“Eis a serva do Senhor”

Obedecendo, ensina Santo Irineu, a Santíssima Virgem tornou-Se causa de salvação, para si e para todo o gênero humano.[1]

Diz o Evangelho:

O anjo disse-lhe: “Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim”. Maria perguntou ao anjo: “Como se fará isso, pois não conheço homem?” Respondeu-lhe o anjo: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, até ela concebeu um filho na sua velhice; e já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível.” Então disse Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo afastou-se dela” (Lc 1, 30-38).

Neste trecho da Sagrada Escritura repleto de bênção e cheio de unção Divina, São Lucas nos faz meditar sobre a humilde e discreta obediência d’Aquela a quem devemos a Encarnação do Verbo.

Se percebermos a Virgem ficar atônita por um instante, não é porque está hesitada diante da vontade de Deus, mas é porque sua incomparável humildade e delicada pureza A faz temer a insigne honra da maternidade divina.

Escutemos Santo Ambrósio:

Maria não iria recusar a crer no anjo, e nem usurpar temerariamente as coisas divinas. Por isso disse ao anjo: “como se fará isto?” Esta resposta foi mais oportuna do que a do sacerdote. Maria disse “como se fará isso? e aquele disse: “como poderei saber isto?” Aquele se nega a crer e parece buscar outro motivo que confirme sua fé, porém Maria não duvida que ela deve fazer, visto que pergunta como se fará.[2]

Assim, no coração de Maria não havia outra resposta a não ser o “fiat”, proclamando-se “serva do Senhor”, frase usual no ambiente oriental para se falar com um superior, aceita os desígnios divinos, que é uma mostra de confiança e de obediência à Palavra de Deus. Através desse consentimento, Maria tornou-se Mãe de Jesus e “consagrou-se totalmente, como escrava do Senhor, à pessoa e obra de seu Filho”.[3]

Na antiguidade, época em que a escravidão era prática comum, é onde devemos valorar esta expressão. O escravo não tinha vontade própria e nem um querer fora de seu amo. Também Nossa Senhora, diante de Deus, não tinha outro querer senão o Divino[4]. Por isso, inclinou-se diante da palavra do anjo e pronunciou seu “Fiat” imortal, que ecoará até o fim, soando mesmo no meio das humilhações e dos abandonos do Calvário. De sua alma submissa sempre se evolará o brado da obediência e do amor: “Fiat mihi secundum verbum tuum” (Lc 1, 38).[5]


[1] Cf. IRINEU. Adver. Haer. 3, 22, 4. In: MIGNE, J. P. Patrologiae Cursus Completus: Patrologiae Graecae. Vol. 7, p. 959.

[2] Apud. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. Vol. IV. Buenos Aires: CCC, 1946. p. 20.

[3] “Ita Maria filia Adam, verbo divino consentiens, facta est Mater Iesu, ac salvificam voluntatem Dei, pleno corde et nullo retardata peccato, complectens, semetipsam ut Domini ancillam personae et operi Filii sui totaliter devovit, sub Ipso et cum Ipso, omnipotentis Dei gratia, mysterio redemptionis inserviens”. (CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 21 nov. 1964. In: AAS 57 (1965) 56. p. 60. Tradução do autor).

[4] Cf. TUYA, Manuel. Biblia Comentada: Evangelios. Vol Vb. 3. ed. Madrid: BAC, 1977. p. 28.

[5] Cf. L’AMI DU CLERGÉ PAROISSIAL. Sermon Pour la Purification. Saint Pierre, n. 3, 16 jan. 1902. p. 49-56.

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O “leão” de Lyon

Ad maiora natus sum! Eis o brado que marcou as páginas da hagiografia, isto é, da História dos Santos. Diz-se que Sto Estanislau Kotska ao ver-se diante de uma tentação, de algo ou alguém que o chamava a escolher um caminho diferente daquele para o qual fora chamado, exclamava: “Nasci para coisas maiores!” Se analisarmos mais detidamente esta frase podemos afirmar que todos os homens nasceram para coisas maiores pois, como afirmou São Tomás de Aquino, Deus não poderia criar nada que não fosse para Sua glória, assim sendo, todos foram criados não só para coisas maiores, mas para o “Maior” por excelência que é Deus.

Mas alguns são chamados de uma forma especial pela providência, a exercer um papel de maior preponderância entre os outros, a se destacarem em virtude, contemplação e visão, enfim, a saírem do plano terreno, do lufa-lufa diário e alçarem vôos de águia pelos céus infinitamente superiores da doutrina Católica, do pensamento Católico e, sobretudo, do modo católico de viver.

