O “leão” de Lyon

Ad maiora natus sum! Eis o brado que marcou as páginas da hagiografia, isto é, da História dos Santos. Diz-se que Sto Estanislau Kotska ao ver-se diante de uma tentação, de algo ou alguém que o chamava a escolher um caminho diferente daquele para o qual fora chamado, exclamava: “Nasci para coisas maiores!” Se analisarmos mais detidamente esta frase podemos afirmar que todos os homens nasceram para coisas maiores pois, como afirmou São Tomás de Aquino, Deus não poderia criar nada que não fosse para Sua glória, assim sendo, todos foram criados não só para coisas maiores, mas para o “Maior” por excelência que é Deus.

Mas alguns são chamados de uma forma especial pela providência, a exercer um papel de maior preponderância entre os outros, a se destacarem em virtude, contemplação e visão, enfim, a saírem do plano terreno, do lufa-lufa diário e alçarem vôos de águia pelos céus infinitamente superiores da doutrina Católica, do pensamento Católico e, sobretudo, do modo católico de viver.

A história, com a sua grande capacidade de definição, relegou a certos homens qualificativos que bem expressam a missão exercida por eles em determinado período histórico. Quem, por exemplo, nunca ouviu falar do “Roi Soleil”, predicado dado a Luis XIV rei da França? Ou do grande rei da Inglaterra e chefe da terceira cruzada, Ricardo Coração de Leão? Aliás, a mesma história, para não fugir à regra, acabou recebendo o qualificativo de “mater et magistra”. Analogamente podemos com toda propriedade, atribuir a um desses grandes homens que a história conheceu, o titulo de Leão, esse homem foi Sto Ireneu de Lyon.

A Santa Igreja já no seu nascedouro passou por numerosas provações, dentre elas as numerosas perseguições do Império Romano, que derramou uma quantidade enorme de sangue inocente, fazendo com que numerosos cristãos pagassem com a própria vida o fato de abraçarem a Fé Católica. Mas havia outro inimigo muito mais sutil e ladino que já não visava tirar a vida do corpo, como fizeram os ímpios imperadores romanos, mas sim arrancar e destruir nas almas a Fé. Este inimigo chama-se heresia, que se “vestiu” com diversas “roupagens” ao longo dos séculos, ora negando diretamente as verdades da Fé, ora procurando reinterpretá-las de acordo com falsos critérios.

Mas apesar disso, podemos afirmar com São Paulo: “oportet haereses esse”( 1 Cor. 11,19), pois assim como um músculo que passa muito tempo na ociosidade corre o risco de atrofiar-se, algo análogo aconteceria se a Santa Igreja não tivesse heresias e inimigos a combater. As heresias contribuiram em larga medida para o desenvolvimento da Doutrina Católica. Uma vez sendo necessário refutar os falsos ensinamentos, acabou a Igreja desenvolvendo ainda mais sua doutrina e fortalecendo suas sagradas “muralhas” contra os ataques de seus adversários internos ou externos. É justamente nesse contexto que nasceu e viveu Santo Ireneu, um dos maiores baluartes dessa “muralha” em seu tempo.

Sobre sua vida paira um mistério. O que sabemos é que nasceu por volta do ano 150 de família cristã, na cidade de Esmirna, na Ásia Menor, atual Turquia. Foi um dos últimos Padres Apostólicos que, segundo seu próprio comentário, “possuíam a voz dos Apóstolos nos ouvidos e os seus exemplos diante dos olhos.” Isso se deve ao fato de haver, quando criança, tomado contato com São Policarpo de Esmirna, o qual, por sua vez, fora discípulo de São João Evangelista.

Qual a melhor maneira de combater o mal senão mostrá-lo tal qual ele o é, ou seja, desmascará-lo, e evitar com isso os mil e um estratagemas e disfarces que fazem com que ele apareça com certa característica de bem? É este, indubitavelmente, o grande mérito de Santo Ireneu, pois ao estruturar e decifrar a heresia gnóstica, mostrando suas falácias e seus sofismas, refutou-a por de modo brilhante.

Escreveu diversas obras, entre as quais se destaca o Adversus Haereses, composto de cinco livros, nos quais o santo descreve os principais ramos do gnosticismo da época, e desenvolve a Doutrina Católica em diversos pontos como, por exemplo, no que tange à Santíssima Trindade, à maternidade divina de Nossa Senhora, à historicidade de alguns Evangelhos e inclusive ao Primado da Igreja de Roma sobre as demais.

Pouco se sabe a respeito de sua morte, porém uma tradição antiga, que remonta a São Jerônimo, afirma ter sido martirizado por hereges, por volta do ano 202, juntamente com outros cristãos num massacre que houve na cidade de Lyon, sob o reinado do imperador Sétimo Severo. A Santa Igreja o venera como mártir, celebrando-o a 28 de junho.

Grandes homens, sobretudo grandes santos sempre marcam a história, alguns por terem sido extremamente caridosos, como é o caso de uma Santa Isabel da Hungria que abandonou corte e honras reais para se entregar ao cuidado dos doentes, outros por serem inteiramente entregues à oração e contemplação como São Simão Estilita. Outros, enfim, marcaram a história, para alegria dos bons e tristeza dos maus, por defenderem como verdadeiros leões, com tenacidade e intransigência, o depósito da Fé e a Doutrina da Santa Igreja. Assim foi o grande Santo Ireneu, o leão de Lyon.

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