Quem é mais, manda menos…

A vida comum e corrente de todos os dias nos traz ensinamentos valorosos na compreensão de vários acontecimentos. A observação detida, e às vezes desinteressada, pode nos fornecer princípios que talvez décadas de estudo não proporcionariam. Assim nascem, na maioria das vezes, os chamados “ditados populares”, os quais, diga-se de passagem, resumem em pequenas sentenças o que os livros dedicariam boas páginas no intuito de tratar dignamente de certos temas.

Pois bem, um dos ditos populares muito familiar a nossos ouvidos talvez seja: “Quem pode mais, chora menos…” Frase um pouco crua no que diz respeito a uma educação mais polida, porém, verdadeira. Não obstante, mais do que o simples significado da afirmação, o que nos interessa no presente momento é a “moldura” que a reveste, a qual, sem muita dificuldade, deixa entrever que aquele que possui maior força, maior poder, maior autoridade, é o que faz valer sua voz, é o que subjuga, que intimida precisamente pelo que representa diante dos outros. Essa concepção, apesar de não figurar tão sem véus assim, é o modo como muitas vezes interpretamos a toda e qualquer autoridade, como se a hierarquia viesse de fábrica com uma espécie de selo macabro e injusto. Ora, a análise de uma vida digna de imitação, isto é, a de Nosso Senhor Jesus Cristo bem nos mostra uma outra concepção acerca da hierarquia, conforme comenta Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP:

“À primeira vista, a constituição da Sagrada Família é um mistério, pois nela quem tem mais autoridade é São José, como patriarca e pai, com direito sobre a esposa e sobre o fruto de suas puríssimas entranhas.

A esposa é Mãe de Deus, Mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Sendo Mãe, tem Ela poder sobre um Deus que Se encarnou em seu seio virginal e Se fez seu Filho.

Nosso Senhor Jesus Cristo, como filho, deve obediência a esse pai adotivo, aceitando em tudo a orientação e a formação dada por José; e também à sua Mãe, criatura sua. Que imenso, insondável e sublime paradoxo!

Assim, na ordem natural, José é o chefe; Maria, a esposa e mãe; e Jesus, a criança. Porém, na ordem sobrenatural, o Menino é o Criador e Redentor; Ela, a Medianeira de todas as graças, Rainha do Céu e da Terra; e José, o Patriarca da Igreja. José, o que de si tem menos poder, exerce a autoridade sobre Nossa Senhora, a qual tem a ciência infusa e a plenitude da graça, e sobre o Menino, que é o Autor da graça.

Por que dispôs Deus essa inversão de papéis?

Assim fez para nos dar uma grande lição: Ele ama a hierarquia e deseja que a sociedade humana seja governada por este princípio, do qual o próprio Verbo Encarnado quis dar exemplo.”[1]


[1] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2012, 130-131, vol. V.

“Eis a serva do Senhor”

Obedecendo, ensina Santo Irineu, a Santíssima Virgem tornou-Se causa de salvação, para si e para todo o gênero humano.[1]

Diz o Evangelho:

O anjo disse-lhe: “Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim”. Maria perguntou ao anjo: “Como se fará isso, pois não conheço homem?” Respondeu-lhe o anjo: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível.” Então disse Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo afastou-se dela” (Lc 1, 30-38).

Neste trecho da Sagrada Escritura repleto de bênção e cheio de unção Divina, São Lucas nos faz meditar sobre a humilde e discreta obediência d’Aquela a quem devemos a Encarnação do Verbo.

Se percebermos a Virgem ficar atônita por um instante, não é porque está hesitada diante da vontade de Deus, mas é porque sua incomparável humildade e delicada pureza A faz temer a insigne honra da maternidade divina.

Escutemos Santo Ambrósio:

Maria não iria recusar a crer no anjo, e nem usurpar temerariamente as coisas divinas. Por isso disse ao anjo: “como se fará isto?” Esta resposta foi mais oportuna do que a do sacerdote. Maria disse “como se fará isso? e aquele disse: “como poderei saber isto?” Aquele se nega a crer e parece buscar outro motivo que confirme sua fé, porém Maria não duvida que ela deve fazer, visto que pergunta como se fará.[2]

Assim, no coração de Maria não havia outra resposta a não ser o “fiat”, proclamando-se “serva do Senhor”, frase usual no ambiente oriental para se falar com um superior, aceita os desígnios divinos, que é uma mostra de confiança e de obediência à Palavra de Deus. Através desse consentimento, Maria tornou-se Mãe de Jesus e “consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e obra de seu Filho”.[3]

Na antiguidade, época em que a escravidão era prática comum, é onde devemos valorar esta expressão. O escravo não tinha vontade própria e nem um querer fora de seu amo. Também Nossa Senhora, diante de Deus, não tinha outro querer senão o Divino[4]. Por isso, inclinou-se diante da palavra do anjo e pronunciou seu “Fiat” imortal, que ecoará até o fim, soando mesmo no meio das humilhações e dos abandonos do Calvário. De sua alma submissa sempre se evolará o brado da obediência e do amor: “Fiat mihi secundum verbum tuum” (Lc 1, 38).[5]


[1] Cf. IRINEU. Adver. Haer. 3, 22, 4. In: MIGNE, J. P. Patrologiae Cursus Completus: Patrologiae Graecae. Vol. 7, p. 959.

