

Ao acompanharmos a Liturgia nesses dias contemplamos o nascimento de um Menino, o qual, dividindo a História ao meio, merece perene louvor pelos séculos, representado pela solene oitava de comemoração do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Se enganaria quem julgasse o Natal como data passada, um dia mais festivo em meio às centenas de outros tantos. Certamente assim seria, se o nascimento comemorado fosse de qualquer um de nós e não de Deus, como de fato é. Nascimento de Deus? A pergunta mostra-se absurda em sua elaboração, pois quem é Deus obviamente não tem princípio. Todavia, o que para os homens parece absurdo, para Deus foi o meio escolhido para demonstrar aos mesmos homens, dignos de todo castigo, o amor e a condescendência d’Aquele que não se horrorizou em tomar nossa carne para nos reconduzir àquela pátria impossível de alcançar, não fosse a verdade de um tão admirável Natal.

Natal glorioso, mas ao mesmo tempo silencioso, repleto de luz e, entretanto, escondido em meio às trevas da meia-noite, cantado pelos Anjos do Céu, presenciado apenas pelos pastores da terra… Paradoxo sublime! Registrado nas páginas da História, lembrado nas canções… Canções? Sim, canções; e das mais variadas partes do mundo e épocas históricas. Foi precisamente para rememorar essas canções que os jovens do Projeto Futuro & Vida prepararam diversas apresentações natalinas neste fim de ano. Uma delas, e digna de nota, foi realizada na diretoria de ensino do município de Osasco – SP, como todos poderão acompanhar nas fotos deste post, e da página “ÚLTIMAS ATIVIDADES”, deste mesmo blog.

Quem é mais, manda menos…

A vida comum e corrente de todos os dias nos traz ensinamentos valorosos na compreensão de vários acontecimentos. A observação detida, e às vezes desinteressada, pode nos fornecer princípios que talvez décadas de estudo não proporcionariam. Assim nascem, na maioria das vezes, os chamados “ditados populares”, os quais, diga-se de passagem, resumem em pequenas sentenças o que os livros dedicariam boas páginas no intuito de tratar dignamente de certos temas.

Pois bem, um dos ditos populares muito familiar a nossos ouvidos talvez seja: “Quem pode mais, chora menos…” Frase um pouco crua no que diz respeito a uma educação mais polida, porém, verdadeira. Não obstante, mais do que o simples significado da afirmação, o que nos interessa no presente momento é a “moldura” que a reveste, a qual, sem muita dificuldade, deixa entrever que aquele que possui maior força, maior poder, maior autoridade, é o que faz valer sua voz, é o que subjuga, que intimida precisamente pelo que representa diante dos outros. Essa concepção, apesar de não figurar tão sem véus assim, é o modo como muitas vezes interpretamos a toda e qualquer autoridade, como se a hierarquia viesse de fábrica com uma espécie de selo macabro e injusto. Ora, a análise de uma vida digna de imitação, isto é, a de Nosso Senhor Jesus Cristo bem nos mostra uma outra concepção acerca da hierarquia, conforme comenta Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP:

“À primeira vista, a constituição da Sagrada Família é um mistério, pois nela quem tem mais autoridade é São José, como patriarca e pai, com direito sobre a esposa e sobre o fruto de suas puríssimas entranhas.

A esposa é Mãe de Deus, Mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Sendo Mãe, tem Ela poder sobre um Deus que Se encarnou em seu seio virginal e Se fez seu Filho.

Nosso Senhor Jesus Cristo, como filho, deve obediência a esse pai adotivo, aceitando em tudo a orientação e a formação dada por José; e também à sua Mãe, criatura sua. Que imenso, insondável e sublime paradoxo!

Assim, na ordem natural, José é o chefe; Maria, a esposa e mãe; e Jesus, a criança. Porém, na ordem sobrenatural, o Menino é o Criador e Redentor; Ela, a Medianeira de todas as graças, Rainha do Céu e da Terra; e José, o Patriarca da Igreja. José, o que de si tem menos poder, exerce a autoridade sobre Nossa Senhora, a qual tem a ciência infusa e a plenitude da graça, e sobre o Menino, que é o Autor da graça.

Por que dispôs Deus essa inversão de papéis?

Assim fez para nos dar uma grande lição: Ele ama a hierarquia e deseja que a sociedade humana seja governada por este princípio, do qual o próprio Verbo Encarnado quis dar exemplo.”[1]


[1] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2012, 130-131, vol. V.

Medianeira e Dispensadora universal de todas as graças

Arautos em São Paulo: “Medianeira e Dispensadora universal de todas as graças”

“Daí de graça o que de graça recebestes”; frase célebre porque muitas vezes ouvida, mas, mais ainda, por vir dos lábios do Divino Mestre.[1] Ora se há algo que de graça recebemos é a própria graça dada por Deus.

Graça… mas o que é a graça?  “A graça de Deus é um dom habitual, uma disposição estável e sobrenatural para aperfeiçoar a própria alma e torná-la capaz de viver com Deus, agir por seu amor.”[2] Graça pela qual nos tornamos filhos de Deus e alcançamos o Céu, pois “sem o auxílio da graça de Deus, só com as nossas forças, não podemos fazer nada que nos seja útil para a vida eterna.”[3]

Ora, de todas as graças a Virgem Santíssima é a Medianeira e Dispensadora universal.[4] Jesus é o receptáculo de todas as graças, Maria as distribui. Quanto teríamos de lhe agradecer, quão poucas palavras lhe conseguimos dirigir. Porém, um bom hino de louvor poderia ser o que segue:

“Ah! Verdadeiramente, a invenção seria genial, se não fosse divina. Que Maria seja bem efetivamente esta Medianeira, isso sobressai do que Ela é em relação ao Mediador e em relação a nós. Ele lhe deve tudo, pois Ela é sua Mãe; Ela nos deve tudo, porque é a nossa. Portanto, entre Ele e nós, Ela é o sagrado liame, a augusta intermediária que não saberia resignar-se a um rompimento, e para evitá-lo emprega todos os seus recursos, usa de todos os seus direitos, faz valer toda a sua graça.

Ó Jesus, quem exaltará vossas misericórdias? Suspenso ao madeiro, entregue indefeso aos golpes da justiça divina, compreendendo então, por experiência, quanto é terrível para a fraqueza humana de se encontrar só, com suas faltas, em face de Deus, quisestes nos abrir um asilo, mesmo contra vossa cólera de Cordeiro.”

Vosso servo Jó, outrora bradou: ‘Quem, Senhor, me protegerá contra vossa cólera?’ O sondo de Jó, Vós o realizastes, confiando-nos ao coração da mais compassiva das mulheres.”[5]


[1] Cf. Mt 10, 8.

[2] Catecismo da Igreja Católica, n. 2000.

[3] Catecismo de São Pio X. n. 532.

[4] Cf. ROSCHINI, Gabriel. Instruções Marianas. São Paulo: Paulinas, 1960, p. 83; 96.

[5] DADOLLE, Pierre. Le Mois de Marie. Paris: J. Gabalda, 1925, p.239. In: CLÁ DIAS, JOÃO SCOGNAMIGLIO. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição comentado. 2 ed. São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2011, v. II, p. 144-145.