Na aparente derrota, a vitória…

 

Arautos Granja Viana: “Na aparente derrota, a vitória…”

Eis que entramos na Semana Maior, mais conhecida como Semana Santa. Nestes dias vem-nos logo à memória a imagem do Divino Redentor chagado, flagelado, coroado de espinhos, escarnecido… Considerações que piedosamente nos conduzem a ter compaixão do Verbo encarnado. Sofrimento que padeceu por nós sem nada merecer… Continue lendo “Na aparente derrota, a vitória…”

“Ele nasceu para morrer por nós”

Quaresma! Estamos na quaresma. A Santa Igreja trocou o verde do tempo comum pelo roxo da penitência. Penitência que Deus quer que seus filhos pratiquem para apresentarem suas almas puras e limpas. Isto porque o próprio Cristo, contador da parábola do Filho pródigo, não considera tanto o começo quanto o fim de nossas obras. Se erramos, é lamentável; mas Ele nos dá a capacidade de arrependermo-nos de sincero coração, consertando nossos atos, esperando de Deus, que não despreza um coração arrependido, a salvação eterna, e, com ela, a felicidade.

Para introduzir o estado de espírito próprio a este período litúrgico, o Centro Juvenil dos Arautos em São Paulo foi objeto de uma oportunidade ímpar: uma conferência com Dom Benedito Beni dos Santos. O prelado, personagem de grande vulto no campo teológico, discorreu sabiamente sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e, de modo mais específico, sobre as palavras ditas pelo Redentor na Cruz.

Pela manhã, Dom Benedito Beni dos Santos teve diante de si um público jovem, tratando do tema acima destacado. Pela tarde, com igual lógica e clareza, tratou sobre os problemas aos quais está exposta a família em nossos dias e, por fim, celebrou solenemente a Santa Missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, localizada no Centro Juvenil.

Entre vários comentários acerca da Paixão, feitos pelo prelado nesta ocasião, colocamos alguns ao conhecimento do caro leitor:

“[Jesus Cristo] anuncia sua morte não como derrota, mas como glorificação: ‘chegou a hora em que o filho do homem será glorificado’. E, se nós pensarmos bem, a morte de Cristo foi de fato uma glorificação. Em primeiro lugar foi uma glorificação porque não foi um simples deixar de existir. Foi uma morte de martírio, testemunho supremo de sua fidelidade à missão do Pai.

A morte de Cristo foi uma glorificação porque foi uma morte redentora. Na Cruz, por amor, Ele oferece a vida a Deus Pai, mas oferece em nosso favor, para o nosso proveito, para a nossa salvação. Finalmente, sua morte na Cruz foi uma glorificação porque Ele morreu para ressuscitar.” (Dom Benedito Beni dos Santos).

 

A Santa Mãe de Deus e seus títulos

Arautos Granja Viana: “A Santa Mãe de Deus e seus títulos”

Uma das maneiras de medirmos a grandeza de um nobre é conhecermos os seus títulos. Por exemplo, o Grand Condé, Luís II de Bourbon, contemporâneo de Luís XIV, possuía os seguintes títulos: Príncipe de Condé, Primeiro Príncipe de sangue real, Primeiro Par de França, Duque d’Enghien, Duque de Bourbonnais, Duque de Châteauroux, Duque de Montmorency, Cavaleiro das Ordens do Rei, Governador da Borgonha e Governador de Bresse.

Vemos que não é qualquer um esse Grand Condé. De fato, ele foi uma das glórias do reino de França.

O mesmo se passa com um rei ou com uma rainha. Seria um disparate dizer que cada título faz com que um Rei, uma Rainha ou um nobre seja outra pessoa. No caso do Grand Condé ele se multiplicaria em 10 pessoas, pois este é o número de seus títulos nobiliárquicos. Bem sabemos que isso não é assim, pois ele possui todos esses títulos.

