“Esse Terço é meu!”

Arautos Granja Viana: “Esse Terço é meu!”

Opinião alheia… quantas vezes a opinião geral que nos circunda nos impõe ações que não faríamos se estivéssemos a sós. O medo de ir contra a “correnteza” em muitas épocas já sepultou a vários na mais vergonhosa covardia. Talvez seja por isso que os fatos de intrasigência que ocorreram na História brilham de maneira especial como, por exemplo, um Santo Inácio de Antioquia que, além das feras do Coliseu, enfrentou ao imperador e à milhares de pessoas que se reuniram apenas para vê-lo destroçado pela voragem dos leões.

Para que as pessoas não julguem que o heroísmo da fé se limita aos Santos, ou a alguns poucos, vejamos um fato ocorrido num ambiente em que a opinião alheia muitas pesa sobre a conduta de cada um…

“Um jovem alferes (soldado) conta um interessante sucedido na tropa em que servia.

‘Estávamos alinhados no batalhão para os exercícios do dia. O sargento instrutor era conhecido por todos por seu ateísmo e por escarnecer de tudo o que era religioso. Naquele dia tinha nas mãos um trunfo especial, pensava ele. Balanceava entre os dedos um Terço e perguntou ironicamente aos submissos soldados, com um malicioso sorriso nos lábios:

—Quem é que perdeu esta coisa? Quem se apresenta?

O batalhão, católico na maior parte, de súbito tornou-se um magote de covardes, pois todos riram para estar bem com o escarnecedor, mesmo aqueles aos quais a própria mãe dera um Terço para levar consigo na tropa. Só um cadete a meu lado rangia os dentes, ofendido.

O sargento continuava a escarnecer, convencido de que ninguém teria coragem de se apresentar para levar o Terço. Porém, o cadete meu vizinho adiantou-se, fez continência e disse com voz clara e forte: “Esse Terço é meu!” O batalhão silenciou e não se riu mais. O Terço lhe foi entregue sem mais cerimônias pelo instrutor, que também parou com o escárnio.

Após a instrução, no intervalo, perguntei curioso ao moço: “Porque você deixou passar um tempo e não teve logo a coragem de se apresentar, e depois respondeu com tanta convicção?” — “Porque o Terço não era nada meu! Eu avancei porque queria acabar de vez com o deboche dele! Não agüentava mais! Fui inspirado pelo meu Anjo da Guarda’.

Este fato espalhou-se pelo quartel. E veio a descobrir-se quem era o verdadeiro dono do Terço. Desde então tornou-se impossível para ele permanecer no batalhão. Porém o destemido cadete passou a ser respeitado por todos como ‘o jovem de fé’.” [1]


[1] “Cavaleiro da Imaculada” nº842, maio de 2004.

Como faço para marcar a História? – II

É possível ser lembrado pela História? É a pergunta que o caro leitor fez, e que começou a encontrar a almejada resposta no último artigo com este nome. Era a história de Flaminio, que, às portas da morte, pediu a Deus que lhe concedesse uma póstuma memória, através dos versos de seu filho. Ao que, aliás, Deus acedeu… mas não como ele imaginava…

Passado o tempo estimado, Flaminio voltou a sua Roma. Diferente de tudo o que já tinha visto, procurou aquedutos de pedra, fortes milicianos Romanos, faustosos palácios; entretanto, Flaminio viu casas feitas de um material diferente, objetos metálicos que circulavam, e imensos templos. Perambulando pela rua, ele queria logo ouvir o verso de seu filho, que proferido pelas bocas mais jovens, devia ser as alegrias das boas mães. Entretanto, guiado por um anjo, foi posto à frente de um suntuoso edifício. Perguntando se era ali que ouviria as imortais palavras que fariam sua lembrança ser eterna, entrou com ênfase e energia. No momento que adentrava, Flaminio viu uma multidão de pessoas, todas voltadas para frente. Então, um homem, com uma roupa diferente, ostentou um cálice e um pedaço de algo que parecia pão, à toda aquela assembleia, dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, e todos responderam: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo.”

Então, o anjo lhe disse que já era hora de voltar. Queixando-se, Flaminio comentou que ainda não ouvira o tal verso. Porém, o anjo, olhando-o com santa ternura, lhe replicou:

– “Flaminio, acaso não percebestes que estas são as palavras de teu filho Cornélio?”

– “Meu filho que fez-se soldado?”

– “Este mesmo. Não foram as palavras soberbas de Tito, o poeta, que a ti trariam eterna memória, caro Flaminio; mas sim as palavras sinceras e cheias de fé de teu filho centurião, que ditas diante do homem Deus com humildade e respeito, serão lembradas até o fim do mundo…”

Acho que isto responde a tua cara indagação, amigo leitor. O único modo de marcarmos a História é seguirmos a estória: Não serão palavras e gestos de vaidade, mas unicamente uma vida resoluta de fé, esperança e caridade.