Em plena vida… a morte

 Arautos Granja Viana: “Em plena vida… a morte”

Às vezes, grandes fatos perdem certas minúcias em meio às brumas do legendário e do mítico que os perpetuam ao longo da história. Os únicos dados que temos sobre o episódio a seguir é que se deu na Europa, durante a Idade Média, nem sequer conhecemos os personagens, pois nessa época as pessoas, sobretudo os religiosos, não se preocupavam em gravar seus nomes nas mentes alheias. Para comprovarmos esta opinião, basta sabermos que em uma Cartuxa da França foram encontrados vários corpos incorruptos, dos quais nunca se descobriram os nomes. A razão do anonimato é simples: Na regra de São Bruno, consta dentro do voto de obediência a obrigação de ser santo, portanto, não fizeram senão cumprir com o dever.

E foi nessas circunstâncias que se deu nosso fato: Um monge rezava caminhando com um outro frade, enquanto densas e escuras nuvens se formavam ao redor do local onde se situava o mosteiro. Como essas nuvens não cumprissem com sua ameaça de caudalosas chuvas, os irmãos contemplavam a impetuosidade divina, simbolizada pelos raios, que ao contrário da chuva, caíam torrencialmente.

Entretanto, não esperavam que a morte colhesse um deles em um relâmpago, no sentido literal da palavra. Após um intenso clarão acompanhado de estrondoso ruído, ambos foram por terra. Pouco tempo depois, ao recuperar a consciência, um dos frades notou que seu companheiro jazia no solo… carbonizado.

Como a Providência não permite que nada aconteça, sem que haja algum benefício para os justos, utilizou desse pretexto para inspirar o sobrevivente a compor um dos mais belos cânticos gregorianos que a Santa Igreja, no seu precioso e inefável tesouro, adotou para o tempo da Quaresma: o “Media Vita”.

Eis a letra do cântico:

Media vita in mórte súmus: quem quaérimus adjutórem, nísi te Dómine? qui pro peccátis nóstris júste irásceris:

Sáncte Déus, Sáncte fórtis, Sáncte miséricors Salvátor, amárae mórti ne trádas nos.

 In te speravérunt pátres nóstri; speravérunt, et liberásti éos. Ad te clamavérunt pátres nóstri; clamavérunt, et non sunt confúsi.

Tradução:

Em plena vida, deparamo-nos com a morte: em quem buscaremos auxílio senão em Vós, Senhor? Vós que com tanta razão Vos irais por nossos crimes. Santo Deus, Santo Forte, Santo Salvador misericordioso, não nos entregueis à amarga morte. Em Vós esperaram nossos pais; esperaram e foram libertados. A Vós clamaram nossos pais; clamaram e não foram confundidos.

(Extraído do jornal estudantil “Chez Nous”)

____________________________________________Rodrigo Portela

Deus provê às nossas necessidades temporais…

Arautos Granja Viana: “Deus provê às nossas necessidades temporais”[1]

“A confiança, já o dissemos, é uma esperança heróica; não difere da esperança comum a todos os fiéis senão pelo seu grau de perfeição. Ela é, pois, exercida sobre os mesmos objetos que aquela virtude, mas por meio de atos mais intensos e vibrantes.

Como a esperança ordinária, a confiança espera do Pai Celeste todos os socorros que são necessários para se viver santamente aqui na terra e merecer a bem‑aventurança do Paraíso.

Ela espera, primeiramente, os bens temporais na medida em que estes nos podem conduzir ao fim último.

Nada mais lógico: não podemos ir à conquista do Céu à maneira dos puros espíritos; somos compostos de corpo e de alma. Este corpo que o Criador formou pelas suas mãos adoráveis é o companheiro inseparável da nossa existência terrestre; e sê‑lo‑á ainda da nossa sorte eterna depois da ressurreição geral. Não podemos prescindir da sua assistência na luta pela conquista da vida bem‑aventurada.

Ora, para sustentar‑se, para cumprir plenamente a sua tarefa, o corpo tem múltiplas exigências. Essas exigências, é preciso que a Providência as satisfaça; e ela fá‑lo magnificamente.

Deus encarrega‑se de prover às nossas necessidades temporais; cuida delas generosamente. Segue‑nos com olhar vigilante e não nos deixa na indigência. Perante as dificuldades materiais mais angustiantes, não nos devemos perturbar. Com uma certeza serena esperemos das mãos divinas o que é preciso para o sustento da nossa vida.