Isso não se passa somente no campo nobiliárquico. Por exemplo, um Embaixador pode ser formado em Medicina, Catedrático de História, professor de diversos idiomas, etc. Então, vemos  que um só homem pode ter vários títulos.

Pode-se dar um exemplo mais fácil de se entender ainda: nossa mãe, a mesma que cuida de nós, vai ao supermercado, à feira, talvez tenha algum trabalho fora. Em nenhum momento ela deixa de ser a nossa mãe para ser a senhora que vai fazer compras. Ela será sempre a nossa mãe!

Se assim é com um nobre, com um embaixador, com uma mãe, muito mais será com Aquela que foi escolhida para ser Mãe de Deus, a Santíssima Virgem Maria! Nosso Senhor Jesus Cristo é o “Rei dos reis e Senhor dos senhores”, segundo está afirmado nas Sagradas Escrituras. Ora, se Nosso Senhor Jesus Cristo é Rei, Nossa Senhora é Rainha, pois Ela é a Mãe do Rei.

Para se ter uma ideia só em um livro há 378 invocações de Nossa Senhora![1] Outro trata sobre os “mil nomes de Nossa Senhora”[2]!

São Bernardo disse que “de Maria nunquam satis – de Maria, nunca basta”, o que se pode dizer sobre Ela é inesgotável. A tal ponto isso é assim, que na Europa saem em média mil livros sobre Nossa Senhora, por ano!

Sobre esta frase de São Bernardo, comenta São Luis Maria Grignon de Montfort[3]: “Ainda não se louvou, exaltou, honrou, amou e serviu suficientemente a Maria, pois muito mais louvor, respeito, amor e serviço Ela merece. (…) Os Santos disseram coisas admiráveis desta Cidade Santa de Deus. (…) E, depois, proclamaram que é impossível perceber a altura de seus méritos, que Ela elevou até o trono da Divindade; que a largura de sua caridade mais extensa que a Terra, não se pode medir.”

Só para ilustrar melhor a afirmação que faz São Luís, é interessante conhecermos que a superfície da Terra é estimada em 510.065.500 Km2! Pois bem, São Luís diz que a caridade, o amor de Nossa Senhora a Deus é mais extenso que a Terra!

São Luís continua: “A profundeza de sua humildade e de todas as suas virtudes e graças são um abismo impossível de sondar!”

O maior Monte da Terra é o Everest, com 8.848 m! Onde há grandes montanhas, há grandes abismos, imaginem os que ali se podem encontrar! Isso não é nada em comparação com os “abismos” de virtude de Nossa Senhora!

Terminemos o que diz São Luís: “Os olhos não viram, o ouvido não ouviu, nem o coração do homem compreendeu as belezas, as grandezas e excelências de Maria, o milagre dos milagres da graça, da natureza e da glória.”

Em artigos futuros conheceremos alguns títulos de Nossa Senhora, não de todos, porque isso é impossível, dado a imensa quantidade de seus títulos e invocações.

(Retirado de artigo publicado pelo boletim: Triunfo do Imaculado coração de Maria).

 


[1] Cfr. Miryam, de Mário Fonseca.

[2] Cfr. Os Cinco Minutos de Maria, de Alfonso Milagro.

[3] São Luís Maria Grignon de Montfort, Tratato da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, Vozes, Petrópolis, 1961, pp. 20-23.

E o Verbo se fez carne…

Mais algum tempo e terá passado o Tempo do Natal, conforme nos ensina a Liturgia. Todavia, certamente não será tempo de esquecer os preciosos ensinamentos e esperanças que nos deu a Encarnação do Verbo de Deus, como lembra o Pe. Thomas de Saint-Laurent:

“O sábio constrói a casa sobre o rochedo: nem inundação, nem chuvas, nem tempestades a poderão lançar por terra. Para que o edifício da nossa confiança resista a todas as provas, preciso é que se eleve sobre bases inabaláveis.