[2] Apud. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. Vol. IV. Buenos Aires: CCC, 1946. p. 20.

[3] “Ita Maria filia Adam, verbo divino consentiens, facta est Mater Iesu, ac salvificam voluntatem Dei, pleno corde et nullo retardata peccato, complectens, semetipsam ut Domini ancillam personae et operi Filii sui totaliter devovit, sub Ipso et cum Ipso, omnipotentis Dei gratia, mysterio redemptionis inserviens”. (CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 21 nov. 1964. In: AAS 57 (1965) 56. p. 60. Tradução do autor).

[4] Cf. TUYA, Manuel. Biblia Comentada: Evangelios. Vol Vb. 3. ed. Madrid: BAC, 1977. p. 28.

[5] Cf. L’AMI DU CLERGÉ PAROISSIAL. Sermon Pour la Purification. Saint Pierre, n. 3, 16 jan. 1902. p. 49-56.

Consagração a Nossa Senhora

A consagração a Nossa Senhora consiste em o homem dar‑se a Ela. E, já que ele pode realizar em si de algum modo as virtudes que nela refulgem dar‑se à Mãe de Deus é para o homem procurar imitá‑la e também servi‑la. O conhecimento de Nossa Senhora, a admiração por Ela, a imitação e o serviço a Ela, são os elementos integrantes desta completa consagração a Maria Santíssima que nós queremos verdadeiramente realizar.

Mas daí nós passamos a uma pergunta: Como viver essa consagração em nossos dias? Nossa vida deve ser tal que os princípios de santidade que aurimos na consagração a Ela se reflitam não só nas almas, mas em tudo aquilo que nos cerca.

Por uma misteriosa afinidade entre as formas, os sons, as cores, os perfumes pode-se exprimir estados de espírito diversos. É necessário, pois, que se reflitam estados de espírito virtuosos para a formação dos ambientes nos quais o homem encontre os recursos necessários para a sua santificação, imagens de Deus que lhe falem aos sentidos, lhe dêem o atrativo da virtude e o estimulem por essa forma a conhecer, a ter apetência da beleza de Deus, que ele só verá face a face na glória dos céus.

Organizar uma ordem de coisas assim seria pois o Reinado de Jesus Cristo, o Reinado de Maria na terra. É isso que almejam os Arautos do Evangelho. Mediante o quê? Mediante a difusão da devoção Àquela que prenunciou a era de seu próprio reinado, ao dizer: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!” Para tal intento um ótimo sinal pôde ser visto na Consagração a Nossa Senhora realizada neste último fim de semana…

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O aniversário de Maria Santíssima

“Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens. Eis que anuncio uma grande alegria!” Esta frase angelical que foi dita pela primeira vez na história, a qual ouvimos na liturgia de 25 de dezembro, nascimento do Menino Jesus, bem poderia ser antecipada ao mais augusto nascimento que já houve, para ser aplicada aquela Criatura que daria a luz ao Criador.

Os únicos nascimentos que a Igreja comemora na liturgia são o de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Nossa Senhora e de São João Batista, do qual foi dito pelo Divino Mestre que de todos os homens nascidos de mulher, ninguém foi tão grande como ele.

Nossa Senhora, nascida de São Joaquim e Santa Ana, foi a casa perfeita e completa construida pelas mãos de Deus para que Ele viesse habitar. Os mariólogos comentam que onde os grandes santos chegaram ao auge da santidade, a Virgem Santíssima começou a prática da virtude um pouco além do cume dos bem-aventurados. Concebida sem pecado original desde a sua concepção, ela nos deu a Virtude e a Vida por excelência, isto é, Nosso Senhor Jesus Cristo, reparando assim todo o mal provocado pela primeira mulher da criação, Eva, que trouxe o pecado e a morte para a terra.

É costume entre as pessoas dar presentes para aqueles que fazem aniversário. Hoje é o aniversário de Nossa Senhora! Então, o que dar para aquela que nos fez abrir as portas do Céu, trazendo-nos o Redentor da Humanidade? Não temos nada de material a sua altura para oferecer a ela e por mais que tivéssemos, é bem certo que o que mais lhe agradaríamos nesse seu aniversário é fazermos um propósito sério de abraçar a santidade profundamente com todas as nossas forças. Com isso poderemos ter a certeza que Nossa Senhora do Céu esboçará um sorriso de tal modo maternal, cândido e capaz de operar tantas maravilhas que, se nós a víssemos, nos tornaríamos realmente santos instantaneamente!