“Eu vos digo, declara o Salvador, não vos inquieteis quanto à vossa vida, com o que haveis de comer ou de beber, nem quanto ao vosso corpo com o que haveis de vestir. Porventura não é o corpo mais do que o vestido e a vida mais do que o alimento? Olhai para as aves do céu: Não semeiam, nem ceifam, nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai Celeste alimenta‑as. Não valeis vós mais do que elas?…

“Porque vos preocupais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios do campo! Não trabalham nem fiam. Pois Eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé?

“Não vos preocupeis, dizendo: Que comeremos nós, que beberemos, ou que vestiremos? Os pagãos, esses sim, afadigam‑se com tais coisas; porém, o vosso Pai Celeste bem sabe que tendes necessidade de tudo isso.

“Procurai pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo” ([2]).

Não basta passar os olhos de relance sobre este discurso de Nosso Senhor. Importa que nele fixemos longamente a atenção, para procurarmos o seu significado profundo e nos deixarmos embeber pela sua doutrina.”

 


[1] THOMAS DE SAINT-LAURENT. O Livro da Confiança. Cap. III.

[2] ) Mt. 6, 25‑26 e 28‑33.

A doçura de viver

Arautos em São Paulo: “A doçura de viver”

Vida… dela quem não gosta? Muitos podem até oferecê-la em palavras, mas desprender-se de um tão grande bem como esse é especialmente difícil. No entanto, apesar de o benefício ser comum a todos os homens, uma coisa não é discutível: há modos e modos de se levar a vida…

Há quem tenha vivido de tal maneira que no fim de seus dias tenha podido exclamar: “como foi doce viver!” Mais que uma simples pessoa, houve época em que se pôde dizer haver a verdadeira “doçura de viver”, ou melhor, a douceur de vivre”, onde o trato de uns para com os outros de tal modo eram requintados em educação e respeito que, não fosse o conhecimento das mazelas humanas, quase se pensaria viver no paraíso. Tal período foi intitulado como Antigo Regime, Ancién Régime, antes da terrível mudança ocorrida na França por ocasião da Revolução de 1789.

Entre os elementos que constituíam a “doçura de viver”, especial papel era dado àquele modo distinto de proceder e de falar, conhecido pela expressão politesse (polidez). Essa qualidade encontrava-se difundida por todas as classes sociais e se baseava numa espécie de necessidade inata de devotamento, abnegação e dom de si mesmo. Tal estado de espírito era a aplicação do ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos tenho amado.” (Jo 13, 34)

Mas, o que é a politesse?

Um escritor (Hipolyte Taine) bem a definiu:

“É uma “arte engenhosa e encantadora que penetra todos os pormenores da palavra e da ação para transformá-las em graça [no sentido de bom trato, de encanto], e que impõem ao homem, não o servilismo e a mentira, mas o respeito e a preocupação com os num padrão que não é o seu, mas o que analisamos aqui é o seu modo de tratar. outros, permitindo-lhe, em contrapartida, extrair da sociedade humana toda a alegria que ela pode proporcionar”.

Juntamente com a politesse, desabrochou outra rosa, a causerie, a arte de conversar.

Naqueles tempos essa arte se desenvolveu com tal brilho, transformou-se em algo tão magnífico, que passou a ser reputada uma das mais altas distinções da vida. Por amor à brevidade, é-nos impossível contar os inumeráveis casos de politesse e causerie que enchem as páginas da história do Ancien Régime.

Vejamos apenas alguns pequenos exemplos:

* O Grand Condé

O primeiro desses casos passou-se com Luís II de Bourbon, cujos títulos eram: Príncipe de Conde, primeiro príncipe de sangue real, primeiro Par de França, Duque d’Enghien, de Bourbonnais, de Châteauroux, de Montmorency, Cavaleiro das Ordens do Rei, governador da Borgonha e de Bresse.

Em 1674, após uma grande batalha, na qual a bandeira francesa alcançou esplêndida vitória graças à coragem e sabedoria do Príncipe de Condé, o Rei Luís XIV quis recebê-lo solenemente no palácio de Saint-Germain.

Tolhido pelos ferimentos ainda não cicatrizados e por um reumatismo (nessa ocasião contava com 53 anos), o Grand Condé desculpava-se por subir demasiado lentamente a grande escada no alto da qual o rei e a corte o esperavam, Luís XIV lhe respondeu:

— Quem vem tão carregado de vitórias não pode caminhar depressa!

* “Espere mais um pouco…”

Outro fato deu-se com um soldado que perdera o braço numa batalha, e por isso ficara inválido. Todas as semanas ia ao Palácio de Versailles aguardar a passagem do rei e pedir-lhe um aumento de sua pensão, pois o que recebia não era suficiente para o sustento de sua família.

A resposta do rei, invariavelmente, era:

— Está bem, espere mais um pouco…

Assim aconteceu durante várias semanas.