“Quereis saber, diz São Francisco de Sales, que fundamento deve ter a nossa confiança? Deve basear‑se na infinita bondade de Deus e nos méritos da Morte e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, com esta condição da nossa parte: a firme e total resolução de sermos inteiramente de Deus e de nos abandonarmos completamente e sem reservas à sua Providência” ([1]).

As razões de esperança são demasiado numerosas para que possamos citá‑las todas. Examinaremos aqui somente as que nos são fornecidas pela Encarnação do Verbo e pela Pessoa sagrada do Salvador. De resto, é Cristo em verdade a pedra angular ([2]) sobre a qual principalmente deve apoiar‑se a nossa vida interior.

Que confiança nos inspiraria o mistério da Encarnação, se nos esforçássemos por estudá‑lo de maneira menos superficial!…

Quem é essa criança que chora no presépio, quem é esse adolescente que trabalha na oficina de Nazaré, esse pregador que entusiasma multidões, esse taumaturgo que opera prodígios sem conta, essa vítima inocente que morre na Cruz?

É o Filho do Altíssimo, eterno e Deus como o Pai… é o Emanuel desde tanto tempo esperado; é Aquele que o Profeta chama o “Admirável, o Deus forte, o Príncipe da paz” ([3]).

Mas Jesus ‑ disto nos esquecemos frequentemente ‑ é nossa propriedade. Em todo o rigor do termo, Ele pertence‑nos; é nosso; temos sobre Ele direitos imprescritíveis, pois o Pai celeste no‑Lo deu. A Escritura assim o afirma: “O Filho de Deus nos foi dado” ([4]).

E São João, no seu Evangelho, diz também: “Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho Unigênito” ([5]).

Ora, se Cristo nos pertence, os méritos infinitos dos seus trabalhos, dos seus sofrimentos e da sua morte pertencem‑nos também. Sendo assim, como poderíamos perder a coragem? Entregando‑nos o Filho, o Pai do Céu deu‑nos a plenitude de todos os bens. Saibamos explorar largamente esse precioso tesouro.

Dirijamo‑nos, pois, aos Céus com santa audácia; e, em nome desse Redentor que é nosso, imploremos, sem hesitar, as graças que desejamos. Peçamos as bênçãos temporais e sobretudo o socorro da graça; para a nossa Pátria solicitemos paz e prosperidade; para a Igreja, calma e liberdade.

Essa oração será certamente atendida.” (O Livro da Confiança. Padre Thomas de Saint Laurent, cap. V.)

Certamente ainda é tempo de ver as comemorações natalinas que os arautos em São Paulo fizeram no decorrer deste período natalino. Veja mais fotos na página ÚLTIMAS ATIVIDADES, APRESENTAÇÕES NATALINAS…


[1] ) Les vrais entretiens spirituels. Ed. de Annecy, t. VI, p. 30.

[2] ) Cf. Atos, IV, 11.

[3] ) Isaías, 9, 6.

[4] ) Filius datus est nobis. Isaías, IX, 6.

[5] ) Jo. 3, 16.

A doçura de viver

Arautos em São Paulo: “A doçura de viver”

Vida… dela quem não gosta? Muitos podem até oferecê-la em palavras, mas desprender-se de um tão grande bem como esse é especialmente difícil. No entanto, apesar de o benefício ser comum a todos os homens, uma coisa não é discutível: há modos e modos de se levar a vida…

Há quem tenha vivido de tal maneira que no fim de seus dias tenha podido exclamar: “como foi doce viver!” Mais que uma simples pessoa, houve época em que se pôde dizer haver a verdadeira “doçura de viver”, ou melhor, a douceur de vivre”, onde o trato de uns para com os outros de tal modo eram requintados em educação e respeito que, não fosse o conhecimento das mazelas humanas, quase se pensaria viver no paraíso. Tal período foi intitulado como Antigo Regime, Ancién Régime, antes da terrível mudança ocorrida na França por ocasião da Revolução de 1789.