“E o nome da Virgem era Maria”

Maria de Fátima, Maria Aparecida, Maria da Graças são nomes que antigamente eram atribuídos às meninas por mães católicas em memória da Santíssima Virgem Maria.

Entretanto alguém já parou para pensar o que significam estes nomes? Certamente não. Por isso vamos expor diversos significados e mostrar que o nome da Virgem corresponde ao Seu chamado.

No idioma aramaico este nome significa “senhora” ou “princesa”. Ora Nossa Senhora era da estirpe real de Davi, portanto era uma princesa. Mas Sua realeza aumentou, estendendo-se à todas as criatura inclusive aos Anjos, porque Ela se tornou Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é Criador e Regente do Universo, e foi coroada pela Santíssima Trindade ao subir aos Céus.

No idioma popular significa “A iluminadora”. Foi por Maria que Nosso Senhor Jesus Cristo entrou nesse mundo. Ela foi o caminho pelo qual a Luz do mundo veio iluminar as treva do pecado em que o mundo estava imerso. Ela ilumina as almas com Suas virtudes e Seus dons, com Sua obediência à Voz do Senhor : “Faça-se em Mim, segundo a Sua Palavra” (Lc. 1, 38).

No significado científico para o hebraico significa: “Formosa”. Diz o Cântico dos cânticos “Como és formosa, amiga minha! Como és bela!”(Ct. 1, 15), “És toda bela, ó minha amiga, e não há mancha em ti.” (Ct. 4, 15), nisso contemplamos a Imaculada Conceição da Santa Virgem Maria.

No idioma egípcio Maria significa “preferida de Deus”, pois Myr em egípcio significava a filha mais preferida e ya significava o Deus verdadeiro, Yahweh. Mostrando que Nossa Senhora é a Filha preferida por Deus, no dizer de Santa Isabel e que rezamos na Ave-Maria “bendita sois Vós entre as mulheres” (Lc. 1, 28).

E não podíamos deixar de mencionar a bela oração de São Bernardo louvando o Santíssimo Nome de Maria:

“E o nome da Virgem era Maria. Falemos um pouco desse nome que significa segundo se diz “estrela do mar”. E que convém maravilhosamente a Virgem Mãe. Ela é verdadeira mente esta estrela que deveria elevar-se sobre a imensidade do mar, toda brilhante de próprios méritos, radiante com os próprio exemplos.

Ó tu, quem quer que sejas, que te sentes longe da terra firme, arrastado pelas ondas deste mundo, no meio das borrascas e tempestades, se não queres soçobrar, não tires os olhos da luz desta estrela.

Se o vento das tentações se levanta, se o escolho das tribulações se interpõe em teu caminho, olha a estrela, invoca Maria.

Se és balouçado pelas vagas do orgulho, da ambição, da maledicência, da inveja, olha estrela, invoca Maria.

Se a cólera, a avareza, os desejos impuros sacodem a frágil embarcação de tua alma, levanta os olhos para Maria.

Se, perturbado pela lembrança da enormidade de teus crimes, confuso à vista das torpezas de tua consciência, aterrorizado pelo medo do juízo, começas a te deixar arrastar pelo turbilhão da tristeza, a despenhar no abismo do desespero, pensa em Maria.

Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria.

Que seu nome nunca se afaste de teus lábios, jamais abandone teu coração; e para alcançar o socorro da intercessão dEla, não negligencies os exemplos de sua vida.

Seguindo-A, não te transviarás; rezando a Ela, não desesperarás; pensando nEla, evitarás todo erro.

Se Ela te sustenta, não cairás; se Ela te protege, nada terás a temer; se Ela te conduz, não te cansarás; se Ela te é favorável, alcançarás o fim.

E assim verificarás, por tua própria experiência, com quanta razão foi dito: “E o nome da Virgem era Maria”.

Nossa Senhora: A Luz da Fé

Neste Ano da Fé, no qual todos nós somos convidados a crescermos nesta virtude e manifestá-la pelas obras mediante a perseverança, encontramos em Maria Santíssima o augusto exemplo para imitarmos. Ela que, enquanto todos  duvidavam da Ressurreição do Senhor, foi a única “labareda” de fé que brilhou na escuridão dos dias em que o Salvador descera à mansão dos mortos. Acompanhemos, então, algumas considerações acerca desta Fé de Maria, qual Luz que ilumina em meio às trevas… Continue lendo “Nossa Senhora: A Luz da Fé”