Um dia ao renovar seu pedido, ouviu do Rei a costumeira resposta.

Tendo o rei passado adiante, o soldado, fazendo uma reverência, disse:

— Majestade!

O rei voltou-se para o soldado, fazendo um gesto permitindo-lhe falar:

— Majestade, se eu houvesse respondido a meu comandante, “espere mais um pouco”, quando recebi a ordem de avançar, talvez eu ainda estivesse com o meu braço!

O Rei gostou tanto de ouvir aquela ousada frase que imediatamente deu ordem para que sua pensão não fosse aumentada, mas duplicada!

Os caminhos da vida…

A vida do homem sobre a terra é uma luta, já dizia a Escritura no livro de Jó. É ao mesmo um campo de batalha e uma encruzilhada, pois, quantos caminhos diferentes pode-se tomar na vida? Certamente muitos… e que conduzem cada qual a um determinado fim; alguns felizes, outros nem tanto…

Uma pequena lenda muitas vezes pode elucidar grandes verdades. Vejamos…

“Encaminhavam‑se três viajantes para um país longínquo, em busca de honras e fortunas. Por algum tempo, andaram juntos, consultando o mesmo roteiro, comendo do mesmo pão e dormindo sob a mesma tenda.

Apesar de ser o rumo determinado com relativa facilidade pelas constelações, começaram eles a preocupar‑se com os acidentes do terreno e bem cedo suas opiniões se dividiram. Por esse tempo, atravessavam uma vasta zona deserta e sentiram‑se aflitos ao ver quase terminada a provisão de água. Temendo as torturas da sede, depois de acalorada discussão, resolveram separar‑se dois deles, tomando caminhos que lhes pareciam mais razoáveis.

O primeiro, desprezando o mapa, que levavam, saiu sozinho pelo areal ardente, ansioso por achar uma fonte e depois o país remoto. Andou dias e dias, até se esgotarem todos os recursos para a longa viagem. Em meio de sua angústia, entreviu, ao longe, um córrego de águas cristalinas. Correu para ele, fazendo os derradeiros esforços para chegar à margem. Mas tombou moribundo e sem esperanças, quando verificou que a corrente era apenas uma enganadora miragem.

O segundo viajante também desprezou o roteiro e seguiu o rumo aconselhado por outros, antes da partida, homens que jamais quiseram arriscar‑se a empreender a perigosa jornada. Após alguns dias de inauditas canseiras, viu, à distância, o que lhe pareceu um lago. Estugou o passo até chegar à margem e exultou de alegria ao ver que tinha água fresca à disposição. Mas sofreu, em seguida, decepção amarga, ao provar da água e verificar que era salgada. Tinha diante de si apenas um braço de mar, avançando por solitárias regiões. Ali mesmo expirou exânime o louco aventureiro.

Mas o terceiro caminhante agiu doutro modo. Assentado na areia, poupando as forças, examinou detidamente o roteiro, orientou‑se pelas estrelas e foi‑lhe fácil, afinal, acertar com uma quase apagada vereda. Alcançou breve um delicioso oásis, onde descansou, comeu frutos e bebeu água fresca e límpida. Uma caravana que passava, levou‑o seguramente à terra desejada e aí encontrou muito mais do que havia sonhado em honras e riqueza!

Um velho contou esta história à um grupo de jovens, que o escutava atentamente e acrescentou:

‑ Meus filhos: o roteiro, que nos ensina o caminho para o país longínquo, é a Palavra de Deus, Nosso Senhor.

O primeiro viajante é o homem que, desprezando os ensinamentos sagrados, deixando de olhar para o alto e preocupando‑se apenas com os interesses mundanos, se dirige tão somente com a fraca luz de sua inteligência. No final da vida, verifica que perseguiu miragens enganadoras e já não tem mais forças nem tempo para retroceder.

O segundo viajante é o que espera achar o rumo através da filosofia e da opinião dos homens. Segue conselhos, faz esforços bem intencionados, porém tudo em vão, porque seus conselheiros são homens que apenas dizem: “Fazei assim”, e eles mesmos nunca empreenderam a heróica jornada.

Mas o terceiro viajante é o que lê atentamente a Sagrada Escritura, medita nos seus profundos ensinamentos, olha para o alto e obedece com fidelidade aos divinos preceitos. A despeito de toda a aridez da vida, não tarda a encontra‑se no consolador oásis da fé e são as virtudes evangélicas que o levam, pela graça divina, à presença de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Quereis um conselho? Não desprezes, filhos meus, esse roteiro, enquanto fazeis vossa jornada pelo caminho da vida!”

Athalicio Pithan