Entre os elementos que constituíam a “doçura de viver”, especial papel era dado àquele modo distinto de proceder e de falar, conhecido pela expressão politesse (polidez). Essa qualidade encontrava-se difundida por todas as classes sociais e se baseava numa espécie de necessidade inata de devotamento, abnegação e dom de si mesmo. Tal estado de espírito era a aplicação do ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos tenho amado.” (Jo 13, 34)

Mas, o que é a politesse?

Um escritor (Hipolyte Taine) bem a definiu:

“É uma “arte engenhosa e encantadora que penetra todos os pormenores da palavra e da ação para transformá-las em graça [no sentido de bom trato, de encanto], e que impõem ao homem, não o servilismo e a mentira, mas o respeito e a preocupação com os num padrão que não é o seu, mas o que analisamos aqui é o seu modo de tratar. outros, permitindo-lhe, em contrapartida, extrair da sociedade humana toda a alegria que ela pode proporcionar”.

Juntamente com a politesse, desabrochou outra rosa, a causerie, a arte de conversar.

Naqueles tempos essa arte se desenvolveu com tal brilho, transformou-se em algo tão magnífico, que passou a ser reputada uma das mais altas distinções da vida. Por amor à brevidade, é-nos impossível contar os inumeráveis casos de politesse e causerie que enchem as páginas da história do Ancien Régime.

Vejamos apenas alguns pequenos exemplos:

* O Grand Condé

O primeiro desses casos passou-se com Luís II de Bourbon, cujos títulos eram: Príncipe de Conde, primeiro príncipe de sangue real, primeiro Par de França, Duque d’Enghien, de Bourbonnais, de Châteauroux, de Montmorency, Cavaleiro das Ordens do Rei, governador da Borgonha e de Bresse.

Em 1674, após uma grande batalha, na qual a bandeira francesa alcançou esplêndida vitória graças à coragem e sabedoria do Príncipe de Condé, o Rei Luís XIV quis recebê-lo solenemente no palácio de Saint-Germain.

Tolhido pelos ferimentos ainda não cicatrizados e por um reumatismo (nessa ocasião contava com 53 anos), o Grand Condé desculpava-se por subir demasiado lentamente a grande escada no alto da qual o rei e a corte o esperavam, Luís XIV lhe respondeu:

— Quem vem tão carregado de vitórias não pode caminhar depressa!

* “Espere mais um pouco…”

Outro fato deu-se com um soldado que perdera o braço numa batalha, e por isso ficara inválido. Todas as semanas ia ao Palácio de Versailles aguardar a passagem do rei e pedir-lhe um aumento de sua pensão, pois o que recebia não era suficiente para o sustento de sua família.

A resposta do rei, invariavelmente, era:

— Está bem, espere mais um pouco…

Assim aconteceu durante várias semanas.

Um dia ao renovar seu pedido, ouviu do Rei a costumeira resposta.

Tendo o rei passado adiante, o soldado, fazendo uma reverência, disse:

— Majestade!

O rei voltou-se para o soldado, fazendo um gesto permitindo-lhe falar:

— Majestade, se eu houvesse respondido a meu comandante, “espere mais um pouco”, quando recebi a ordem de avançar, talvez eu ainda estivesse com o meu braço!

O Rei gostou tanto de ouvir aquela ousada frase que imediatamente deu ordem para que sua pensão não fosse aumentada, mas duplicada!

Um Menino que transformou a História

 

“Entremos numa certa Gruta e ali veremos um Menino adorado por sua Mãe Santíssima e São José, reunidos em família, oferecendo mais glória a Deus do que toda a humanidade idólatra, e até mesmo mais do que os próprios Anjos do Céu em sua totalidade. Já em seu nascimento, numa singela manjedoura, aquele Divino Infante reparava os delírios de glória egoísta sofregamente procurada pelos pecadores. Ele se encarnou para fazer a vontade do Pai e, assim, dar-nos o perfeitíssimo exemplo de vida.” (CLÁ DIAS, Mons. João Scognamiglio. O Inédito sobre os Evangelhos. Cittá del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, p. 105-106, vol. V).