A história, com a sua grande capacidade de definição, relegou a certos homens qualificativos que bem expressam a missão exercida por eles em determinado período histórico. Quem, por exemplo, nunca ouviu falar do “Roi Soleil”, predicado dado a Luis XIV rei da França? Ou do grande rei da Inglaterra e chefe da terceira cruzada, Ricardo Coração de Leão? Aliás, a mesma história, para não fugir à regra, acabou recebendo o qualificativo de “mater et magistra”. Analogamente podemos com toda propriedade, atribuir a um desses grandes homens que a história conheceu, o titulo de Leão, esse homem foi Sto Ireneu de Lyon.

A Santa Igreja já no seu nascedouro passou por numerosas provações, dentre elas as numerosas perseguições do Império Romano, que derramou uma quantidade enorme de sangue inocente, fazendo com que numerosos cristãos pagassem com a própria vida o fato de abraçarem a Fé Católica. Mas havia outro inimigo muito mais sutil e ladino que já não visava tirar a vida do corpo, como fizeram os ímpios imperadores romanos, mas sim arrancar e destruir nas almas a Fé. Este inimigo chama-se heresia, que se “vestiu” com diversas “roupagens” ao longo dos séculos, ora negando diretamente as verdades da Fé, ora procurando reinterpretá-las de acordo com falsos critérios.

Mas apesar disso, podemos afirmar com São Paulo: “oportet haereses esse”( 1 Cor. 11,19), pois assim como um músculo que passa muito tempo na ociosidade corre o risco de atrofiar-se, algo análogo aconteceria se a Santa Igreja não tivesse heresias e inimigos a combater. As heresias contribuiram em larga medida para o desenvolvimento da Doutrina Católica. Uma vez sendo necessário refutar os falsos ensinamentos, acabou a Igreja desenvolvendo ainda mais sua doutrina e fortalecendo suas sagradas “muralhas” contra os ataques de seus adversários internos ou externos. É justamente nesse contexto que nasceu e viveu Santo Ireneu, um dos maiores baluartes dessa “muralha” em seu tempo.

Sobre sua vida paira um mistério. O que sabemos é que nasceu por volta do ano 150 de família cristã, na cidade de Esmirna, na Ásia Menor, atual Turquia. Foi um dos últimos Padres Apostólicos que, segundo seu próprio comentário, “possuíam a voz dos Apóstolos nos ouvidos e os seus exemplos diante dos olhos.” Isso se deve ao fato de haver, quando criança, tomado contato com São Policarpo de Esmirna, o qual, por sua vez, fora discípulo de São João Evangelista.

Qual a melhor maneira de combater o mal senão mostrá-lo tal qual ele o é, ou seja, desmascará-lo, e evitar com isso os mil e um estratagemas e disfarces que fazem com que ele apareça com certa característica de bem? É este, indubitavelmente, o grande mérito de Santo Ireneu, pois ao estruturar e decifrar a heresia gnóstica, mostrando suas falácias e seus sofismas, refutou-a por de modo brilhante.

Escreveu diversas obras, entre as quais se destaca o Adversus Haereses, composto de cinco livros, nos quais o santo descreve os principais ramos do gnosticismo da época, e desenvolve a Doutrina Católica em diversos pontos como, por exemplo, no que tange à Santíssima Trindade, à maternidade divina de Nossa Senhora, à historicidade de alguns Evangelhos e inclusive ao Primado da Igreja de Roma sobre as demais.

Pouco se sabe a respeito de sua morte, porém uma tradição antiga, que remonta a São Jerônimo, afirma ter sido martirizado por hereges, por volta do ano 202, juntamente com outros cristãos num massacre que houve na cidade de Lyon, sob o reinado do imperador Sétimo Severo. A Santa Igreja o venera como mártir, celebrando-o a 28 de junho.

Grandes homens, sobretudo grandes santos sempre marcam a história, alguns por terem sido extremamente caridosos, como é o caso de uma Santa Isabel da Hungria que abandonou corte e honras reais para se entregar ao cuidado dos doentes, outros por serem inteiramente entregues à oração e contemplação como São Simão Estilita. Outros, enfim, marcaram a história, para alegria dos bons e tristeza dos maus, por defenderem como verdadeiros leões, com tenacidade e intransigência, o depósito da Fé e a Doutrina da Santa Igreja. Assim foi o grande Santo Ireneu, o leão de Lyon.

Nossa Senhora: A Luz da Fé

Neste Ano da Fé, no qual todos nós somos convidados a crescermos nesta virtude e manifestá-la pelas obras mediante a perseverança, encontramos em Maria Santíssima o augusto exemplo para imitarmos. Ela que, enquanto todos  duvidavam da Ressurreição do Senhor, foi a única “labareda” de fé que brilhou na escuridão dos dias em que o Salvador descera à mansão dos mortos. Acompanhemos, então, algumas considerações acerca desta Fé de Maria, qual Luz que ilumina em meio às trevas… Continue lendo “Nossa Senhora: A Luz da Fé”

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