Ao acompanharmos a Liturgia nesses dias contemplamos o nascimento de um Menino, o qual, dividindo a História ao meio, merece perene louvor pelos séculos, representado pela solene oitava de comemoração do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Se enganaria quem julgasse o Natal como data passada, um dia mais festivo em meio às centenas de outros tantos. Certamente assim seria, se o nascimento comemorado fosse de qualquer um de nós e não de Deus, como de fato é. Nascimento de Deus? A pergunta mostra-se absurda em sua elaboração, pois quem é Deus obviamente não tem princípio. Todavia, o que para os homens parece absurdo, para Deus foi o meio escolhido para demonstrar aos mesmos homens, dignos de todo castigo, o amor e a condescendência d’Aquele que não se horrorizou em tomar nossa carne para nos reconduzir àquela pátria impossível de alcançar, não fosse a verdade de um tão admirável Natal.

Natal glorioso, mas ao mesmo tempo silencioso, repleto de luz e, entretanto, escondido em meio às trevas da meia-noite, cantado pelos Anjos do Céu, presenciado apenas pelos pastores da terra… Paradoxo sublime! Registrado nas páginas da História, lembrado nas canções… Canções? Sim, canções; e das mais variadas partes do mundo e épocas históricas. Foi precisamente para rememorar essas canções que os jovens do Projeto Futuro & Vida prepararam diversas apresentações natalinas neste fim de ano. Uma delas, e digna de nota, foi realizada na diretoria de ensino do município de Osasco – SP, como todos poderão acompanhar nas fotos deste post, e da página “ÚLTIMAS ATIVIDADES”, deste mesmo blog.

Quem é mais, manda menos…

A vida comum e corrente de todos os dias nos traz ensinamentos valorosos na compreensão de vários acontecimentos. A observação detida, e às vezes desinteressada, pode nos fornecer princípios que talvez décadas de estudo não proporcionariam. Assim nascem, na maioria das vezes, os chamados “ditados populares”, os quais, diga-se de passagem, resumem em pequenas sentenças o que os livros dedicariam boas páginas no intuito de tratar dignamente de certos temas.

Pois bem, um dos ditos populares muito familiar a nossos ouvidos talvez seja: “Quem pode mais, chora menos…” Frase um pouco crua no que diz respeito a uma educação mais polida, porém, verdadeira. Não obstante, mais do que o simples significado da afirmação, o que nos interessa no presente momento é a “moldura” que a reveste, a qual, sem muita dificuldade, deixa entrever que aquele que possui maior força, maior poder, maior autoridade, é o que faz valer sua voz, é o que subjuga, que intimida precisamente pelo que representa diante dos outros. Essa concepção, apesar de não figurar tão sem véus assim, é o modo como muitas vezes interpretamos a toda e qualquer autoridade, como se a hierarquia viesse de fábrica com uma espécie de selo macabro e injusto. Ora, a análise de uma vida digna de imitação, isto é, a de Nosso Senhor Jesus Cristo bem nos mostra uma outra concepção acerca da hierarquia, conforme comenta Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP:

“À primeira vista, a constituição da Sagrada Família é um mistério, pois nela quem tem mais autoridade é São José, como patriarca e pai, com direito sobre a esposa e sobre o fruto de suas puríssimas entranhas.

A esposa é Mãe de Deus, Mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Sendo Mãe, tem Ela poder sobre um Deus que Se encarnou em seu seio virginal e Se fez seu Filho.

Nosso Senhor Jesus Cristo, como filho, deve obediência a esse pai adotivo, aceitando em tudo a orientação e a formação dada por José; e também à sua Mãe, criatura sua. Que imenso, insondável e sublime paradoxo!

Assim, na ordem natural, José é o chefe; Maria, a esposa e mãe; e Jesus, a criança. Porém, na ordem sobrenatural, o Menino é o Criador e Redentor; Ela, a Medianeira de todas as graças, Rainha do Céu e da Terra; e José, o Patriarca da Igreja. José, o que de si tem menos poder, exerce a autoridade sobre Nossa Senhora, a qual tem a ciência infusa e a plenitude da graça, e sobre o Menino, que é o Autor da graça.

Por que dispôs Deus essa inversão de papéis?

Assim fez para nos dar uma grande lição: Ele ama a hierarquia e deseja que a sociedade humana seja governada por este princípio, do qual o próprio Verbo Encarnado quis dar exemplo.”[1]


[1] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2012, 130-131, vol. V.

De onde nasce a glória da Igreja?

Quem não se encanta ao visitar ou conhecer as maravilhosas riquezas da Santa Igreja? A alguns, tocará de maneira toda especial a imponência de suas construções que, refletindo a alma dos que as idealizaram, parecem convidar aos que as contemplam a elevarem-se com suas torres, que por vezes parecem tocar o céu. Outros se enlevarão com os interiores das catedrais com suas paredes pintadas pelos raios de sol que, atravessando os vitrais, formam uma harmonia encantadora de luzes e cores. A outros, ainda, estará impressa na alma a recordação de alguma grande e solene celebração, numa ideia de conjunto formada pela beleza do templo, a solenidade da liturgia, o perfume do incenso e os acordes do órgão que lhes fizeram viver alguns instantes que mais pareceram celestes do que terrenos.

Alguém poderia levantar o seguinte problema: “É indiscutível que tudo isso é muito bonito; porém, por que tanta grandeza e de onde vem toda esta majestade, toda esta glória manifestada pela Igreja?” Em sua infinita sabedoria, Deus colocou na criação certas coisas que pareceriam muito contraditórias à primeira vista, mas na verdade constituem uma perfeita harmonia e muitas vezes se completam; por exemplo, quando Nosso Senhor nos convida a sermos simples como as pombas, entretanto, astutos como as serpentes (Cf. Mt 10, 16) Assim, Deus dá à sua Igreja dias de uma glória admirável, contudo, essa glória nasce de outra face muitas vezes oculta aos olhos de muitos, que é a dor.    Pensemos nos primeiros séculos de fundação da Igreja, em que só pelo fato de serem cristãos, milhares de homens, mulheres e crianças suportavam terríveis e atrozes torturas que culminavam com a morte, por amor ao Santíssimo nome de Jesus e de sua Santa Igreja. Pensemos nos sofrimentos dos Papas ao longo da história que, recebendo a missão de dirigir o rebanho de Cristo em meio a perseguições, divisões, e tantas formas de perigos pelas quais passou a Santa Igreja, fizeram de seu dever, um altar em que eles próprios imolaram suas próprias vidas a serviço de Deus e do próximo. Pensemos nos religiosos e religiosas de todas as épocas, cada um tendo que enfrentar as mais duras provações interiores características a este gênero de vida, e que sofrendo tudo no silêncio de seu recolhimento, sobre eles se debruçavam os próprios anjos e atraiam as bênçãos de Deus.

E assim, se percorrêssemos toda a história da Santa Igreja, desde o seu nascedouro até os dias de hoje, nos encantaríamos com páginas de glórias imortais vividas por ela, entretanto, quantas páginas de dor e de sofrimento… Caro leitor, esta não parece também um pouco a sua história? É bem verdade que temos em nossas vidas momentos de grandes alegrias, mas, quantas aflições, dúvidas e dificuldades. Diante de cada sofrimento que nos depararmos ao longo de nossa vida, saibamos ver no fim, a glória que nos está reservada por Deus no Céu, se soubermos com serenidade, paciência e confiança, levar a cruz de todos os dias; e ao contemplarmos as grandezas e esplendores da Santa Igreja, aprendamos a olhar a fundo a raiz desta glória que nasceu principalmente do Sangue Preciosíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo, das lágrimas de Maria Santíssima, e também da dor e do sofrimento de um número incontável de almas generosas que souberam atender ao convite de Nosso Senhor: “Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34).